Início Notícias Tecnologia

Fibrenamics espreita o futuro

As novas tecnologias e materiais nas áreas do desporto, arquitetura, transportes e saúde serviram de mote à segunda Ignite Sessions promovida pela Fibrenamics. A manufatura aditiva, táxis voadores e equipamentos desportivos que aumentam a eficiência dos movimentos foram alguns dos tópicos abordados.

No Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, a plataforma Fibrenamics, da Universidade do Minho, reuniu na passada quarta-feira, dia 28 de novembro, empresários, investigadores e especialistas para debater ideias e inovações que estão a mudar a investigação e a prática no desporto, arquitetura, transportes e saúde.

Raul Fangueiro

«A natureza já inventou tudo aquilo que nós queremos inventar», afirmou Raul Fangueiro, coordenador da plataforma Fibrenamics, durante a intervenção de introdução à sessão, onde apontou os atuais caminhos da investigação, nomeadamente a manufatura aditiva, onde se inclui a impressão 3D, e a preocupação com a sustentabilidade e ecologia. «Esta mimetização daquilo que a natureza é capaz de fazer é fundamental para encontrarmos as tecnologias que possam responder sob o ponto de vista funcional, mas também sob o ponto de vista da sustentabilidade», assegurou Raul Fangueiro.

Como a impressão 3D mudou a indústria

Proveniente de uma região onde a indústria se dedica à tecnologia subtrativa, Martinho Oliveira, diretor da Escola Superior de Design, Gestão e Tecnologias de Produção de Aveiro Norte, da Universidade de Aveiro, centrou a sua apresentação nas tecnologias de fabrico aditivas. «O paradigma é complementar o que são hoje as tecnologias de fabrico subtrativo para tecnologias aditivas, onde o mundo tem dado uns passos muito grandes», começou por dizer Martinho Oliveira.

Martinho Oliveira

Embora o nome possa não querer dizer muito a alguns, a verdade é que as técnicas de produção aditivas são já comuns na sociedade, explicou Martinho Oliveira, que deu o exemplo do pasteleiro, que vai adicionando camadas de natas, por exemplo, na construção de um bolo.

O fabrico aditivo em termos industriais resultou da necessidade de fazer protótipos de conceitos para o desenvolvimento de produto – a chamada prototipagem rápida, que deu os primeiros passos na década de 80 do século passado. «Agora a tecnologia já tem um estado de maturidade tal que algumas das suas vertentes estão já aptas a entrar num patamar diferente: o fabrico», explicou o professor da Escola Superior de Design, Gestão e Tecnologias de Produção de Aveiro Norte, que deu diversos exemplos da sua utilização atual.

Martinho Oliveira destacou, contudo, que embora muitas vezes sejam vulgarmente chamadas de impressão 3D, a verdade é que esta é apenas uma das tecnologias de fabrico aditivas. «Temos muitas tecnologias para processar diferentes tipos de materiais», indicou, referindo que o mercado mundial de tecnologias aditivas em 2020 deverá atingir um volume de 10,8 mil milhões de dólares. No entanto, sublinhou o professor da Universidade de Aveiro, a designação “impressão 3D” permitiu «democratizar a tecnologia» pela facilidade de compreensão da mesma junto da sociedade em geral.

As diversas tecnologias aditivas, que permitem produzir a partir de um ficheiro virtual, estão a gerar mudanças e, como tal, «a indústria do futuro vai ser muito diferente».

Equipamentos sem estorvo

Também o desporto é hoje diferente do que era nos anos 80, quando Carlos Carvalhal pisava os relvados não como treinador mas ainda como jogador. «Os equipamentos foram sempre um estorvo ao longo dos tempos e o que queremos é que não estorve o movimento. Esta é uma parte fundamental. A evolução que tem havido nos últimos anos é para aumentar a eficiência do movimento, não estorvando o atleta», elucidou o treinador e cofundador da marca de equipamentos de desporto Lacatoni.

Carlos Carvalhal, Nuno Sampaio, Francisco Alves e Júlio Silva

Mais leves e mais confortáveis, os equipamentos atuais vão no sentido de uma “segunda pele”. «Há uma evolução muito grande ao nível do conforto, do peso, da humidade, da adaptação das fibras ao corpo dos atletas», reconheceu Carlos Carvalhal, que destacou igualmente os dispositivos de comunicação, como o GPS, que os jogadores já levam para dentro das quatro linhas. «Penso que, no futuro, o GPS vai diminuir em tamanho, vai ser mais pequenino e vai promover mais dados que são importantíssimos na avaliação», garantiu.

Carlos Mota

Tendências igualmente identificadas por Carlos Mota, da plataforma Fibrenamics, que apontou ainda a customização, o design biomimético para uma melhor interação com o meio, a nanotecnologia e a multifuncionalidade, recorrendo à inteligência e à interatividade. «Todas estas tendências e necessidades colmatam em tecnologias que são passíveis de serem utilizadas para que tudo isso seja possível», incluindo modelação computacional, tecnologias de manufatura aditiva, deposição em multicamada, soldadura por ultrassons e moldação por compressão, enumerou Carlos Mota.

Arquitetura sustentável

As cidades inteligentes e os habitats sustentáveis estão na ordem do dia e, cada vez mais, a arquitetura caminha nesse sentido. «As pessoas têm que usar os meios de forma inteligente. A cópia das ideias resultante da criação do desejo não funciona – na Europa do Sul estava-se a construir casas como as casas na Europa do Norte, com grandes janelas voltadas a sul», exemplificou Nuno Sampaio, diretor da Casa da Arquitetura, que abriu portas em Matosinhos há um ano com o objetivo de guardar o acervo arquitetónico, até porque, «60% do trabalho dos arquitetos nunca chega a ver a luz do dia», revelou.

