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Fios com identidade própria

Uma antiga fiação do grupo TMG voltou à vida com a Inovafil, que, além de usar as instalações, deu uma nova oportunidade a muitos dos seus ex-trabalhadores, como Maria Emília, que descreve este inesperado regresso ao ativo como o seu «euromilhões». Mas esta não é uma fiação tradicional – investigação, inovação, diversificação, flexibilidade, antecipação de tendências e desenvolvimento de fios especiais à medida de cada cliente fazem já parte do ADN. O administrador Rui Martins abriu as portas da empresa ao Jornal Têxtil199 (outubro 2015) e falou sobre este projeto industrial, de fio… a pavio.

Qual a ligação da Inovafil à Mundifios?

A Inovafil, mas mais do que ter acionistas em comum com a Mundifios, tem uma estratégia em comum.

Sendo a Mundifios a maior trader ibérica de fios, com uma presença muito forte no mercado, quer nacional quer internacional, chegou à conclusão que tinha uma lacuna difícil de suprir sem ter produção própria. Daí nasce este projeto da Inovafil, como complemento da gama de produtos da Mundifios.

As fiações que existiam em Portugal e na Europa não tinham a capacidade de resposta?

Não, porque muitas delas eram organizações rígidas. E uma organização rígida não consegue trabalhar para um mercado flexível. Portanto, quando criamos uma organização nova, no caso a Inovafil, tem de ser numa lógica de flexibilidade. Daí o trabalho que estamos de fazer, de pegar em pessoas que trabalhavam numa lógica de produção em contínuo e colocá-las a trabalhar para produção a lote. Hoje não sabemos o que vamos produzir daqui a 15 dias. Sabemos é que temos de estar preparados para produzir aquilo que o mercado nos solicitar. Esse é o grande desafio.

Como correram estes primeiros meses de atividade?

Até setembro já alcançámos a faturação do ano passado – quando operávamos na ex-Fiação de Covas – de 9 milhões de euros.

O objetivo é chegar aos 12 milhões de euros até ao final do ano. E ainda com margem de progressão, porque somos uma empresa muito jovem.

Qual é a capacidade de produção da Inovafil?

Temos capacidade de 150 a 200 toneladas de fio por mês, dependendo do mix produtivo.

Como é desenvolvido o trabalho comercial?

A Mundifios faz toda a comercialização. Também marca presença na Première Vision Paris com a coleção da Inovafil.

Temos já cerca de 10% de vendas diretas para o mercado externo.

Em que mercados estão presentes?

Essencialmente na Europa, em países como França, Alemanha e Espanha.

Queremos rapidamente passar para 20%, sendo que cerca de 80% das vendas são para o mercado externo por via indireta. Trabalhamos sobretudo para o sector das malhas, que deve representar mais de 75% da produção.

Dentro da vasta oferta da Inovafil, quais são os bestsellers?

Na linha de crus, são os fios com misturas com linho, com caxemira. Por sua vez, na gama de cores destacam-se os fios fantasia, com brilhos, borbotos, jaspés e flamés e a combinação de vários.

Que linha de produção pesa mais nas vendas?

A gama de cores, que tem menos concorrência à escala mundial.

Quem são os concorrentes da Inovafil?

Existem alguns concorrentes portugueses, mas é sobretudo a Turquia, que é um mercado de proximidade. Já os italianos fazem artigos muito de nicho, como linhos e sedas.

A TMG fechou há três anos e ninguém pensava que haveria uma nova fiação aqui. Em termos de ambiente, que impacto teve este projeto?

Foi um clima de quase euforia e emoção para muitas destas pessoas. Embora estivessem formatadas para o monoproduto, eram colaboradores disciplinados, que sabiam estar na organização, desempenhar as suas tarefas. Portanto, acho que estão a adaptar-se com relativa facilidade.

Houve um investimento de cerca de 10 milhões de euros. Em quantos anos será possível reaver esse investimento?

Pensamos que dentro de seis a oito anos. Depois seria a etapa seguinte, de ter o projeto com outro investimento. Não desta envergadura, porque senão estávamos a construir outra fábrica, mas os investimentos vão acontecer.

A Inovafil precisará primeiramente de se organizar no sentido de ser inovadora e esse é o principal objetivo. Desenvolver a gama de produtos high-tech, apresentar-se ao mercado e sedimentar-se como uma empresa que apresenta soluções e é reconhecida por tal. Posto isso, achamos que podemos crescer 20% a 30% e temos espaço.

