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Falta de dinheiro prejudica vestuário

A indústria de vestuário da Índia sofreu uma queda acentuada na procura interna e na produção após a decisão súbita do governo no mês passado de retirar de circulação as notas com valor elevado, que representavam cerca de 86% do dinheiro total da economia asiática.

«Nas primeiras duas semanas [após o anúncio da retirada de circulação das notas a 8 de novembro] houve uma queda de quase 50% nas vendas a retalho», afirma Rahul Mehta, presidente da Associação de Produtores de Vestuário da Índia, em Bombaim, citado pelo just-style.com. «Houve uma recuperação desde então, mas ainda está com uma diminuição de 25% nas lojas mais pequenas», acrescenta.

Embora os exportadores de vestuário sejam pagos em dólares e euros, uma redução acentuada de notas válidas está também a ter impacto na produção de têxteis e vestuário, com quase todos os salários no sector na Índia a serem pagos em dinheiro.

«A produção desceu para apenas 20% [face ao nível antes do anúncio], já que a maior parte dos trabalhadores partiram para as suas aldeias depois de ficarem sem dinheiro», explica, ao just-style.com, Vinod Thapar, presidente do Clube de Vestuário em Malha de Ludhiana, um centro de produção têxtil no norte da Índia. «Só lhes conseguimos pagar em notas antigas», que podem ser trocadas por novas notas nos bancos.

Mas esse processo não tem sido fácil. O governo impôs um limite de 50 mil rupias (cerca de 700 euros) por semana para o levantamento de dinheiro pelas empresas e trocar as antigas notas de 500 e 1.000 rupias pelas novas notas de 2.000 rupias só foi permitido durante três semanas, levando a longas filas nos bancos.

Os indivíduos podem apenas levantar 2.000 rupias por dia, também depois de passarem longas horas – às vezes a noite inteira – numa fila, o que levou a que os trabalhadores migrantes faltassem ao trabalho e regressassem às suas aldeias.

Esta falta de moeda está também a levar a despedimentos por parte de empresas produtoras de vestuário devido a uma queda esperada na procura futura, indica Rahul Mehta. «As projeções de vendas foram revistas em baixa de cerca de 20% para o verão de 2017, o que pode levar a uma redução na produção e ao despedimento de trabalhadores da área produtiva», acrescenta.

Contudo, Harminder Sahni, diretor-geral da empresa de consultoria Wazir Advisors, argumenta que a falta de notas não terá um impacto a longo prazo na indústria de vestuário de 60 mil milhões de dólares (56,6 mil milhões de euros) da Índia, uma vez que as vendas no sector organizado constituem 35% do mercado e já estão a recuperar para os níveis anteriores.

«Nas cidades as pessoas assalariadas preferem usar cartões [de crédito ou débito] porque além da conveniência, há sempre vantagens atrativas resultantes da sua utilização», refere.

No entanto, Mehta apresenta uma versão diferente, alegando que o sector organizado na Índia representa apenas 20% do mercado de vestuário e que só no final de março é provável que a normalidade regresse às compras a retalho.

Mesmo o mercado de vestuário de gama alta não foi poupado. De acordo com Vinod Thapar, as vendas semanais de uma loja não identificada de uma marca de luxo italiana em Ludhiana caíram de 6.000 dólares para apenas 450 dólares. Uma grande parte das suas vendas eram em dinheiro para comprar presentes para subornar burocratas e políticos, afirma o presidente do Clube de Vestuário em Malha de Ludhiana – uma das práticas que constituem o alvo desta política de retirada de notas.

Do lado positivo, um efeito colateral da retirada das notas foi a liquidação imediata de muitos pagamentos pendentes e crédito malparado. Mas mesmo este dinheiro causou alguns problemas. Teve de ser depositado no banco e o departamento das finanças tem estado atento. «Foram recebidas mais de 50 notificações [no último mês] pelas indústrias de têxteis e vestuário em malha em Ludhiana», garante Thapar.