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Euratex quer mais ação da UE

A Euratex está a pedir à União Europeia para implementar rapidamente o que prometeu e desenvolver uma indústria têxtil e vestuário resiliente, que permita resistir à queda atual do volume de negócios e ao aumento das importações de artigos críticos da China, nomeadamente máscaras, que registaram um aumento de 2.700%.

O pedido surge numa altura em que os dados mais recentes apontam para que a situação atual seja pior do que a de 2009, tendo em conta a queda do volume de negócios de 25% na indústria têxtil e de 35% na indústria de vestuário. As vendas a retalho tombaram 43%, um valor que, em alguns países, ultrapassou os 60%.

Por outro lado, as importações de produtos têxteis provenientes da China estão a aumentar acentuadamente. Entre abril e junho, as importações de máscaras e outros têxteis de aplicação na saúde subiram de 600 milhões de euros em 2019 para quase 14 mil milhões de euros, representando um crescimento de 2.200%. «Se considerarmos apenas as máscaras, os dados são ainda mais impressionantes, já que as importações aumentaram de 500 milhões de euros em 2019 para 13,5 mil milhões de euros em 2020, um incremento de 2.700%», destaca a Euratex.

Ao mesmo tempo, e para o mesmo período temporal, as exportações de têxteis e vestuário da UE caíram 35%.

Números que, segundo a confederação, devem ser um alerta para a União Europeia agir rapidamente. «A Presidente von der Leyen anunciou uma atualização na Estratégia Industrial da UE durante o seu Estado da União. Eu pedia-lhe para primeiro implementar aquilo que está prometido, antes de anunciar novas estratégias: assegurar um mercado nivelado para as nossas empresas, desenvolver uma indústria resiliente, apoiar a inovação, etc. Colocámos propostas em cima da mesa, mas não conseguimos ver progresso na sua implementação», afirmou Alberto Paccanelli, presidente da Euratex, na reunião da direção da confederação.

Alberto Paccanelli [©Euratex]
Na Estratégia de Recuperação submetida em junho à Comissão Europeia, a Euratex propôs uma aliança estratégica para apoiar a inovação e a digitalização da indústria, transformar a sustentabilidade num fator de competitividade e assegurar o comércio justo e livre.

«Na verdade, vemos o escalar de uma guerra comercial com os EUA, não vemos progressos nas negociações com o Reino Unido (o nosso principal mercado de exportação), vemos segmentos da nossa indústria a serem excluídos do Regime de Comércio de Licenças de Emissão da UE, vemos uma redução no financiamento à investigação, vemos pressão para introduzir modelos dispendiosos de diligências prévias, vemos produtos críticos a serem fornecidos através de processos de aquisição dúbios», sublinha a Euratex em comunicado.

De acordo com a confederação, as empresas da indústria têxtil e vestuário (ITV) mostraram elevada responsabilidade durante a crise, mantendo o mais possível o emprego – que caiu menos de 5% – e reorganizando a sua produção para ajudar na crise sanitária.

«Queremos envolver-nos num diálogo positivo com a UE para construir uma indústria têxtil e de vestuário moderna e competitiva, enquanto pilar fundamental da economia europeia. Mas este diálogo deve levar a resultados tangíveis. Os nossos empresários estão otimistas, como mostra a confiança no negócio (+3,9% em agosto) do [relatório de] setembro, mas precisam de um enquadramento claro com o qual possam crescer, inovar e criar emprego», considera Dirk Vantyghem, diretor-geral da Euratex.

Luta contra subsídios

Em relação à competitividade, a Euratex aplaudiu recentemente a consulta da UE sobre o impacto de subsídios estrangeiros no mercado interno europeu. «A indústria europeia de têxteis e vestuário é muito globalizada, com cadeias de valor muito complexas e interdependências com muitos outros sectores. Para as empresas da ITV operarem bem, precisam de mercados abertos e “eficientes”, mas combinados com controlos efetivos quando necessário», refere a confederação em comunicado.

Dirk Vantyghem [©Euratex]
Segundo a Euratex, os efeitos de distorção dos subsídios dados por governos de países externos à UE colocaram em risco a competitividade de muitas empresas da ITV. Como tal, a proposta da Comissão Europeia para criar um novo instrumento legal para responder a estes desafios «é muito bem-vinda».

A confederação deu já o seu contributo na consulta, onde salienta a necessidade de ter a maior abrangência possível, incluindo nas medidas propostas. «O objetivo do instrumento é nivelar o mercado, não ser protecionista e não desencorajar o investimento estrangeiro. Para isso, o instrumento deve ser não-discriminatório e cumprir [as diretivas da] Organização Mundial do Comércio», resume Dirk Vantyghem.