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Fazer contas para o reshoring

Muitas marcas nos EUA estão a tentar recuperar da disrupção das cadeias de aprovisionamento e a considerar, para isso, o regresso da produção a solo americano, pesando os prós e contras de ter os produtos feitos “em casa”, graças a uma nova ferramenta da Reshoring Initiative.

[©Seams Facebook]

A Reshoring Initiative tem vindo a analisar as mudanças da indústria desde 2020 com o objetivo de trazer 5 milhões de postos de trabalho de volta aos EUA. «Documentamos as tendências, por isso sabemos que indústrias e empresas vieram de outros países, para que estados, por que razões e por quantos empregos», indica Harry Moser, fundador e presidente da Reshoring Initiative, ao Sourcing Journal.

Embora o défice comercial com a China continue a aumentar, o mesmo acontece com os novos empregos nos EUA, acrescenta. «A tendência geral de regresso aumentou» de 160 mil postos de trabalho em 2020 para cerca de 240 mil em 2021, segundo a pesquisa da organização que lidera, adiantando que os EUA podem ver «um aumento recorde» este ano.

Harry Moser acredita que a América tem de fazer um trabalho melhor a compensar os empregos perdidos para os concorrentes de sourcing, mas a boa notícia é que há empresas a ponderar o reshoring simplesmente «pelo reconhecimento de falta de autossuficiência», já que «temos demasiados produtos que não fazemos, ou que não fazemos sequer próximo, como os EPI», refere. «O país, as empresas e os consumidores decidiram que não é boa ideia ser tão dependente, sobretudo de um potencial adversário como a China», sublinha.

O presidente da Reshoring Initiative acredita que grande parte do aumento de 80 mil postos de trabalho entre 2020 e 2021 se deve a empresas americanas e ao governo federal, numa tentativa de evitar mais problemas como os que surgiram no início da pandemia. Há ainda uma crescente consciencialização para o risco de confiar demais no comércio trans-Pacífico. «Há uma compreensão generalizada de que a sua sobrevivência pode depender de ter um sourcing local, ou pelo menos não dependente [do sourcing de outro lado do oceano] devido aos riscos e problemas na região», realça Moser.

[©Unsplash/Andy Li]
Mas são os custos que vão determinar se o reshoring realmente se torna uma realidade, aponta. Usando a ferramenta Total Cost of Ownership Estimator (TCO) que Harry Moser desenvolveu para o site da Reshoring Initiative, as empresas podem fazer uma análise aprofundada dos seus custos de fornecimento, incluindo taxas de produção, fretes, embalagem, transportes e armazenamento de stocks. Moser considera que este nível de detalhe pode ajudar as empresas maiores a tomar decisões mais informadas sobre o aprovisionamento, ao mesmo tempo que ajuda os fornecedores domésticos a destacar as suas vantagens e a promover seus negócios. «Podem usá-la como uma ferramenta de vendas para convencer uma grande empresa a olhar para todos os números e ver que está a oferecer, em alguns casos, uma escolha melhor», explica. «Se não fizerem as contas, não sabem isso», acrescenta.

Os dados da Reshoring Initiative sugerem que analisar os gastos totais, em vez de apenas os custos de produção, levou os utilizadores individuais da TCO a trazerem até 30% dos seus negócios de volta aos EUA – «se conseguirem que as pessoas o façam», realça Moser.

Escassez de mão de obra

Por enquanto, contudo, os EUA carecem da «força de trabalho qualificada» necessária para apoiar um fluxo de reshoring, salienta Harry Moser. «Existem desafios reais em termos de capacidade e trabalhadores, que sem dúvida irão levar anos a mudar», afirma.

A falta de talentos e a escassez de mão de obra em todo o sector representam o maior obstáculo para os negócios de onshoring, acredita Will Duncan, diretor-executivo da Seams, a associação da indústria de confeção dos EUA. «Se me tivessem perguntado há oito anos, eu teria dito que era falta de têxteis disponíveis. Pré-pandemia, teria dito que era falta de corte e costura disponível e ainda hoje isso é verdade», afirma ao Sourcing Journal.

[©Seams Facebook]
A procura supera em muito a capacidade no atual cenário industrial americano, apesar do crescente interesse pré-Covid. Embora a pandemia tenha «ajudado a mostrar» a questão da dependência externa, Duncan acredita que a incompatibilidade entre a falta de capacidades domésticas e o interesse do reshoring está num ponto de inflexão. «Tenho membros no sector da confeção e no sector do aprovisionamento têxtil que provavelmente poderiam duplicar os seus negócios se pudessem contratar pessoas», refere.

Há ainda a necessidade de trabalhar de forma mais inteligente e mais eficiente para sobreviver, indica Will Duncan, enumerando o maior envolvimento dos trabalhadores nas decisões e a oferta de mais serviços além da costura, como o desenvolvimento de produto. «Creio que há enormes oportunidades para as empresas que abracem estas mudanças, em vez de tentarem apenas fazerem o que sempre fizeram nos últimos 100 anos», resume.

Produtores atentos

Na mais recente edição da feira Sourcing at Magic, em Las Vegas, alguns produtores sentiram o desejo de algumas marcas trazerem parte da produção para os EUA, noticia o Sourcing Journal.

Segundo Jeff Lu, porta-voz da produtora de vestuário Calison, que tem três unidades produtivas nos arredores de Los Angeles, nos últimos dois anos houve «mais clientes a procurar produtos feitos nos EUA, somente por causa do nosso prazo de entrega em comparação com o estrangeiro». Contudo, o problema «é a falta de mão de obra que temos visto nos EUA – e os salários estão a subir», indica em declarações ao Sourcing Journal.

Embora haja ainda nos EUA produtores dedicados a especialidades têxteis, como Royal Textile Print, dedicada à estamparia, o país enfrenta uma dificuldade: a falta de produtores de tecidos sintéticos e com elasticidade, que são especialmente usados na confeção de vestuário contemporâneo e athleisure.

A Carr Textiles, que importa e faz algumas operações têxteis, vende tecidos aos confecionadores sem exigir mínimos. «Isso ajuda muitas pequenas e médias empresas que não podem ir ao estrangeiro e comprar grandes quantidades», explica o comercial Thomas Oviedo ao Sourcing Journal.

[©Carr Textile]
Com a disrupção causada pela pandemia, que está a causar atrasos nas importações, «muitas empresas estão a falhar os prazos e, por isso, estão a vir ter connosco», acrescenta. A própria empresa foi afetada pelas interrupções na cadeia de aprovisionamento – teve, por exemplo, cerca de 30 contentores de tecido parados nos portos durante oito ou mais semanas – e, por isso, decidiu fazer o reshoring de algumas operações, nomeadamente a estamparia. «Abrimos a nossa própria divisão de estamparia digital nas nossas instalações no Missouri e somos capazes de estampar praticamente qualquer fibra», de poliamida a poliéster, linho e algodão, entre outras, refere Oviedo.

Muitos dos clientes da Carr Textiles veem a pandemia como uma razão para reavaliar a sua dependência do sourcing estrangeiro e Thomas Oviedo acredita que a evolução do sourcing e das cadeias de aprovisionamento ainda não terminou.

«Quando se começa a mudar o negócio, não se volta atrás. Mantém-se com o que se tem feito e tenta-se improvisar e tornar as coisas melhores e mais eficientes. Penso que é isso que vai acontecer. Algumas empresas vão provavelmente voltar atrás, mas no final, será uma mais-valia para a América que cada vez mais coisas sejam feitas cá», conclui.