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Fernanda Valente enlaçada nas malhas do sucesso

A empresa têxtil Fernando Valente foi criada em 1978 pelo próprio Fernando Valente, em pleno “boom” da ITV nacional. «Um homem que reúne engenho, talento e capacidade de trabalho», afirma Fernanda Valente, filha do fundador e hoje também administradora da empresa ao seu lado. «Pertenço a uma família, que já vai na sua quarta geração ligada à têxtil e onde tenho o meu pai como o exemplo a seguir. Hoje somos três irmãos que ocupamos posições-chave na empresa e, o mais importante, que nos complementamos». Inicialmente direccionada para a fabricação de produtos substitutos de produtos emborrachados para cintas e artigos de ortopedia, a empresa tornou-se uma referência como produtora de malhas de teia, clássicas e técnicas, e um caso sério de sucesso no mercado internacional, a onde se destina mais de 75% da sua produção. «Começámos por tricotar, na altura com teares Raschel, um produto de poliamida com Lycra para cintas de senhora. Passado pouco tempo produzíamos já malhas para artigos de banho e roupa interior de senhora. Em seguida atacámos em força o mercado dos produtos de desporto, que se tornou uma área importante na empresa. Mais tarde passámos também a fabricar malhas para roupa exterior de senhora, que constitui hoje uma das nossas grandes apostas, em conjunto com as malhas técnicas», relata. Pioneira, desde o seu início, na utilização das mais inovadoras tecnologias de tricotagem, a empresa adquiriu a sua primeira máquina electrónica Ketten em 1987, o que coincidiu com a mudança para as novas, e actuais, instalações. «Fomos a quinta empresa na Europa a adquirir esta nova tecnologia. Um investimento de tal maneira elevado, que foram necessários vários anos para recuperá-lo. Além de que o produto era de tal modo inovador que o mercado não estava preparado para ele», declara. «Hoje em dia é uma máquina de tal forma rentável que entretanto comprámos um segundo modelo, mais moderno, que permite também produzir veludos com Lycra. Única no seu género em Portugal». Entre 1987 e 1992 a empresa efectuou outros grandes investimentos em tecnologia de ponta. «Em 1992 iniciou-se um período difícil gerado por uma série de falências de clientes nossos e pelo corte radical no crédito. Em 2001 houve também momentos difíceis causados pelas transformações sofridas pelo sector têxtil e pela quebra no consumo do nosso tipo de produtos. E 2002 acabou por ser um dos nossos melhores anos de sempre», afirma.
Nos últimos anos, a Fernando Valente implementou um vasto conjunto de novos sistemas para climatização, para o carregamento automático das cargas, para a revista automatizada, para o armazenamento de produtos semi-acabados, só para citar alguns. O seu parque de máquinas é hoje bastante diversificado, e inclui desde teares Jacquartronic até Simplex, passando por uma máquina circular só para fantasias. Os mais recentes investimentos foram efectuados na área da informática, nomeadamente em software para a gestão da produção, feito sob medida para a empresa. Actualmente, os pontos fortes da empresa estão situados ao nível da produção e da comercialização, mas os seus maiores trunfos são certamente dispor de uma colecção heterogénea, um grande know-how técnico e uma notável rapidez de resposta. «A minha divisa é “Sermos os melhores dentro daquilo que fazemos. E fazermos sempre melhor”. Mas a nossa estratégia passa também por nunca perder um negócio sem discutir preço», sustenta.
«Apostamos muito na produção e no controlo da qualidade. Além disso, procuramos rodear-nos de pessoas com formação e facilidade de comunicação, que gostem de trabalhar e sobretudo que apresentem uma real capacidade de evolução. E cultivamos o respeito, que é ainda mais importante pelo facto de sermos uma empresa pequena», revela. Com efeito, na empresa “respira-se” um verdadeiro espírito de equipa entre os seus 47 assalariados, que se estende aos fornecedores e clientes.
A Fernando Valente apresenta uma extensa gama de produtos, com texturas muito macias, onde se encontram produtos originais como o mesh e o cetim de Lycra, o “best seller” da empresa. Além disso, a empresa recorre a fornecedores de renome, como a Nylstar e a Invista – é Lycra Assured -, no plano internacional, e a Fitor, no plano nacional, que lhe oferecem o leque de matérias-primas diversificado de que necessita, e onde se inclui a Lycra, o poliéster, a poliamida, o acetato e alguma viscose e algodão.
A empresa tem sido sempre bastante activa em termos de investigação e desenvolvimento de malhas técnicas. «Estamos actualmente a colaborar com uma empresa dinamarquesa para o desenvolvimento de produtos para pneumáticos. As empresas nórdicas New Body e Odlo estão também entre os nossos actuais clientes em produtos para desportos activos e para a alemã Triumph estão a ser criados novos produtos específicos», adianta. «Mas o meu mais ambicioso projecto, se arranjasse uma boa rede de distribuição, seria criar de raiz uma colecção de fatos-de-banho e lançá-la sob marca própria no mercado internacional».
O desenvolvimento de novos produtos na Fernando Valente é pensado e estruturado pela própria empresa, apresentado pelos clientes ou então proposto pelos seus fornecedores de fio. Em termos de concorrência, Fernanda Valente estima que no mercado interno «não sentimos grande concorrência dada a especificidade e a tecnicidade das nossas malhas. Os nossos verdadeiros concorrentes são principalmente os italianos, e em menor grau os espanhóis e os alemães».
As novas estratégias da empresa estão a ser aplicadas no sentido de melhorar a rentabilidade, tanto em termos produtivos como financeiros, assim como alargar o mercado internacional, o que a levou já a participar na última Intertextile Shangai, na China, e que se revelou uma nova aposta ganha. No entanto, a Europa constitui ainda o seu principal mercado, e em especial a Espanha e a Alemanha. «Mas a Inglaterra e a França têm vindo a crescer de forma notória. E os mercados nórdicos apresentam um enorme potencial em novos produtos no domínio dos desportos activos», declara.
Em 2002, a empresa apresentou um volume de negócios na ordem dos seis milhões de euros. «E 2003 anuncia-se sensivelmente igual», revela Fernanda Valente. Um feito notável na conjuntura actual. Os bons resultados derivam certamente da criatividade, do bom desempenho e da potencialização dos conhecimentos. Mas o que explica definitivamente o seu sucesso é, citando os gauleses, um “je ne sais pas quoi”.