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EUA: Incerteza nas eleições e no retalho

A um mês do desfecho das eleições presidenciais nos EUA, os analistas estão tão indecisos sobre o seu impacto nas vendas de vestuário e calçado quanto estão sobre o candidato vencedor.

Não obstante, todos parecem concordar que qualquer que seja o efeito das presidenciais, este deverá ser de curta duração, com uma recuperação logo no pós-eleições. Embora alguns analistas e pesquisas indiquem que a incerteza extrema em torno do confronto “Hillary Clinton versus Donald Trump” poderá afetar os gastos com o vestuário, outros acreditam que o impacto deverá ser reduzido.

«Os debates vão causar uma interrupção nos gastos, porque as pessoas vão concentrar-se nisso e mudar o seu comportamento habitual», afirma Marshal Cohen, analista da indústria de vestuário e retalho no The NPD Group, ao Just-style. Parte da perda de vendas resultante será exagerada, mas vai ser difícil recuperar compras por impulso, argumenta Cohen.

De acordo com Serviço de Acompanhamento ao Consumidor do NPD, a perda de gastos por impulso durante uma eleição presidencial é significativa para a indústria de vestuário dos EUA, uma vez que as compras não planeadas são responsáveis por 29% das vendas anuais. O analista Richard Jaffe, da Stifel, acrescenta que as vendas de moda deste outono «provavelmente serão parcialmente retidas devido à distração do consumidor com uma corrida presidencial muito disputada».

Já Shelley Kohan, vice-presidente de retalho da consultora Retail Next, antecipa que a angústia relacionada com a eleição terá maior impacto nas semanas anteriores e imediatamente após o dia das eleições, a 8 de novembro. «Apesar de estarmos a sugerir aos clientes que antecipem níveis desiguais de tráfego em loja e vendas da última semana de outubro até meados de novembro, também estamos a antecipar que as vendas totais para o mês de novembro serão mais fortes em comparação com novembro de 2015», explica.

Em última análise, os consumidores gostam de certezas e uma recuperação pós-eleições poderá ajudar a que as vendas desfrutem de uma subida a dois dígitos em novembro e dezembro.

Segundo a Alix Partners, que analisou o crescimento das vendas durante os anos de eleições presidenciais (2004 e 2012, porque 2008 foi excluído devido à crise financeira), as vendas diminuíram 22%, em média, em setembro e outubro. Mas rapidamente recuperaram, aumentando a uma média de 16% em novembro e dezembro, com os consumidores a libertarem a procura reprimida e com a proximidade da quadra natalícia.

Indicadores encorajadores

Os analistas apontam para o facto de haver vários indicadores encorajadores, que compõem uma perspetiva positiva para a próxima temporada de retalho.

Jaffe, da Stifel, cita um cenário macroeconómico positivo, incluindo um mercado de trabalho com salários mais altos e desemprego baixo e um aumento do rendimento familiar. A par de tudo isto, a confiança dos consumidores está relativamente forte.

Os indicadores económicos são bons, concorda Kohan, da Retail Next.

«Há dois dias de compras extra entre a Ação de Graças e o Natal, em comparação com a temporada de férias do ano passado, e qualquer angústia residual das eleições será dissipada até à Ação de Graças, o início da temporada de compras natalícias».

Uma pesquisa recente da Harris Poll, encomendada pela Retail Next, prevê que os americanos comprem o mesmo nesta temporada de férias, independentemente de quem fique na Casa Branca.

Entre aqueles que pretendem comprar presentes este Natal, 23% vão gastar menos em compras se Donald Trump for eleito presidente, enquanto 21% vão gastar menos se Hillary Clinton for eleita. A maioria dos consumidores referiu que os resultados não afetariam os gastos.

Já a Alix Partners prevê um aumento entre 3,3% e 4% em novembro e dezembro, enquanto o Conselho Internacional de Centros Comerciais (ICSC na sigla original) antevê um crescimento anual de 3,3% (em comparação com um aumento de 2,2% em 2015) das vendas a retalho em lojas físicas, com os clientes a planearem gastar uma média de 683,90 dólares (aproximadamente 609,879 euros) durante a quadra.

De igual forma, a National Retail Federation (NRF) espera que as vendas em novembro e dezembro aumentem 3,6%, para 655,8 mil milhões de dólares. Jack Kleinhenz, economista da NRF, revela que «os consumidores têm conhecido emprego estável e ganhos no rendimento ao longo do ano, resultando numa confiança continuada e maior utilização de crédito, o que é auspício para mais gastos em toda a época de férias. O aumento da incerteza geopolítica, o resultado das eleições presidenciais e as condições climatéricas adversas são as questões com maior potencial para abalar a confiança do consumidor e impactar nos padrões de consumo».

Por seu lado, Shelley Kohan, da Retail Next, enfatiza que sejam quais forem os números do retalho no final do ano, as razões que os motivaram terão muito pouco a ver com o dia das eleições.