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Fez-se luz no Portugal Fashion

Da coleção “E faz-se luz” de Inês Torcato à “Aurora” de Katty Xiomara, o Take 1 desta edição do Portugal Fashion traduziu a vontade de ir além da época atual que vivemos, fazendo-se também do regresso ao passado de Maria Gambina e de Estelita Mendonça e de todos os sonhos e desafios que a moda e a sociedade enfrentam.

Maria Gambina [©Portugal Fashion/Dulce Daniel]

Foi mesmo a partir do sofá de casa, não fosse esta a The Sofa Edition, que os compradores e fashionistas ficaram a conhecer as coleções de parte dos designers portugueses que habitualmente marcam presença no Portugal Fashion. Sem filas para entrar nos desfiles nem concorrência para ocupar um lugar à frente, a primeira parte do evento de moda – a segunda não tem ainda data marcada – contou, em apresentações distribuídas por três dias, de 18 a 20 de março, com as propostas de Maria Carlos Baptista, Estelita Mendonça, Katty Xiomara, Inês Torcato, Maria Gambina, Miguel Vieira, Ernest W. Baker, David Catalán e Alexandra Moura.

«O formato digital do 48.º Portugal Fashion é ditado por razões de saúde pública, mas também procura ir ao encontro das novas formas de consumo e interação com a moda, sobretudo entre os nativos digitais. Quisemos juntar o útil ao agradável, através de um formato inovador que reúne moda, glamour e humor. De resto, os nossos criadores e marcas desenvolvem hoje quase toda a sua atividade online, pelo que esta edição se insere neste esforço de transição digital da moda», afirma Mónica Neto, diretora do Portugal Fashion. Para continuar a apoiar o design nacional, especialmente nesta fase, «tínhamos de realizar esta edição, mesmo que isso implicasse, como foi o caso, apresentar digitalmente as coleções e repartir o evento por dois momentos», considera.

Neste Take 1, como foi batizado, o Portugal Fashion abriu com a coleção de Maria Carlos Baptista, que tinha já sido apresentada na Semana de Moda de Paris. Do “Espaço Negativo” da jovem designer, que venceu o concurso Bloom powered by Sonae Fashion em outubro de 2020, o programa seguiu para a festa promovida por Estelita Mendonça. As raves dos anos 90 foram o ponto de partida do designer, numa reminiscência da «liberdade de expressão de ser e dançar em comunidade», a que se juntaram as tendas de campismo, enquanto «proteção têxtil, redoma ou habitat portátil» que «faz todo o sentido neste momento de isolamento social», explica o designer.

Estelita Mendonça [©Portugal Fashion/Miguel Prata]
A paleta de cores reflete o ambiente de festa, com apontamentos em verde, azul e laranja, «o que não é comum numa coleção de inverno», reconhece Estelita Mendonça numa entrevista com o artista Hugo van der Ding, que acabou por ser uma espécie de mestre de cerimónias desta edição. Já as texturas são múltiplas, assim como as silhuetas, que passam de blusões mais justos aos abrigos oversized.

Também Maria Gambina regressou ao passado e foi mais longe, até ao final da década de 70 em Inglaterra. “Fagan”, como batizou a sua coleção, mergulha na inquietude e incerteza que se vivia na época, criando silhuetas volumosas com detalhes como picos metálicos, declinadas em preto com apontamentos em vermelho, branco e camuflados verde azeitona.

«Estamos confinados e não há muitos estímulos, pelo menos para mim enquanto criativa. Ficar fechada e não poder ver coisas acaba por ser limitador», confessa a designer a Hugo van der Ding. A inspiração surgiu com um episódio da série The Crown quando um operário, Michael Fagan, entrou no quarto da Rainha e «toda a envolvência do episódio (…) acabei por comparar à realidade que estamos a viver e talvez tenha sido a coisa mais inspiradora que me aconteceu», resume Maria Gambina.

Renascer e reinventar

Katty Xiomara, por sua vez, apresentou a “Aurora”, uma coleção que surge após a leitura da obra do historiador Yuval Harari sobre a evolução da humanidade e a ordem imaginada de deuses e poder e do livro Tyll, de Daniel Kehlmann, sobre deuses e a fé.

«Para mim aurora quer dizer renascer, um novo dia», conta a designer. «É uma coleção um bocadinho introspetiva, baseada neste caos que estamos a experienciar agora, no pensar como esse caos intervém com o nosso próprio caos interior, com a nossa própria vida, como ela era e como terá que ser agora, porque de facto nada será igual», acrescenta.

Katty Xiomara [©Portugal Fashion/Elisa Freitas]
As pequenas coisas tornaram-se mais importantes neste “novo normal” e Katty Xiomara usou tudo o que se lembrou – dos santos e anjos à cartomancia – para infundir esperança no futuro. As cores foram beber inspiração aos quatro elementos – água, terra, ar e fogo – e os grafismos são um trabalho da designer a partir de «rabiscos, que passei para o computador e fiz um trabalho mais intenso». Os estampados são, por isso, a azul ou preto, «como fossem feitos a caneta», tendo sido igualmente passados a bordados e rendas.

Já para Inês Torcato “faz-se luz”. A designer apresentou a coleção para a primavera-verão 2021 da linha Torcato, a sua nova marca. «É a primeira vez que estou a fazer isto [apresentar a coleção para a estação que vai entrar] e é uma ideia de continuidade», assume a designer, revelando que a coleção vai ser colocada à venda gradualmente durante os próximos meses, até à apresentação da estação seguinte.

Inês Torcato [©Portugal Fashion/José Ferreira]
As propostas, que incluem fatos mais ou menos formais, usáveis por homens e mulheres, foram mostradas através de um vídeo realizado nas instalações da Troficolor onde é possível ver também todos aqueles que habitualmente trabalham nos bastidores, dos maquilhadores aos fotógrafos, numa declaração de defesa de todos os agentes envolvidos na cultura, onde se enquadra igualmente a moda. «Para mim, a moda junta todas as artes», sublinha.

O line-up deste Take 1 do Portugal Fashion ficou concluído com as apresentações de Miguel Vieira, Ernest W. Baker, David Catalán e Alexandra Moura, todos elas já reveladas em diferentes semanas de moda internacionais.