Início Notícias Têxtil

Feiras tomam medidas contra Covid-19

O coronavírus veio mudar o início do ano, sobretudo no que diz respeito aos eventos internacionais da indústria da moda. As organizações de feiras, como a Messe Frankfurt e a Messe Munich, têm procurado mitigar a preocupação e manter, o mais possível, a normalidade nos seus certames, com medidas extraordinárias.

Première Vision Paris

Reúnem milhares de pessoas, entre expositores e visitantes, e desde janeiro, altura em que o mundo ficou a conhecer o mais recente coronavírus, que têm sido afetadas pelo pânico, primeiro, e pela disseminação mundial, agora. As feiras internacionais perderam expositores e visitantes e, mais recentemente, começaram a adiar ou a cancelar as suas edições. Inicialmente apenas as versões chinesas dos eventos foram prorrogadas, a maior parte das vezes, por imposição do governo chinês, como foi o caso da Intertextile Shanghai Apparel Fabrics, da Messe Frankfurt, ou a ISPO Beijing, organizada pela Messe Munich.

«Há uma preocupação grande para que o vírus não alastre», afirma Cristina Motta, representante em Portugal da Messe Frankfurt, ao Portugal Têxtil. «Tínhamos tudo preparado, as empresas iam participar, mas houve uma diretiva em Pequim de que não pode haver nenhum evento grande que acumule muita gente», explica Tânia Barros, representante das feiras de Munique no nosso país.

Estes cancelamentos ou adiamentos não envolvem, pelo menos até à semana passada, eventos para a área da moda, na Alemanha.

Cristina Motta

«Obviamente a Messe Frankfurt está com atenção, segue rigorosamente as indicações da Organização Mundial de Saúde e das autoridades alemãs», assegura Cristina Motta, revelando que há «um centro de segurança onde funciona a polícia e um posto de saúde reforçado. [A Messe Frankfurt] tem aumentado a desinfeção e, a qualquer momento, uma pessoa que esteja mais preocupada ou que tenha sintomas, pode recorrer ao posto de saúde». No fundo, sublinha a representante da Messe Frankfurt em Portugal, «está a ser feito tudo aquilo que está ao nosso alcance para que as coisas funcionem dentro da normalidade».

Medidas semelhantes assumiu a Messe Munich. «Já temos na ISPO Munich três gabinetes médicos sempre a funcionar e nesta edição foram reforçados, tivemos mais medidas de higiene, havia máscaras disponíveis para quem quisesse, mas, de facto, não se viu quase ninguém a usar máscaras», adianta Tânia Barros, ressalvando, contudo, que a feira decorreu ainda no final de janeiro.

Números ressentem-se

Apesar de ter, até ao momento, 23 pessoas infetadas com o Covid-19, o ambiente na Alemanha é, segundo as representantes da Messe Munich e Frankfurt, mais calmo do que até em Portugal, que em território próprio não regista, até ao dia de hoje, ninguém afetado por este coronavírus. «Na Alemanha não sentimos o ambiente que sentimos cá», confessa Tânia Barros. «Na feira Munich Fabric Start [que teve lugar de 4 a 6 de fevereiro] já havia alguns casos diagnosticados no sul da Alemanha, havia muitos portugueses a levarem máscaras para Munique que depois não as usaram, porque os alemães não estavam a usar», exemplifica.

Tal não significa que não haja impacto nos certames dedicados ao têxtil e vestuário. «Há algumas empresas grandes que têm ordens de restrição de viagens e, por isso, mandam equipas mais pequenas» que fazem a diferença na contabilização de visitantes, aponta a representante das feiras de Munique em Portugal.

«Na [feira de decoração] Ambiente houve, de facto, um decréscimo de visitantes, mas não foi tão significativo como se poderia imaginar», indica Cristina Motta, avançando com uma diminuição de compradores dos EUA e da China. «Na China porque têm limitações nas viagens e nos EUA, pelo que percebi a falar com algumas empresas, por causa dos seguros», esclarece. No total, a feira acolheu 108 mil visitantes, em comparação com os 136 mil na edição de 2019.

Tania Barros

Também a Texworld, em Paris, realizada uma semana mais tarde, sentiu os efeitos do coronavírus, inclusivamente nos expositores. John Gomes, comercial da Modelmalhas, que esteve na feira pela primeira vez, afirmou ao Portugal Têxtil que sentiu «baixa afluência» em termos de visitantes e viu «muitos stands vazios». Ainda assim, confessou, «fizemos contactos muito bons».

No caso da Première Vision, os números oficiais dão conta de uma afluência superior a 80% do habitual, representando cerca de 45 mil visitantes, e do cancelamento de 45 expositores chineses, que, sem representantes na Europa, não puderam estar presentes. «Acho que é unânime: a feira foi afetada por esse fenómeno do coronavírus. Há menos visitantes», confirmou ao Portugal Têxtil Rui Martins, CEO da Inovafil, destacando, todavia, que a quebra não se refletiu «nos contactos mais importantes. Naquilo que é um ou outro cliente novo, poderá ter acontecido, mas no geral não».

Já a meio do mês de fevereiro, a Micam, dedicada ao calçado, sentiu um decréscimo de 5% no número de visitantes, segundo a organização, fruto de «uma descida no número de compradores asiáticos» mas também «nos visitantes britânicos, devido a dificuldades de transporte causadas pela emergência de saúde pública e pelas condições climáticas extremas», asseverou Siro Badon, presidente da Micam e da associação Assocalzaturifici.

«Felizmente, apesar de termos vindo com um cenário muito negativo, por causa do coronavírus, no nosso caso tem sido positivo, porque estamos a ser cada vez mais procurados pela marca. A feira está a correr bem mas no geral temos consciência que há menos afluência de visitantes», revelou, ao Portugal Têxtil, Carlos Santos, que lidera a Zarco, produtora da marca de calçado masculino Carlos Santos.

Carlos Santos

Já nos últimos dias, as feiras europeias, fruto do contágio elevado em países como Itália, começaram também a ser adiadas. É o caso da Milano Design Week, que de abril foi reagendada para junho. A Denimandjeans Tokyo e a Kingpins, que estava agendada para 13 a 14 de maio, em Hong Kong, também foram adiadas, mas sem reagendamento. O mesmo acontece com as semanas de moda de Pequim, Xangai e Singapura, que avolumam os vários desfiles cancelados nos últimos dias, assim como Milão, onde decorreram vários desfiles à porta fechada – sem convidados, compradores nem imprensa –, como sucedeu no caso da designer portuguesa Alexandra Moura, que integra o calendário oficial. Em causa podem ainda estar grandes eventos mundiais, nomeadamente os Jogos Olímpicos de Tóquio.