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Fim das quotas: toda a história – Parte 1

Desde o dia 1 de Janeiro de 2005, as quotas que durante três décadas condicionaram o comércio internacional de têxteis e vestuário desapareceram.

Esta medida, que afectará decisivamente o comércio global de têxteis (169 mil milhões de dólares) e de vestuário (226 mil milhões de dólares) veio liberalizar as exportações dos artigos fabricados na China e na Índia para os 148 países membros da OMC (Organização Mundial de Comércio).

O desmantelamento do acordo sobre os têxteis e o vestuário foi aprovado em 1994, mas entretanto Pequim fez a sua entrada em força no comércio mundial, ao aderir à OMC, em 2002.

Segundo dados desta organização, a quota de mercado da China nas importações da União Europeia deverão passar dos actuais 18% para 29%, enquanto nos Estados Unidos, os produtos chineses deverão representar 50% das importações, face aos actuais 16%.

“Quando a eliminação das quotas foi decidida, ninguém imaginava que a China se tornaria uma potência têxtil tão grande, e tão rapidamente, explica Denis Audet, economista da OMC.

Este país tornou-se entretanto o maior exportador mundial de vestuário, com 28% do mercado global, com um volume de negócios de 80,4 mil milhões de dólares (59 mil milhões de euros).

Perante os seus pares europeus e norte-americanos, Pequim prometeu entretanto “uma atitude responsável”. Nesta linha, a China anunciou recentemente que irá impor direitos de exportação sobre certas categorias de produtos, sem especificar no entanto quais as categorias abrangidas.

Ao mesmo tempo, a Índia tem vindo igualmente a preparar-se, para este momento.

O governo deste país fez da produção de têxteis um dos principais motores do seu crescimento, prevendo quadruplicar as suas exportações até 2010.

As empresas indianas têm seguido o exemplo, e nos últimos dois anos investiram 700 milhões de dólares em novas fábricas e equipamentos.

No espaço de três anos, a Índia e o Paquistão adquiriram um quarto do parque mundial de maquinaria para a produção de fibras não-tecidas, enquanto os chineses compraram um quarto do parque mundial de equipamentos de fiação.

Face a esta ofensiva, os Estados Unidos praticamente abandonaram a produção de confecção de vestuário, tentando apenas proteger aquilo que resta do fabrico de vestuário em malha, vestidos e camisolas.

A Europa, por seu lado, recentrou-se no design, nos artigos de luxo e nos têxteis técnicos, a partir das suas bases estabelecidas na França e Itália, abandonando a produção de artigos de gama baixa.

Segundo a OCDE, quatro milhões de empregos vão desaparecer nos países mais ricos.

No hemisfério sul, os países menos desenvolvidos, que pensavam à partida que iriam ser favorecidas pelo fim das quotas, estarão na maior parte entre os grandes perdedores.

Estados como o Bangladesh, a República Dominicana e as Ilhas Maurícias lutam por fugir à miséria que se adivinha no seu futuro próximo.

A sua principal força – uma mão-de-obra extremamente barata – é assim abalada pelos concorrentes chineses e indianos, que se revelam (quase) imbatíveis nos custos da produção integrada (do fio ao vestuário acabado) e com elevada qualidade.

“Como poderemos resistir à concorrência chinesa? Eles beneficiam de elevados subsídios e apoios estatais às suas empresas e a sua moeda é subvalorizada”, explica o embaixador do Bangladesh na l’OCDE.

Entretanto, as organizações não-governamentais (ONG) mostram-se inquietas.

As encomendas a baixos preços dos compradores ocidentais constituem, aos seus olhos, incentivos a ilegalidades diversas.

Entre estas, a exploração de crianças persiste, mas revela-se mais escondida do que anteriormente, constata Neil Kearney, presidente da Federação Sindical Internacional dos Têxteis.

As condições de trabalho dos trabalhadores nos países mais pobres arriscam-se assim a piorar ainda mais…