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Fast-fashion a desaparecer? – Parte 1

O fast-fashion tem sido aclamado como a grande tendência do momento. Mas, um olhar atento a qualquer uma das principais lojas de roupa na Europa ou na América do Norte sugeriria que o fast-fashion já tomou conta do sector. O que não aconteceu, todavia, foi a tão amplamente prevista mudança da produção para as fábricas locais. Desde que a Inditex revolucionou a indústria da moda ao actualizar continuamente a oferta de vestuário em cada loja Zara, os dias das duas colecções ao ano parecem ter desaparecido para sempre. Mas, apesar de os retalhistas nos países ricos estarem a colocar a roupa nas lojas de forma mais rápida e a renovar as suas gamas mais frequentemente, eles conseguiram fazer isso sem mudar a produção para fábricas perto da sua base de vendas – uma das previsões que acompanhou a evolução do fast-fashion. Na realidade, durante o último ano, as compras norte-americanas de vestuário na América Central caíram duas vezes mais rápido que as compras de vestuário em geral. Também a Europa Ocidental tem mudado a produção de vestuário para a ásia, desde que a crise actual começou, enquanto que a quota da China nas compras de vestuário do Japão tem caído ao longo do ano. Em todo o mundo, retalhistas e marcas têm vindo a deslocar a sua produção para longe do “estrangeiro próximo”. Então, o que está a acontecer? O mito do fast-fashion Eis a teoria. Algumas peças de vestuário entravam nas lojas de uma cadeia. Os clientes diziam aos funcionários da loja que gostavam mais com botões cor-de-rosa. Em todo o mundo, o pessoal das lojas dava entrada dessa informação nos seus smartphones. Então, num piscar de olhos, as fábricas da cadeia – localizadas num país rico, perto de onde a maioria das lojas da cadeia estariam – fabricariam milhares de versões com os botões cor-de-rosa. As peças estariam nas lojas no dia seguinte, sendo expedidas por avião nessa mesma tarde. Um conjunto completamente diferente de vestuário iria aparecer nas lojas e todos os clientes voltariam para ver as novidades. Claro que nunca foi assim. Mas a Inditex ainda tem fábricas no Noroeste de Espanha, e ainda aprovisiona metade da sua produção a partir de Espanha ou dos vizinhos mais próximos. O negócio da Inditex gera mais dinheiro ao produzir uma grande quantidade do seu vestuário próximo do ponto de venda, assim os tempos de reacção são os mais curtos possíveis e os custos de manutenção de inventário são os mais baixos possíveis. Esta é a política que transformou a Inditex, em termos de volume de negócios, no maior retalhista especializado em vestuário do mundo e no número dois em termos de vendas de vestuário global, sendo apenas precedida pela Walmart. Mas aqui está algo estranho. Quase todos os outros actores no comércio de vestuário têm aprendido muito com a Inditex sobre como manter a oferta “fresca”, mas quase mais ninguém desenvolveu com sucesso, em termos de vendas em massa, a utilização extensiva da produção nos países ricos. Mesmo a Inditex já não depende da produção nacional tanto quanto costumava depender. A ásia representava praticamente nenhuma produção da Inditex na década de 1990, agora produz cerca de 40% do vestuário que o retalhista espanhol vende. Mas, como as vendas da Inditex mais do que duplicaram na última década, o volume da sua produção espanhola não parece ter caído tão acentuadamente. Na segunda parte deste artigo, vamos continuar a analisar a evolução do fast-fashion e as expectativas futuras.