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Fátima Lopes “embaixadora” da moda portuguesa

A algumas semanas de apresentar a sua mais recente colecção nos palcos parisienses, a estilista Fátima Lopes sente-se revoltada com o Governo e com o Estado Português. A empresária da moda queixa-se da falta de apoios e de uma inércia geral, acrescenta ainda que esta falta de atitude mostra que o Governo não reconhece o papel da moda como meio de promoção nacional . Numa entrevista ao Correio da Manhã, Fátima Lopes admitiu que só o orgulho pessoal ainda a leva a dizer que é uma estilista portuguesa. Acrescentando ainda que o seu nome só é reconhecido no mercado internacional unicamente devido ao seu trabalho. Segundo a estilista, a moda em Portugal ainda não tem a mesma importância que noutros países europeus porque “faltam apoios, falta que o Estado reconheça e entenda que a moda pode ser um grande negócio, como é em Itália”. Tendo em conta que uma colecção pode custar milhares de contos, dependendo do sítio e da coreografia, apresentar uma colecção em Paris pode custar entre 200 mil contos. Um desfile para Fátima Lopes custa entre 15 e 20 mil contos, o que sem qualquer tipo de apoio financeiro é muito dinheiro. Fátima Lopes “leva mais o nome de Portugal ao estrangeiro do que qualquer outro evento” A estilista que representa Portugal de tantas formas com as suas criações, sente-se indignada e até chega a tratar por “cómica” a situação que se vive actualmente em Portugal. A designer acrescenta que não existe sequer um apoio por parte do ICEP, que apesar de apoiar eventos como o Portugal Fashion, não apoia os estilistas em nome individual, sendo que, nas palavras da estilista, “se calhar, leva mais o nome de Portugal ao estrangeiro do que qualquer outro evento…” A empresária enuncia o caso da Bélgica que “nem sequer tinha nada de moda e cujo governo decidiu apostar em determinados criadores. Lançaram-nos em Paris, agora são conhecidos a nível mundial e a Bélgica ficou conhecida como uma das capitais da moda”. Depois de vários pedidos de apoio, inclusive à própria Câmara de Lisboa, o único político que se mostrou interessado em ajudar a moda portuguesa, foi Manuel Maria Carrilho, que nas palavras da estilista “tinha vontade, e repito, vontade, de apoiar a moda”. Na opinião de Fátima Lopes, Portugal esqueceu-se que moda também é cultura e garante mesmo que a sua loja é “cartaz turístico” já que, “não há equipa de televisão ou de imprensa escrita que visite Lisboa e que não venha fotografar o meu espaço”. A crise global não afectou em geral as colecções da estilista que trabalha em diferentes mercados a nível mundial. Algumas colecções de alta costura, que Fátima Lopes mantém para o mercado árabe por exemplo, tiveram algumas quebras, mas a nova colecção de Outono Inverno 2002/2003 “está a entrar no mercado de forma normal”, adianta a estilista. Apresentar as colecções em três mercados distintos – o mercado nacional, o mercado europeu e o mercado ocidental, exige algum tipo de adaptações, apesar das colecções serem as mesmas, o público é bastante diferente “em Paris é apresentado mais o lado de imagem, sendo que se destina a um público profissional”. “Paris continua a ser a capital da moda” E ter uma loja em Paris é determinante para uma boa estratégia de internacionalização. Nesta cidade da moda, Fátima Lopes é vista como uma criadora internacional. Mas, se fez bastante diferença inicialmente, agora “a marca vale por si só e as coisas acontecem naturalmente”. A estilista não quis adiantar muito sobre a colecção que vai apresentar já no próximo mês em Paris pois, “o segredo é a alma do negócio”. A colecção da estilista vai contar com tecidos muito especiais e com uma inovação no tipo de materiais. No que respeita aos tecidos utilizados, a estilista não esconde a indignação que sente por ter que adquirir tecidos em outros países da união europeia quando garante que Portugal tem toda capacidade necessária para os fabricar é preciso é que os portugueses percam “o complexo de inferioridade, abram os olhos, arregacem as mangas e vão à luta!”. Ao mito de “quanto mais cara é a peça melhor se vende”, Fátima Lopes responde que “há mercado para o mais caro, para o médio e para o acessível. Há é que saber distingir esses mercados e chegar a todos. Um criador que realmente se sente realizado e que tem um negócio que funciona é aquele que consegue chegar a todas as pessoas”. “A moda é um negócio” Fátima Lopes tem um estilo que agrada desde a princesas árabes até à mais comum das mulheres e a empresária vende para todo o tipo de público, “a moda é um negócio e enquanto as pessoas não a virem desse modo nunca vão ter, realmente, um negócio. Pessoalmente, dá-me prazer e gozo perceber que a minha roupa pode chegar a toda a gente. Desde que possam pagar, gostem e saibam apreciar uma peça de design… Isso é fundamental”.