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Fatos por um fio

Com o teletrabalho, a escassez de festas e o acelerar da tendência de procura por vestuário mais casual, o negócio dos fatos está em crise. Toda a cadeia de valor, desde os produtores de lã aos alfaiates, passando pelas tecelagens, está a sentir uma quebra das vendas, que está a levar ao encerramento de muitas lojas.

[©Reuters/Hannah McKay]

O empresário italiano Brunello Cucinelli, que fundou e gere a empresa e marca epónima, fabrica fatos de homem que podem custar até 7.000 euros ao consumidor. Mas até ele – tal como a maior parte das pessoas em todo o mundo – reconhece que não usa um fato há meses, muito menos comprou um.

«Temos estado todos fechados em casa, por isso este é o primeiro casaco que vesti desde março», afirma à Reuters numa entrevista em Milão, onde foi apresentada a mais recente coleção da Brunello Cucinelli.

A maior parte das pessoas com empregos de escritório está a trabalhar a partir de casa, tendo redescoberto uma paixão por calças de treino, uma tendência que alguns especialistas acreditam que vai sobreviver à pandemia. E poucas festas estão a acontecer.

Esta enorme mudança no comportamento está a ter profundas repercussões na cadeia de aprovisionamento de fatos e vestuário formal, afetando o sector de alfaiataria em todos os continentes.

Na Austrália, a maior produtora de lã merino, os preços da fibra têm estado em queda, atingindo os valores mais baixos das últimas décadas. Muitos dos criadores de ovelhas estão com problemas, a armazenar lã em todos os celeiros disponíveis à espera de uma retoma.

No norte de Itália, as fábricas de lanifícios que compram a matéria-prima aos agricultores e fiam e tecem os tecidos para fatos de gama alta estão igualmente a registar uma grande queda nas encomendas.

No resto da Europa e nos EUA, várias cadeias de retalho especializadas em vestuário de escritório, como a Men’s Wearhouse, Brooks Brothers e TM Lewin, encerraram lojas ou submeteram pedidos de insolvência nos últimos meses e mais podem seguir-se.

Silvio Botto Poala [©Reuters/Flavio Lo Scalzo]
Players de todos os níveis disseram à Reuters que estão a ser obrigados a adaptar-se para sobreviver, desde criadores de ovelhas, que estão a voltar-se para outras produções agrícolas, a tecelagens que estão a fazer tecidos com mais elasticidade para um novo tipo de fatos que não se enrugam facilmente e são mais resistentes às nódoas.

«As pessoas querem estar mais confortáveis e estão menos inclinadas para usar um fato formal», explica Silvio Botto Poala, diretor-geral da Lanificio Botto Giuseppe, uma fábrica laneira em Itália, na região de Biella, que fornece marcas como a Armani, Max Mara, Ralph Lauren e Hermès.

«Com as conferências por Zoom e trabalho à distância, vê-se os homens a usarem uma camisa, talvez até uma gravata, mas não muitos fatos», aponta.

Produtores de merino resistem

Os preços da lã fina na Austrália diminuíram para menos de metade nos últimos 18 meses, uma vez que as habituais compras de lã merino de fábricas italianas quase que pararam.

O preço de referência para a lã merino caiu para 8,58 dólares australianos (cerca de 5,18 euros) por quilo no início de setembro, de acordo com os resultados do leilão, em comparação com os 20,16 dólares australianos no início de 2019. Desde então recuperaram ligeiramente para pouco mais de 10 dólares australianos.

Andrew Blanch, diretor-geral da New England Wool, em Nova Gales do Sul, que aprovisiona lã em quintas para produtores italianos, indica que muitos compradores têm agora excesso de stock.

«Todos têm lã para usar antes de poderem voltar ao mercado aqui», refere Blanch ao telefone a partir de um dos leilões de lã nos subúrbios de Sydney. «Se as lojas não estão abertas, tudo se acumula. Muitas encomendas para as quais tínhamos comprado lã foram canceladas pelos seus clientes nos EUA e por toda a Europa», admite.

O diretor-geral da New England Wool adianta ainda que a China, que juntamente com Itália compra a maior parte das exportações anuais de lã da Austrália, que ascendem a 3 mil milhões de dólares australianos, é agora a única compradora, apesar dos compradores chineses estarem igualmente a adquirir menos lã.

Dave Young [©Reuters/Jill Gralow]
Muitos produtores de ovelhas merino estão a armazenar a lã em abrigos ou armazéns, embora alguns que ainda estão a recuperar da seca de três anos estejam a vender os seus fardos neste mercado débil para se manterem à tona financeiramente.

