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Finisterre apanha a onda da reciclagem

O surf é mais do que um desporto – exige uma relação de simbiose entre o surfista e o mar, que ultrapassa a simples atividade física. Contudo, reserva um segredo que condena toda a sua ligação à natureza: os fatos de surf velhos, até agora, impossíveis de reciclar.

Conhecido pelo isolamento térmico e ajuste confortável, o neopreno é um tipo de material de borracha sintética à base de petróleo que constitui a escolha número um dos produtores de fatos de mergulho há já várias décadas. No entanto, a combinação de água salgada com a radiação ultravioleta e a utilização consecutiva deste tipo de vestuário significa que a maioria dos fatos dura apenas cerca de dois anos, antes de começar a perder a elasticidade e a capacidade de retenção de calor. «Não há qualquer orientação conhecida sobre o destino a dar [aos fatos de mergulho] no final do seu ciclo de vida. E o neopreno é um material muito pouco biodegradável», explica Tom Kay, fundador da Finisterre.

Foi assim que surgiu a ideia de criar um fato reciclável. A Finisterre, marca de equipamento outdoor sustentável, reuniu uma equipa de investigação, que, após dois anos de pesquisa e experimentação, criou aquele que acreditam ser o primeiro fato de mergulho totalmente reciclável. «Tentamos encontrar outras formas de preservar o desempenho desta peça de vestuário, mantendo-a forte e resistente, mas eliminando, na verdade, todos os materiais não recicláveis», revela Jenny Banks, investigadora de materiais na Finisterre, contratada especificamente para desenvolver o projeto.

O primeiro protótipo foi recentemente testado por Kay. O fundador considerou o fato de mergulho mais quente do que o convencional e a precisar de alguns ajustes no ajuste e na flexibilidade para o vestir e despir. Não obstante, acredita que «é um início realmente emocionante. Ainda estamos em fase de testes antes de refinar o próximo protótipo».

Design para toda a indústria

Não é a primeira vez que a Finisterre investe nesta área. Ao longo dos últimos anos, a empresa tem vindo a produzir os fatos de mergulho com uma poliamida reciclada de redes de pesca e alcatifas descartadas, a Econyl. Este material não só permite reduzir o plástico nos oceanos, como também garante um fio de «alto desempenho, macio ao toque, flexível e que oferece uma forma e ajuste aerodinâmicos», aponta a empresa na sua plataforma online.

O problema que se coloca nos fatos de mergulho prende-se com o tipo de material que os compõe, já que ao contrário da maioria dos plásticos, que podem ser decompostos e reciclados, o neopreno é obtido por termofixação, cujas moléculas não são amovíveis. «Basicamente significa que é processado de uma forma que não pode (facilmente) ser revertida. Daí que seja tão difícil de reciclar», esclarece Banks. Por outro lado, o design dos fatos de mergulho tradicionais envolve o recurso ao revestimento dos materiais, que acrescem o desafio à sua reciclagem.

Quando o protótipo final estiver concluído, a Finisterre pretende colocar o preço ao mesmo nível dos fatos de mergulho convencionais. Além disso, a equipa de investigação adianta querer tornar público o respetivo design, no sentido de ajudar esta indústria a tornar-se mais sustentável. «Queremos dizer às marcas maiores “podemos fazê-lo” e, se conseguirmos fazer isto juntos, todos nós podemos fazê-lo», confirma Jenny Banks.

A Finisterre também criou uma parceira com a empresa britânica ReNew ELP para testar a sua inovadora tecnologia de reciclagem, que decompõe e transforma os fatos de mergulho já velhos, assim como lixo dos oceanos, em petróleo biológico, que pode ser reutilizado pela indústria de plásticos. A investigadora da Finisterre admite que esta descoberta pode fazer com que o vestuário reciclável da empresa pareça redundante. Contudo, quanto mais materiais integram o petróleo biológico, maior é a necessidade de serem destilados posteriormente, o que exige elevados recursos financeiros. «Ao simplificar os materiais dentro do nosso vestuário maximizamos a quantidade de material puro, de boa qualidade, que podemos recuperar e reintroduzir na nossa produção», indica Banks ao jornal The Guardian.

Como parte da sua estratégia de sustentabilidade, a Finisterre está a lançar um sistema de recompra de fatos de mergulho já usados, onde os surfistas podem deixar o seu equipamento antigo para ser reintegrado no processo de testes de reciclagem.