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Euratex quer ITV europeia a liderar na sustentabilidade

A visão da Euratex para a nova estratégia da União Europeia para os têxteis, que deverá ser apresentada em breve pela Comissão Europeia, aponta para uma indústria assente na inovação, na qualidade, na eficiência e na sustentabilidade, capaz de competir num campo concorrencial justo.

O documento publicado pela confederação europeia do têxtil e vestuário surge após a Comissão Europeia ter apontado o têxtil como sector estratégico para o relançamento da economia como um sector prioritário para acelerar a economia circular e neutra em carbono e ter promovido uma consulta pública para delinear a estratégia europeia para os têxteis sustentáveis, que deverá ser conhecida até ao final deste ano.

«A Euratex quer contribuir ativamente para este processo, assegurando que podemos desenvolver um modelo de negócio a olhar para o futuro, criando as fundações para uma indústria têxtil europeia competitiva e sustentável», refere o documento da Euratex.

Para isso, a confederação enumera como ambições tornar a indústria têxtil e vestuário europeia líder em têxteis sustentáveis, reforçar a sua eficiência e aumentar a sua quota de mercado mundial.

Para o primeiro objetivo, a Euratex menciona a necessidade de os produtos circulares e sustentáveis serem claramente reconhecidos e identificados com base em standards europeus, ou preferencialmente mundiais, com métodos de cálculo verificáveis. «São necessárias ferramentas de transparência e rastreabilidade, mas devem ser cuidadosamente testados em relação à sua utilização prevista e serem específicas para os produtos», sustenta a Euratex.

A confederação salienta ainda a necessidade de assegurar a coerência em toda a UE, propondo-se a guiar os países que decidam desenvolver programas de responsabilidade alargada ao produtor, pede a introdução de critérios ecológicos para as compras públicas e menciona a reciclagem como uma oportunidade. «A reciclagem têxtil obrigatória – até 2025 e mesmo antes para alguns Estados-membros – é um desafio, mas ao mesmo tempo uma oportunidade para a indústria desenvolver uma estratégia de reciclagem coordenada a nível europeu», sublinha no documento, aludindo à proposta que apresentou no ano passado de criar centros de reciclagem (ReHubs) à escala industrial capazes de recolher e tratar 5 milhões de toneladas de resíduos têxteis.

Como último ponto em termos de sustentabilidade, a Euratex reafirma a atenção que terá de ser dada aos consumidores. «Para ser bem sucedida, a estratégia têxtil tem de consciencializar os consumidores e promover mudanças comportamentais para uma maior sustentabilidade, em comparação com a Agenda do Consumidor 2020. A Euratex e os seus membros estão já a envolver-se com os consumidores, por exemplo, com o lançamento de uma campanha de comunicação e outras iniciativas de consciencialização. Podemos também estabelecer metas para produtos sustentáveis, como por exemplo até 2030 ter pelo menos 50% dos produtos no mercado a seguirem princípios de design sustentável», indica.

Uma questão de eficiência

Para atingir o segundo objetivo de reforçar a eficiência da indústria têxtil e vestuário europeia, a Euratex menciona cinco pontos, nomeadamente: investimento na digitalização da cadeia de aprovisionamento; desenvolvimento de novas capacidades digitais e sustentáveis; mais apoio à inovação e à investigação nos têxteis através de programas comunitários; apoio a start-ups na indústria têxtil e vestuário; e redução da dependência de matérias-primas extra-UE e melhoria da eficiência energética.

«A eficiência dos produtores têxteis europeus tem sido travada pela dificuldade no acesso a certas matérias-primas e aumentos acentuados de preço. O regulador europeu deve ter consciência do impacto das suas políticas, já que alguns fornecedores, por exemplo, de corantes, já não estão disponíveis na Europa. A UE deve insistir em abrir cadeias de aprovisionamento com países terceiros, ao mesmo tempo que cria um ambiente regulamentado na Europa onde os produtos para têxteis podem ainda ser produzidos (fibras naturais e sintéticas, corantes, etc.). A utilização de matérias-primas (sustentáveis) da Europa deve ser encorajada e o acesso ao fornecimento de energia sustentável a preços razoáveis deve estar garantido», resume.

Crescer no mundo

O último pilar das ambições da Euratex passa por um aumento da quota mundial dos têxteis e vestuário “made in Europe”. «A indústria têxtil é um dos sectores globalizados mais expostos na economia europeia. As importações anuais são o dobro do tamanho das exportações (115 mil milhões de euros vs. 53 mil milhões de euros)», destaca a confederação.

Criar um esquema de vigilância de mercado mais eficaz é uma das propostas, de forma a «manter produtos não-conformes [em termos de químicos e sustentabilidade] fora do mercado único da UE», ao mesmo tempo que são desenvolvidos «métodos para decisões rápidas nas alfândegas para testar produtos críticos importados com base no risco».

Uma outra sugestão da Euratex passa por nivelar o acesso aos mercados, num trabalho a ser realizado em parceria com a Organização Mundial do Comércio (OMC), a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), assim como retomar as negociações com os EUA para o reconhecimento mútuo de certificações e standards e a rápida adoção do acordo de comércio livre com o Mercosur.

«O sector têxtil é uma indústria muito vasta; cobre cadeias de valor complexas e mundiais envolvendo múltiplos passos de produção, resultando numa variedade de produtos, alguns dos quais são estratégicos para a economia europeia. Para ser significativa, a estratégia deve considerar toda a cadeia de valor da indústria, uma vez que ela está muito interligada, assim como os seus laços diretos com outros sectores (agricultura, químicos, plásticos, etc.)», conclui a Euratex.