Na direção de casas e edifícios mais “amigos do ambiente”, admitiu o arquiteto, «todos os materiais têm de ser adaptados ao local. Não vale a pena querermos ver a casa criada em 3D, muito bonita, e depois colocá-la no outro lado do mundo. Temos de dialogar com a natureza e com o outro», asseverou.

Fernando Cunha

Além da sustentabilidade, há outras tendências em destaque na arquitetura, como é o caso da impressão 3D e a adaptação da tecnologia aditiva a outros casos, como por exemplo o 3D Concrete Placement – que permite «construirmos as nossas próprias casas», afirmou Fernando Cunha, gestor de projetos na Fibrenamics. «Um estudo produzido pela Markets & Markets estima que em 2017 o valor económico desta tecnologia foi de 0,3 mil milhões de dólares e prevê-se um crescimento até 2023 de 317%, o que vai valer um mercado de 1,43 mil milhões de dólares. É um mercado que está claramente em forte expansão», adiantou Fernando Cunha.

Domótica, estruturas dinâmicas e eficiência energética são outros conceitos que se estão a tornar obrigatórios na arquitetura, mencionou o responsável da Fibrenamics.

Táxis no ar

Lembrando a facilidade com que atualmente o consumidor decide fazer uma viagem de avião, Francisco Alves, diretor-executivo de aeronaves e motores da OGMA, assumiu que tem havido «um desenvolvimento significativo naquilo que são as tecnologias dos equipamentos, de manufatura, as tecnologias que permitem a esses equipamentos voar», dando o exemplo do motor que equipa o novo E2 da Embraer, que tem cerca de 100 sensores que permitem registar mais de quatro milhões de dados que serão usados na manutenção da aeronave. Um outro exemplo tem a ver com os materiais usados. «Nos compósitos – é um produto em clara ascensão dentro da aeronáutica – começou-se por ter peças não-estruturais, depois passaram para partes estruturais. A OGMA faz hoje, por exemplo, várias estruturas, quer para a aviação civil, quer militar, de asas, partes estruturais, hélices, em compósito e o próximo passo é claramente que essas estruturas possam também elas transmitir dados e até mesmo serem autorreparáveis», afirmou.

Nos transportes, a sustentabilidade, a versatilidade e a incorporação de características inteligentes são hoje os principais pilares de desenvolvimento. «Este conjunto de tendências têm como objetivo responder a um conjunto de necessidades», esclareceu João Bessa, da Fibrenamics, incluindo a utilização de fontes de energia alternativas. «50% da poluição do ambiente é devido aos transportes», apontou. Em crescendo está igualmente a disseminaçção dos veículos autónomos, que irão permitir, segundo João Bessa, minimizar os acidentes. «Isto é particularmente relevante se pensarmos que, por exemplo, em 2015 foram registados 1,25 milhões de mortes por acidentes rodoviários. Prevê-se que em 2035 já possa haver no planeta 21 milhões de veículos autónomos», avançou o investigador da Fibrenamics.

João Bessa

Mas um dos problemas que se levantam é a gestão de tráfego, uma vez que, de acordo com os dados citados por João Bessa, «em 2050 prevê-se que 70% da população mundial venha a habitar áreas urbanas».

Do lado dos transportes aéreos, a maior parte das empresas estão já a desenvolver veículos capazes de levantar e aterrar de forma vertical. «Na prática, o grande desafio será muito mais como vamos criar os meios de forma a que haja navegabilidade do que tecnologicamente. Tecnologicamente, ao dia de hoje, os produtos estão desenvolvidos. Agora o que falta é dar-lhe maturidade», defendeu o diretor-executivo de aeronaves e motores da OGMA, que deu o exemplo da Lilium.

A empresa alemã já apresentou publicamente planos para até 2025 «ter um avião com autonomia de 300 km que, no exemplo que têm lá, poderia fazer desde Manhattan até ao aeroporto em Nova Iorque por cerca de 36 dólares (quando num táxi custa cerca de 60 dólares) e em um terço do tempo. A grande questão é: como? Como é que do ponto de vista de legislação se permite que isto seja feito», contou.

Saúde a um toque de distância

Medicina personalizada, terapia genética e imunoterapia, nanomedicina, inteligência artificial (como nas cirurgias robóticas), telemedicina e envelhecimento ativo são algumas das tendências que estão a moldar o sector da saúde.

Diana Ferreira

«Para dar resposta a todas estas tendências, é necessário um grande desenvolvimento em várias áreas científico-tecnológicas», nomeadamente o desenvolvimento de novos sensores inteligentes, sistemas de monitorização em tempo real, a chamada wearable tecnology, engenharia de tecidos, biomateriais e equipamentos personalizados, enumerou Diana Ferreira, da Fibrenamics.

Júlio Silva, desenvolvedor de produto da Orthos XXI – uma empresa de dispositivos médicos de categoria 1, incluindo cadeiras de rodas e camas articuladas – afiançou, contudo, que o principal desafio desta área atualmente é a sua acessibilidade. «Estamos num momento em que as soluções existem, e cada vez mais não há muitos limites ao que as pessoas podem fazer, mas acho que devemos focar-nos mais na parte da acessibilidade e da possibilidade de chegar a outras pessoas», disse na sua intervenção. «Em termos de desenvolvimentos futuros, passa muito pela personalização», indicou, mas na verdade «o limite será, praticamente, aquilo que nós quisermos. Estamos numa altura promissora», concluiu.