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Feminismo e sedução na Prada

Deverá uma feminista explorar a velha arte da sedução? Ou a aposta em peças de roupa sensuais faz dela um objeto sexual? De acordo com a mais recente coleção de pronto-a-vestir feminino da Prada, apresentada em Milão no passado dia 23 de fevereiro, o feminismo e a sensualidade não se excluem e podem caminhar lado a lado.

«A minha questão é sobre o feminismo e sobre essa noção de que é estúpido ser-se sedutora», começou por explicar a diretora criativa Miuccia Prada à Quartz, nos bastidores do desfile da marca em Milão sobre o ponto de partida da coleção. «É certo ou errado uma mulher ser sedutora? A sedução é algo que foi inventado por nós ou pela sociedade? É má?», questionou.

Essas perguntas foram a força motriz da coleção da casa italiana dedicada ao outono-inverno 2017/2018.

Agora com 67 anos, Miuccia Prada tem-se debatido pela igualdade de género desde a década de 1960. A designer fez também um doutoramento em ciências políticas, antes de ingressar no negócio familiar de venda de artigos de couro de luxo e, depois disso, lançar a marca de moda hoje global.

O desfile de Milão contou com penas, lingerie e outros pormenores desde sempre associados à velha arte da sedução – e, em igual medida, evitados ou mesmo censurados pelo movimento feminista. Nas entrelinhas, procurava perceber-se se terá sido a natureza ou antes a sociedade a culpada pela importância dada ao facto de uma mulher ser sexualmente atraente.

O desfile da Prada não ofereceu respostas claras, mas alinhou designs carregados com de armas sedutoras e referências a diferentes expressões da feminilidade. O resultado foi uma espécie de viagem a décadas de conflitos interiores das mulheres sobre ser-se feminista e, ao mesmo tempo, fisicamente desejável.

Entre os detalhes estavam as referidas penas e lingerie. Os estampados inspirados por cartazes cinematográficos dos anos 1970, com estrelas sensuais da 7.ª arte, surgiram também em vários artigos e outros cartazes completaram o espaço envolvente da mostra.

As malhas, que Miuccia Prada apresentou como «símbolo da mulher em casa, mas também do feminismo», foram abundantes. Nos anos que se seguiram à I Guerra Mundial, as malhas libertaram as mulheres das roupas formais de eras anteriores e, mais tarde, transformaram-se no uniforme da dona de casa de meados do século.

Na passerelle milanesa, os tops curtos em malha, revelando uma quantidade generosa de pele, evocaram também a dualidade explorada ao longo da coleção pela designer.

Miuccia Prada reconheceu que, devido ao seu feminismo, manteve um relacionamento desconfortável com a moda durante anos. É, sobretudo, uma indústria focada na aparência e que se alimenta da ideia de que há uma linha que a mulher deve seguir se quiser ser vista como sedutora. A própria Prada, sem dúvida, contribuiu para os estereótipos de género – quantas modelos terá a marca selecionado ao longo dos anos que não correspondessem aos padrões convencionais de beleza?

O objetivo da última coleção, segundo a diretora criativa da casa, não foi fazer declarações políticas, mas antes entender o que estava a acontecer no mundo.

Como a crítica de moda Suzy Menkes sublinha, muitos itens podem facilmente ser separados da coleção e do seu contexto e encontrar espaço no guarda-roupa das clientes. Afinal, a marca ainda é um negócio. Mas, hoje, é quase impossível separar o feminismo da política.

Miuccia Prada recordou a propósito uma declaração que lhe chamou a atenção durante a recente Marcha das Mulheres, que reuniu cerca de um milhão de pessoas em todo o mundo, no dia seguinte à tomada de possi do presidente dos EUA, Donald Trump – uma feminista mais velha questionava-se como era possível, depois de todos anos, ainda ser necessário lutar pelos direitos das mulheres.

«40, 50 anos depois e os homens ainda têm o poder, há muito a fazer», afirmou Miuccia Prada.