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Fibras duplicam mercado

A produção de fibras mais do que duplicou nos últimos 20 anos e as previsões apontam para que a procura continue a crescer, pelo menos até 2030, quando deverá atingir 140 milhões de toneladas. Em Portugal, a busca por fibras de valor acrescentado também está a subir.

Isabel Marcos

Em 2018, a produção mundial de fibras rondou os 107 milhões de toneladas, o que representa mais do dobro do valor de 1998, onde ficou abaixo de 50 milhões de toneladas.

Os números fazem parte do mais recente relatório da associação Textile Exchange, que refere ainda que as fibras sintéticas dominam o mercado desde meados da década de 90, altura em que ultrapassaram a produção de algodão. Em 2018, as fibras sintéticas representaram cerca de 62% da produção mundial de fibras, com cerca de 66,6 milhões de toneladas. O poliéster teve uma quota de mercado de cerca de 51%, com 55,1 milhões de toneladas, seguido do algodão, com cerca de 26,05 milhões de toneladas e uma quota de mercado próxima de 25%.

As fibras celulósicas artificiais, contudo, estão a ganhar importância, aponta a Textile Exchange, com um volume de produção mundial de cerca de 6,7 milhões de toneladas e uma quota de mercado de 6,2% em 2018.

Já a lã representa uma quota de mercado de cerca de 1%, com uma produção ligeiramente superior a um milhão de toneladas. Em termos de importância surgem de seguida outras fibras de origem vegetal, nomeadamente juta, linho e cânhamo, que representaram uma quota de mercado conjunta de cerca de 5,7%, enquanto a quota da seda é inferior a 1%.

Do lado da procura, Bruna Angel, analista da Wood Mackenzie Chemicals, revelou durante a conferência anual da ITMF – International Textile Manufacturers Federation, que teve lugar no Porto de 20 a 22 de outubro, que a procura mundial de fibras rondou os 100 milhões de toneladas, devendo aumentar para 122 milhões de toneladas em 2025 e para 140 milhões de toneladas em 2030. «O crescimento tem-se sentido sobretudo no poliéster, com o algodão a crescer mais lentamente. Mais recentemente, as fibras celulósicas [não-naturais] registaram um grande aumento», apontou.

Portugal procura diferenciação

Este crescimento das fibras celulósicas não-naturais tem sido sentido na Lenzing, nomeadamente em Portugal. «No mercado nacional houve um aumento significativo na procura por fibras da Lenzing, fruto da mudança no portefólio de fios oferecido pelas fiações locais», afirma, ao Jornal Têxtil, Pedro Gonçalves, diretor para os mercados ibérico e sul-americano da empresa austríaca, explicando que tal resulta «do facto das fiações deixarem de fiar fios básicos à base de algodão e poliéster, apostando cada vez mais em misturas com EcoVero e Tencel. Esta aposta traduziu-se numa transformação na oferta de fibras no mercado e num aumento de valor na cadeia têxtil».

Pedro Gonçalves

A mesma perceção tem Isabel Marcos, diretora-geral da Dtexcom, que representa, entre outras, as fibras da Hyosung no nosso país. «Existe uma procura acrescida por produtos de maior valor acrescentado, com características que permitem a diferenciação e a inovação. Ao longo dos anos nota-se alguma redução em consumos de fibras de grande quantidade e pouca diferenciação, com a mais que provável deslocalização para geografias mais competitivas em preço. No nosso mercado é cada vez maior a procura por séries mais pequenas, de maior qualidade, com maior rapidez de serviço – daí que a qualidade das fibras e o “stock service” sejam imperativos», garante.

Sustentabilidade cresce

O mercado está igualmente alinhado com as duas grandes tendências apontadas durante a conferência da ITMF por grandes produtoras como a Lenzing, a Hyosung e a Indorama: inovação e ecologia.

«Neste momento, a maior procura [em Portugal] é a de fibras ou soluções amigas do ambiente. A inovação é também importante», destaca Isabel Marcos, embora reconheça que nem sempre os clientes estão preparados para pagar por essas mais-valias. «Aquilo de que os nossos clientes mais se queixam, atualmente, é das exigências ambientais, de qualidade e inovação (e de certificações diversas) sem depois o cliente querer pagar o custo. Pelo contrário, apertam ainda mais o preço. As entidades oficiais deveriam ajudar os empresários a “educar eticamente” os retalhistas para o custo/benefício justo», considera a diretora-geral da Dtexcom, que adianta que, no caso da Hyosung, e para a indústria da moda, as fibras mais vendidas em Portugal são o elastano premium creora, incluindo nas versões Eco-Soft, Black, Color+ e Power Fit.

Bruna Angel

No caso da Lenzing, «as fibras mais procuradas pelo mercado português são a EcoVero, a viscose certificada e passível de ser rastreada da Lenzing, e o liocel que é, por excelência, a fibra que melhor identifica o mercado de malha português, com o seu acabamento único no mundo», admite Pedro Gonçalves. «A fibra EcoVero simplesmente explodiu em Portugal – já nenhuma fiação aceita viscose, mesmo da Lenzing, que não seja passível de identificação e rastreabilidade para separar o trigo do joio», reconhece o diretor para os mercados ibérico e sul-americano.

Embora acredite que a procura por fibras mais amigas do ambiente vá aumentar, Bruna Angel assegurou que os preços «baratos» do petróleo e a dificuldade de obter economias de escala com artigos reciclados serão desafios para o futuro. «Isto não quer dizer que não haja oportunidade de reciclar. Acho que será uma necessidade», assumiu, sublinhando ainda que as empresas não podem fazer alegações que não possam provar por dados científicos. «Os consumidores ficam muito desapontados se foram estabelecidas metas e não forem cumpridas», advertiu.