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EUA querem mudar o sourcing

A nação mais importadora de vestuário está a voltar-se para os recursos internos e para os vizinhos da América Central para se abastecer, numa altura em que a Administração Biden retirou três países, entre os quais a Etiópia, do programa de comércio preferencial African Growth and Opportunity Act.

[©White House]

Joe Biden, presidente dos EUA, tem estado ativamente a intervir nas políticas de aprovisionamento do país. Num discurso a 13 de outubro, Biden apelou ao regresso da produção a território americano, considerando que esse é um dos passos necessários para resolver a atual crise no sourcing, que deverá afetar a época de vendas do Natal.

Referindo as dificuldades em «conseguir uma série de coisas, de uma torradeira a uns ténis, de uma bicicleta a mobiliário de quarto», Biden sublinhou que «reforçar as nossas cadeias de aprovisionamento vai continuar a ser o foco da minha equipa», ao mesmo tempo que anunciou um conjunto de medidas para tentar superar os obstáculos atuais, nomeadamente a abertura dos portos de Los Angeles e de Long Beach todos os dias da semana, incluindo aos sábados e domingos. «O nosso objetivo não é apenas passar este estrangulamento imediato, mas responder a debilidades existentes há muito na nossa cadeia de aprovisionamento e que esta pandemia expôs», afirmou o presidente dos EUA.

Porto de Los Angeles [©Port of Los Angeles]
«O mundo mudou. Antes da crise, aplaudíamos o foco em cadeias de aprovisionamento eficientes e esguias, não dando margem de erro no que diz respeito aos componentes chegarem no tempo necessário para fazer um produto final», apontou. «Temos de ter uma visão a mais longo prazo, contudo, que invista em criar uma maior resiliência para lidar com os tipos de choque que temos visto repetidamente» e isso significa, entre outras coisas, investir «em fazer mais dos nossos produtos aqui mesmo nos EUA». Aliás, referiu Joe Biden, «para sermos globalmente competitivos, temos de melhorar a nossa capacidade de fazer coisas aqui na América, ao mesmo tempo que conseguimos mover produtos acabados no país e para todo o mundo».

Uma posição saudada pelo National Council of Textile Organisations (NCTO), que num comunicado assinado pela presidente e CEO Kim Glas, apelou à redução da dependência da China, que acusa de «práticas comerciais predatórias», e a um regresso ao Hemisfério Ocidental. «Agora é a altura de desbloquear compromissos de longo prazo para aprovisionar produtos nos EUA e junto dos nossos parceiros de hemisfério. Se movermos mais 10% da produção mundial para os EUA e o Hemisfério, imagine-se os benefícios que podiam ser atingidos. Assegurar uma maior verticalização e investimento em todos os aspetos da indústria, das matérias-primas aos produtos acabados, é bom para a economia americana e para os trabalhadores nos EUA e na região», salientou Kim Glas.

Entra a América Central, sai a Etiópia

No que diz respeito à indústria têxtil e vestuário, os EUA estão, de resto, a aproximar-se dos seus “vizinhos” na América Central. Numa reunião com empresários do sector na semana passada, a representante do comércio dos EUA, Sarah Bianchi, apontou a importância das parcerias na região. «A cadeia de aprovisionamento para têxteis e vestuário no Hemisfério Ocidental é um pilar central» do CAFTA-DR, o acordo de parceria entre os EUA, a República Dominicana e os países da América Central, referiu, acrescentando que «as preocupações recentes com a falta de confiança de cadeias de aprovisionamento alargadas em termos geográficos e a penetração de trabalho forçado tornam este um momento particularmente oportuno para expandir a produção no Hemisfério Ocidental».

A representante do comércio considera ainda que «investimentos sustentáveis da indústria têxtil americana na América Central vão reforçar a resiliência da nossa cadeia de aprovisionamento, aumentar as oportunidades de emprego para os EUA e os nossos aliados regionais e responder a preocupações ambientais, sobretudo face ao crescente interesse do regresso ao país e para perto do país da produção de têxteis e vestuário».

Segundo Kim Glas, a indústria têxtil e vestuário americana investiu mais de 20 mil milhões de dólares (cerca de 17,3 mil milhões de euros) nos EUA e muitos mais milhões no hemisfério na última década para estimular as oportunidades de crescimento económico no país e na região. «É uma altura entusiasmante e estamos profundamente agradecidos pelo apoio da Administração para criar oportunidades económicas» na região, indicou a presidente e CEO da NCTO.

[©International Trade Centre]
Em sentido contrário, e já esta semana, o Presidente Biden anunciou a retirada da Guiné, do Mali e da Etiópia do programa de comércio preferencial African Growth and Opportunity Act (AGOA) a partir de 1 de janeiro de 2022.

No caso dos primeiros, a saída deve-se à mudança inconstitucional nos governos, enquanto no segundo, a embaixadora da representação do comércio dos EUA, Katherine Tai, apontou «as enormes violações dos direitos humanos internacionalmente reconhecidos que estão a ser perpetradas pelo governo da Etiópia e outras partes no conflito que se está a desenrolar no norte da Etiópia».

Joe Biden salientou que «apesar do envolvimento intenso entre os EUA e os governos da Etiópia, da Guiné e do Mali, estes não conseguiram responder às preocupações dos EUA sobre o seu incumprimento dos critérios de elegibilidade para o AGOA», adiantando que vão continuar a avaliar os progressos dos três países nesse sentido.

Num comunicado publicado a 2 de novembro, em resposta ao anúncio da Administração americana, a American Apparel & Footwear Association apelou ao fim do conflito na região do Tigray e à manutenção dos benefícios do AGOA para a Etiópia, que é o 22.º maior fornecedor de vestuário dos EUA, depois de um crescimento nas importações provenientes do país de 548% desde 2016. «Pedimos a todas as partes para assegurarem a passagem segura de ajuda de emergência como um primeiro passo para a cessação das hostilidades e de um processo que resulte em paz duradoura. Também é nossa esperança que os benefícios do AGOA não sejam interrompidos, já que isso iria exacerbar uma crescente crise humanitária», considera Steve Lamar, presidente e CEO da AAFA.