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Fábricas dão como perdidas as próximas coleções

A retoma é ainda uma miragem para a indústria do vestuário e confeção. Fábricas já contam perder as coleções de duas estações: para o outono-inverno de 2020/2021 e para a primavera-verão de 2021.

A retoma parece estar longe para a indústria de vestuário e confeção. Os fabricantes dão já como perdidas duas coleções: a de inverno e também a de verão do próximo ano.

A coleção de inverno, que em condições normais estaria já a ser entregue aos clientes, praticamente ainda não arrancou, fruto da crise provocada pela pandemia de Covid-19.

Segundo escreve esta terça-feira o Jornal de Negócios, num extenso trabalho sobre o sector, os «clientes estão cheios e a reorganizar-se em matéria de stocks e a reduzir ao máximo as compras» também para a primavera-verão de 2021. César Araújo, presidente da ANIVEC, explica que «se tudo correr bem, a indústria só arranca em fevereiro ou março do próximo ano, com a coleção do inverno seguinte».

Já Mário Jorge Machado, presidente da ATP – Associação Têxtil e Vestuário e da Adalberto Estampados, sentencia que «o não escoamento dos artigos terá certamente impacto em termos de procura e da colocação de novas encomendas na indústria portuguesa, com impacto em toda a cadeia de valor».

César Araújo

«Quer nas vendas, quer no emprego, as quebras no final do ano serão superiores a dois dígitos», antecipa o presidente da ATP, que se recusa no entanto a dar valores mais concretos devido à «grande incerteza quanto à atividade no último quadrimestre do ano».

Também Luís Figueiredo, presidente da empresa Hall & Ca, detentora da marca Laranjinha, partilha destas preocupações. O empresário lembra que a Covid-19 levou «de imediato» os pequenos, médios e grandes clientes a cancelar ou suspender as compras, o que provocou a paragem quase completa das fábricas, sendo «difícil dizer que se sente já uma retoma». O presidente da Hall & Co diz ainda que «os sinais destes primeiros tempos de atividade não são muito animadores. São bem visíveis ainda os receios dos consumidores».

Lojas guardam roupa para 2021

Apesar das grandes promoções mal tiveram permissão para reabrir as lojas, após o período de dois meses de confinamento, o comércio não está a reanimar. Os consumidores mostram-se ainda muito contidos, o que está a levar as marcas a armazenarem os artigos para o próximo ano.

Mário Jorge Machado

«Prevejo que as lojas fiquem com muito stock da estação, o que inevitavelmente, vai ter reflexo nas compras da próxima época de primavera-verão. Seja qual for a forma que encontrem para vender, estes stocks não libertarão margem financeira que lhes permita efetuar comprar com normalidade», salienta Luís Figueiredo.

César Araújo destaca que «muitas marcas estão a preferir atirar a coleção primavera-verão para o próximo ano», acrescentando que «como toda a gente esteve confinada e estão cheios de stocks preferem reter esses produtos para começar a meter nas lojas em janeiro, sem descontos».

De resto, o presidente da ANIVEC relembra que, nestes casos, «só têm o impacto de capital – e para muitos nem será grande porque arrastaram os pagamentos às fábricas para mais meses».

Mais pessimista está o CEO da Mike Davis. Luís Aranha afirma que «cerca de 40% das empresas de confeção irão fechar durante os próximos 12 meses». Com 30 lojas espalhadas pelo país, a Mike Davis prevê até ao final deste uma redução de 40% a 60% das vendas em relação a 2019, que já tinha sido de queda para o sector.

No total a fileira têxtil e do vestuário, que empregava 138 mil pessoas antes desta crise, viu as exportações caírem 19% nos primeiros cinco meses do ano, para 1,8 mil milhões de euros. As perdas no vestuário atingiram 22,7% até maio, segundo dados do INE, que mostram que a crise abrange todos os subsectores, incluindo os têxteis técnicos.

Luís Figueiredo

Tudo somado implica que, de futuro, o desenvolvimento das coleções será diferente. A indústria deverá contar com encomendas mais pequenas e com prazos de respostas mais curtos, o que desde logo exige mais flexibilidade em todos os processos, desde a criação até à entrega do produto final.