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Faixa e Rota abre horizontes

A indústria têxtil e vestuário chinesa atravessa um período crítico de desaceleração do crescimento, marcado pelo aumento do nível salarial e políticas de antipoluição mais restritas. A Iniciativa Faixa e Rota (Belt and Road Iniciative) poderá ser a resposta aos desafios, permitindo deslocar a produção e aproximar os países asiáticos.

Em julho, o Conselho de Têxteis e Vestuário Nacional da China (CNTAC, na sigla original) identificou o Tajiquistão e o Uzbequistão como dois países asiáticos chave para concentrar o investimento na produção têxtil. A investigação destacou as suas vantagens no que toca à existência de recursos hídricos abundantes para gerar eletricidade, ao reduzido nível salarial, às políticas de investimento preferenciais e à vasta área local para o cultivo de algodão.

O Tajiquistão apresenta uma área de cultivo desta matéria-prima de aproximadamente 185 mil hectares, com um volume anual de 100 mil toneladas de fios, das quais apenas 20% são usadas para a produção nacional de tecidos. Por sua vez, o Uzbequistão tem mais de 8,2 mil empresas têxteis e de vestuário, cuja produção anual chega às 700 mil toneladas de fio de algodão, 1,2 mil milhões metros de tecido, 140,7 mil toneladas de malhas e 2,2 mil milhões de peças de vestuário, onde se incluem 132 milhões de pares de meias.

Face às mais recentes revelações, o governo chinês começou a reforçar o investimento na indústria têxtil e vestuário (ITV) dos dois países asiáticos, que integram a Iniciativa Faixa e Rota (BRI, na sigla original). Anunciado em 2013, este projeto visa fortalecer a ligação da China ao resto do mundo, combinando infraestruturas já existentes com novas construções, para ligar os continentes asiático, europeu e africano, através do desenvolvimento da Rota de Seda (que une a China à Europa passando pela Ásia Central e Rússia) e da Rota de Seda Marítima do Século XXI (que atravessa o oceano Índico e o mar da China Meridional).

Esta estratégia surge num contexto de fraco crescimento económico para o território chinês, cujo aumento do nível salarial assim como as políticas antipoluição mais restritas estão a obrigar o país a enveredar por um caminho de dois sentidos: investir em tecnologia para potenciar a ITV local ou transferir a produção para outros países com legislação mais flexível. Deste modo, o governo chinês tem vindo a incentivar e a apoiar o investimento direto estrangeiro (IDE) privado no sector têxtil, além de facilitar os empréstimos para projetos de infraestruturas que beneficiem a indústria.

Turquia

Contudo, o vice-presidente da CNTAC, Duan Xiaoping, aponta que, apesar da aceleração da evolução dos avanços tecnológicos da maquinaria têxtil e do progresso do nível de automação, algumas empresas vão «optar pela globalização». Assim, espera que estas empresas aproveitem a oportunidade para promover uma cooperação com os países da Ásia Central, em que ambas as partes são beneficiadas.

De acordo com a CNTAC, as regiões sob a BRI receberam mais de 80% dos investimentos chineses no estrangeiro ao longo dos últimos cinco anos. Entre os mais recentes eventos que auxiliaram o desenvolvimento de contactos internacionais está um Fórum de Cooperação Têxtil da Faixa e Rota, que ocupou a província Shaoxing, em setembro, e o encontro inaugural “One Belt, One Road Textile Supply and Marketing Alliance”, em Xangai, que juntou mais de 300 representantes de empresas, instituições de investimentos financeiros, plataformas de dados e de logística da ITV.

Ponte turca da China

Shaun Rein, fundador do grupo de consultoria, acredita que o processo de expansão do investimento chinês também deverá passar pela Turquia. «As relações entre a Turquia, os EUA e a União Europeia (UE) têm vindo a tornar-se mais tensas [devido às iniciativas da Síria e do Ocidente para reconhecer os assassinatos praticados pelo Império Otomano ao grupo étnico dos arménios, em 1915, como genocídio], o que tem aproximado o governo turco da China», revela Rein ao just-style.com.

De facto, «o governo chinês está a contruir Xinjiang [no noroeste da China] como um importante centro têxtil e há uma grande probabilidade de assistirmos a uma maior ligação entre a região e a Turquia no futuro», afirma. Por seu turno, a Turquia integra a União Aduaneira da UE, desde 1995, o que lhe permite comercializar produtos sem quaisquer restrições tarifárias, constituindo um ponto de entrada atrativo para a China reforçar a sua presença no mercado intracomunitário.

O calcanhar de Aquiles da BRI

Mais de 80% do algodão da China provém da região de Xinjiang que, nos últimos tempos, tem vindo a atrair as atenções devido a alegadas práticas de trabalho forçado.

No ano passado, a produtora de vestuário desportivo dos EUA Badger Sport abandonou a fornecedora chinesa Hetian Taida Apparel, depois de descobrir que parte dos seus produtos provinham de trabalho forçado praticado nos campos de concentração da China. Além disso, em novembro, a Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) dos EUA apreendeu peças de vestuário do mesmo fabricante após suspeitas de recurso ao trabalho forçado.

Xinjiang

Mais recentemente, vários estudos sugerem que artigos produzidos com fios da Huafu Fashion Company, também sediada em Xinjiang, foram vendidos globalmente por empresas como Adidas, H&M e Esprit, bem como luvas da Yili Zhouwan Clothing Manufacturing Company. Deste modo, a Comissão Executiva do Congresso dos EUA sobre a China solicita ao CBP que imponha restrições de importação sobre os têxteis ou outros produtos fabricados com trabalho forçado na Região Autónoma do Uigur de Xinjiang (XUAR, na sigla original).

A empresa de análise de risco global Verisk Maplecroft também manifestou a sua preocupação de que, à medida que a China expande a sua iniciativa BRI, Xinjiang constitui uma importante força impulsionadora para a sua atividade económica na Ásia Central. «A importância da região é um dos principais fatores por trás da pressão crescente de Pequim sobre as comunidades uigur – logo, os abusos enfrentados pelas comunidades locais têm uma maior probabilidade de aumentar», sublinha.