«Nem toda a gente é suficientemente grande para guardar a lã e esperar que o preço mude», reconhece Dave Young, um produtor localizado próximo da cidade de Yass, na Nova Gales do Sul. «Estamos numa posição em que temos de responder ao mercado num tempo relativamente curto após a tosquia», esclarece.

Young, que tem cerca de 4.500 ovelhas na sua quinta, assevera que está a mudar parte das suas operações para fornecer carne em vez de lã.

Tecelagens em queda

No Norte de Itália, Botto Poala espera que as vendas da sua tecelagem caiam 25% em comparação com o ano passado, quando faturou 63 milhões de euros, e que demore dois a três anos a recuperar.

Contudo, o seu negócio está, em certa medida, isolado porque produz sobretudo tecidos para vestuário de senhora. Outros estão mais pessimistas.

«Para alguns negócios, estamos a falar de uma queda das vendas entre 50% e 80%», aponta Ettore Piacenza, que não só é o diretor-geral da Fratelli Piacenza, uma empresa familiar centenária produtora de tecidos em lã que anualmente tem um volume de negócios à volta dos 52 milhões de euros, como também dirige o departamento de fábricas de lã da associação empresarial local.

Ettore Piacenza [©Reuters/Flavio Lo Scalzo]
Botto Poala indica que mais de 50% do volume de negócios da sua empresa é agora feito com lã com mais elasticidade, quer por ter recebido um acabamento específico, quer por ter uma mistura com elastano.

Isto porque a pouca procura que existe por fatos está mais concentrada em tecidos que são mais resistentes às nódoas e não enrugam facilmente, ao mesmo tempo que podem também ser usados para vestuário casual, justificam as tecelagens.

Homewear é novo segmento

Uma mudança gradual para o vestuário casual tem estado em curso há anos. Em 2019, mesmo a Goldman Sachs – um bastião dos fatos – relaxou o código de vestuário para os seus funcionários. Sem falar da ascensão da multidão hipster de Silicon Valley.

Mas o Covid acelerou esta mudança – impulsionando as vendas de vestuário confortável e de sportswear por troca com o vestuário de escritório.

No segundo trimestre do ano, quando grande parte do mundo estava confinado, a Nike era a marca mais procurada segundo a Lyst, uma plataforma mundial de pesquisa de moda que analisa o comportamento de mais de nove milhões de consumidores online por mês. Foi a primeira vez desde que começou o Lyst Index que uma marca de luxo não ocupou o primeiro lugar.

A Athleta, uma unidade da Gap que vende collants, calças, camisolas e tops para treino, foi a linha com melhor performance nos três meses até 1 de agosto. As vendas aumentaram 6%, em comparação com uma queda de 52% na Banana Republic, conhecida por um vestuário mais elegante.

Os fatos estão na lista dos artigos com maiores descontos e menos vendas em França, Itália e Alemanha em setembro, de acordo com os dados compilados pela StyleSage, que compara preços em websites. As marcas de gamas mais baixas e médias, incluindo a Asos, Topman, Guess e Hugo Boss fizeram os maiores descontos, até 50%.

Jasper Littman [©Jasper Littman]
O colapso na procura por vestuário de escritório levou retalhistas históricos nos EUA, incluindo a Jos. A. Bank e a J. Crew a apresentarem pedidos de insolvência no verão e muitos outros enfrentam um futuro incerto. A consultora de retalho Coresight Research prevê que, nos EUA, 20 mil a 25 mil lojas possam fechar até ao fim do ano, em comparação com apenas cerca de 9.800 em 2019.

«Confesso que não comprei qualquer roupa para o escritório este ano. Posso dizer com certeza, por andar na City, que há muitos poucos fatos à vista», assegura James Whitaker, um sócio no escritório de advogados Mayer Brown, em Londres.

Com efeito, o negócio tem estado «extremamente lento» mesmo depois do fim do confinamento para Jasper Littman, um dos alfaiates formados em Savile Row, a rua londrina conhecida pelos fatos à medida. Littman afirma que os seus clientes, sobretudo advogados e banqueiros, «estão sentados em casa nos seus pijamas».

Habitualmente, ele faz cerca de 200 fatos por ano, mas em 2020, até agora, apenas fez 63. Os consumidores estão relutantes em apanhar o comboio para ir buscar até os fatos que já estão feitos e com o sinal pago. «Não vale a pena fazê-los, porque viriam buscar um fato que não podem usar», assume Jasper Littman.