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Fim das quotas têxteis antecipado por estudo da KSA

O ano de 2005 constitui uma data-chave para a indústria têxtil e do vestuário de todo o Mundo e se dúvidas ainda restassem sobre isto, um estudo recente da KSA (Kurt Salmon Associates) veio confirmar alguns dados impressionantes sobre as mudanças que este sector vai atravessar nos próximos anos. Ninguém se surpreenderá com as previsões referidas neste estudo, que apontam a China e a Índia como sendo os grandes fabricantes e exportadores de vestuário no futuro próximo, e o Japão a desempenhar o mesmo papel na área dos têxteis. Na indústria do vestuário, há várias décadas que a política de encomendas dos grandes retalhistas europeus tem sido condicionada pela existência de quotas de importação desses mesmos produtos. Assim, o fim dessas quotas, que terá lugar em 2005, deixa antever profundas alterações nas estratégias de compras dos distribuidores. A KSA levou a cabo um estudo sobre esta matéria, encomendado pela FTA (Foreign Trade Association), entidade que regulamenta o comércio externo do Reino Unido. Esta análise partiu de um inquérito feito junto de 23 empresas europeias, que no seu conjunto totalizam um volume anual de compras de 19 mil milhões de euros. A grande maioria (78%) dos retalhistas questionados afirmaram possuir a sua própria rede de compras. Entre estes distribuidores, 70% têm gabinetes de compras em Hong Kong, facto que segundo Simon Walwyn, especialista da KSA, deriva dos fortes laços históricos e culturais com esta cidade. No entanto, 48% dos inquiridos consideram que essa localização geográfica poderá vir a revelar-se inadequada, colocando mesmo a hipótese de deslocar os seus escritórios para outros países. Outra importante conclusão deste estudo reside na redução do número de fornecedores de artigos têxteis e vestuário, que decresceu 20% entre 1998 e 2002, e que as empresas questionadas afirmam pretender reduzir mais 20% até 2006. Como consequência desta mudança, 22% dos retalhistas estudados estabeleceram já parcerias com os seus fornecedores, assentes em contratos escritos, que definem antecipadamente questões como os volumes de compras e as margens de lucro. Neste estudo, a Kurt Salmon Associates aponta três grandes questões que afectarão a gestão dos retalhistas de vestuário na Europa: a organização, os sistemas de logística e distribuição, e a sua implementação na prática. Actualmente, são os departamentos de compras que têm maior influência na escolha da origem dos fornecedores (país, região ou mesmo empresa). Mas, ao mesmo tempo, os distribuidores procuram deslocar para os seus fornecedores a maior quantidade possível de tarefas operacionais. O resultado é que as centrais de compras dos retalhistas vão desempenhar cada vez mais o papel de “conselheiros estratégicos”, fornecendo-lhes informações importantes sobre as fábricas, produtos e margens de lucro e influenciando fortemente as escolhas dos distribuidores. Quanto aos sistemas de logística e distribuição, este estudo revela a falta de transparência que os prejudica, dado que poucos possuem redes de informação eficazes e verdadeiramente à altura de uma cadeia de aprovisionamento. Segundo a KSA, os referidos sistemas devem virar-se mais para o futuro, e ao mesmo tempo tornarem-se mais flexíveis, de forma a responderem às necessidades de consumidores cada vez mais exigentes. Perante este cenário, é a própria organização de toda a fileira têxtil europeia que estará em risco, caso as empresas não se apetrechem de forma conveniente e atempada para os desafios que se avizinham. Na sua parte final, este estudo aborda a evolução dos países de origem dos fornecedores dos distribuidores da Europa. Entre as conclusões da referida análise, destaque para o peso cada vez menor das diversas limitações normativas (jurídicas, sociais, económicas e políticas) nas opções de compra dos maiores retalhistas de vestuário, e para a crescente e feroz concorrência entre os fabricantes destes produtos, ansiosos por disputar as preferências dos grandes grupos empresariais. Neste panorama, segundo a KSA, é muito difícil avaliar o verdadeiro valor de um país em termos de capacidade de exportação, e logo, tomar decisões verdadeiramente estratégicas. Outra das tendências constatadas por este inquérito é o recurso cada vez mais frequente aos fornecedores directos, utilizado por 54% dos inquiridos, face aos que preferem recorrer a agentes de compras (14%). Além destes dados, refira-se igualmente que 78% destas cadeias possui a sua própria central de compras, facto explicado, segundo os autores do referido estudo, pelo elevado nível de complexidade dos produtos comprados, pelo risco da qualidade não ser a desejada, ou simplesmente pela falta de aceitação por parte dos compradores. Sendo assim, o potencial de aperfeiçoamento nesta área é ainda bastante alto, ideia confirmada pela disposição das empresas inquiridas em desenvolver os seus próprios canais de compras directos. Naturalmente que esta intenção vai implicar grandes mudanças na estrutura das suas organizações de logística e distribuição, podendo mesmo, perante a pressão da redução dos custos, estas empresas serem levadas a encerrar alguns dos seus gabinetes no estrangeiro. A preferência vai assim manter-se nas estruturas mais pequenas, próximas dos locais de produção, em vez das cidades com os custos mais elevados. Em síntese, o estudo efectuado pela Kurt Salmon Associates refere que muitas das cadeias analisadas estão bastante interessadas na partilha dos custos das suas próprias redes de logística e importação, tendo 40% delas mencionado mesmo a intenção de criar sinergias com outras empresas do sector, de forma a evitar perder esta importante vantagem competitiva.