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Farfetch vai mais longe

A realhista online Farfetch , criada pelo português José Neves, aposta em novas linhas de operação para potenciar o crescimento e a expansão da empresa, numa tentativa de satisfazer os seus recentes investidores.

A Farfetch conecta pequenas lojas de vestuário de luxo, sediadas em mais de 30 países, dando resposta aos desejos de clientes provenientes de todo o mundo. A retalhista online é a plataforma ideal para todos aqueles que possam estar interessados no casaco sem mangas de pelo de lama, em padrão de arco-íris, criado pela Marni, passível de ser entregue num qualquer iate ao largo de Capri.

Como qualquer empresário, o desafio de José Neves é ampliar o negócio sem perder a essência de exclusividade. Em março, a Farfetch anunciou um financiamento de 86 milhões de dólares da Condé Nast e DST Global, no âmbito de uma avaliação de mil milhões de dólares. O restante período de 2015 foi dedicado à expansão, somando 250 trabalhadores, aos 750 existentes, destinados à exploração de novas boutiques e linhas de negócios. José Neves afirmou que a empresa irá vender mais de 500 milhões de dólares em vestuário e acessórios este ano, face aos 300 milhões registados em 2014.

«O sabor, o combustível da marca, é a sua sensação de boutique. Trata-se da unicidade da sua expressão, de gosto individual», explicou José Neves ao Bloomberg, no âmbito de uma entrevista concedida na sede londrina da Farfetch, localizada numa fábrica reconvertida e pintada inteiramente de branco, no bairro hipster de Clerkenwell. «Mas não creio que isso seja incompatível com números grandes», acrescentou.

A Farfetch disponibiliza e promove projetos de pequenas lojas, que incluem algumas dezenas de artigos arrojados a cada estação, destinados a um pequeno grupo de clientes fiéis. Por outras palavras, atua como um ShopStyle de luxo para os comerciantes que não pretendem criar ou operar os seus próprios negócios online. A especialista em comércio eletrónico ocupa-se do transporte e das devoluções às boutiques, sediadas de Bombaim a Memphis, passando por Madrid, recebendo uma percentagem não divulgada de cada venda efetuada.

Fundada em 2008, a Farfetch distinguiu-se pela oferta de vestuário de luxo, concebido por designers provenientes de diversos pontos geográficos, que transpõem o habitual cliché londrino e nova-iorquino – como o vestido de noite de seda de Monique Lhullier, que custa 6.800 dólares, inspirado na forma e padrão de um jarro francês do século XVIII. Os pioneiros do segmento on-line, como Gilt Groupe e Net-a-Porter, especializaram-se numa apresentação clean e entrega rápida de artigos de luxo mais corrente, como o clássico blazer preto de lã da Dolce & Gabbana, apreçado em 3.000 dólares.

A retalhista online «não está apenas a vender artigos que poderiam ser encontrados na rua comercial de uma cidade grande», afirma Neil Saunders, diretor da consultora Conlumino. «Ela vende artigos que, efetivamente, são um pouco ousados, provenientes da passerelle», explica.

À semelhança de outros websites que operam no mercado de luxo global, avaliado em 243 mil milhões de dólares, a Farfetch não é rentável. De forma a potenciar o crescimento, a empresa optou pela personalização de calçado, inclusão de vestuário proveniente de boutiques localizadas na Índia e no Médio Oriente e disponibilização de um serviço de “personal shopper” via e-mail, WhatsApp ou visita domiciliária. Paralelamente, desenvolve websites para marcas de moda que, durante muito tempo, evitaram ser apanhadas pela rede.

De forma a preservar a base de clientes, a Farfetch terá que resistir à tentação de disponibilizar marcas menos exclusivas ou descontos maiores, aponta Milton Pedraza, CEO do Luxury Institute, uma empresa de consultoria que colabora com a Alexander McQueen, Burberry e Hermès. Assegurar o regresso de um cliente é um desafio enorme, mesmo para os websites reconhecidos pela excelente curadoria, muitos dos quais estão sobrevalorizados, explica Victor Basta, sócio-gerente do banco de investimentos Magister Advisors. Isso significa que as empresas têm, frequentemente, de «correr para manterem o seu lugar», acrescenta. Devem «readquirir, continuamente, o cliente através de mais marketing e ofertas especiais», sublinha Basta.

José Neves acredita que existem muitas oportunidades de crescimento em mercados como a China, a Índia e, especialmente, a Rússia, na qual a Farfetch está a crescer a um ritmo de «três dígitos», apesar da crise económica. Paralelamente, aposta na diversificação das lojas físicas. Em maio, a Farfetch adquiriu a Browns, uma boutique localizada na zona londrina de Mayfair, reconhecida pela descoberta de Alexander McQueen e John Galliano, e Neves afirmou que a Browns passará a disponibilizar artigos presentes no website da empresa em dezembro. Neves revelou também a intenção de instalar software de reconhecimento de imagem, que identificará o cliente à entrada da loja, detetando, a partir dos registos eletrónicos, se o cliente precisa de ajuda, se procura um provador ou apenas uma informação sobre o facto de um casaco que experimentou há alguns meses se encontrar agora em promoção. Embora as boutiques devam orientar a sua abordagem a uma perspetiva mais digital, «a loja física não irá desaparecer», acredita Neves. «Não é possível fazer download da moda».