Qual é o perfil de cliente da Inovafil?

Temos os nossos clientes diretos, mas também já temos alguma influência no final da cadeia. O grupo Inditex, muito pela forte presença nesta região, mas também marcas de renome como a Hugo Boss. Como os fios são diferenciadores, conseguimos distingui-los na peça final e ir às lojas e comprar peças com os nossos fios.

Quando olha para a Inovafil, acha que a empresa ainda está a reagir ao mercado ou está já a lançar produtos que ditam tendências?

A Inovafil, com a coleção de fios que apresentou em setembro na capital francesa, está já a provocar o mercado. E temos conseguido chegar ao cliente final, à marca, ao confecionador.

Mas temos também um mercado nacional no qual acreditamos, com um sector de malhas fortíssimo, que é o maior na Europa. Portanto não precisamos de viver obcecados com a exportação para Espanha ou França quando temos o maior mercado aqui em Portugal, que tem uma lógica como a nossa, diferenciadora.

Qual seria a distribuição ideal das vendas?

Acho que a empresa deveria ter 30% a 35% de mercado externo direto. Dentro do mercado interno, as vendas devem estar o mais dispersas possível entre aquilo que é o mercado de malha moda, malhas de artigos técnicos e tecelagens. Acho que não pôr todos os ovos no mesmo cesto já não é hoje uma grande lição de gestão.

Obviamente que se o mercado implodir, desaparecer, ninguém consegue ser tão forte, mas achamos que vai crescer, senão não tínhamos acreditado e investido neste projeto.

Quantos contínuos têm?

Temos 14 contínuos, o que significa mais de 14 mil fusos. Oito mil na linha de produção de fios de cor e seis mil na de crus. Temos também um open-end para cada linha, com 288 rotores cada.

Que vantagens apresenta hoje a tecnologia open-end para uma empresa com uma filosofia de inovação?

O open-end nasceu para aproveitar os desperdícios da fiação convencional. Mas hoje já utiliza fibras tão nobres e permite uma resposta muito rápida. Com a nova tecnologia, que é muito versátil, conseguimos transformar uma máquina em cinco mais pequenas, conforme as necessidades. Portanto, em si, personifica aquilo que somos: versáteis e reativos. Se queremos trabalhar para o mercado das malhas, que tem encomendas pequenas, era inconcebível fazê-lo numa máquina open-end anterior. Nesta é perfeitamente possível, fácil e rápido. Mas é claro que o sector de excelência desta tecnologia continua a ser a tecelagem.

Existem muitos open-end como este em Portugal, a fazer artigos essencialmente básicos. O que não existe ou existe pouco é pegar nas misturas como a Inovafil faz e colocá-las no open-end. A vantagem não é ter a máquina, é o know-how e o que fazer com ela – o conhecimento das fibras, das misturas, das características dos fios e a sua aplicabilidade. O open-end permite dar uma resposta muito rápida, de cerca de duas semanas para fios de misturas, se for 100% é ainda mais rápido. Mas não queremos entrar no mercado dos básicos.

A busca por novos fios é o motor desta fiação?

Esta fiação tem basicamente dois motores. Um, porque tem, tal como o nome indica, uma vertente inovadora, no sentido de propor novas soluções ao mercado. Nós, enquanto fiação, queremos chegar ao final da cadeia e influenciar e ter propostas para toda a fileira têxtil, vestuário e moda, e depois, na parte técnica, que é um outro campo, com características muito próprias, a nível de produção e marketing. Queremos ser uma empresa que consegue desenvolver fios para os clientes e, ao mesmo tempo, apresentar soluções diferenciadoras.

Mas também apresentar mais do mesmo com a capacidade de resposta rápida, flexibilidade, pequenas quantidades?

Isso é o que nos caracteriza. A forma como vemos o mercado e como esse mercado, que acreditamos que vai crescer, justifica a nossa existência. É um mercado muito exigente, a nível de timing, da qualidade que é já intrínseca e do serviço. Para isso, a empresa precisa de ter equipamentos, mas sobretudo pessoas que sejam o espelho do mercado, reativas e polivalentes. Não sabemos exatamente como vai ser o futuro, mas sabemos que queremos fazer parte dele, e para fazer parte dele sabemos que temos de estar disponíveis e com mentalidade para o acompanhar e inovar.

Em termos de I&D, que novos fios estão na forja? 

Temos especificamente em cima da mesa um projeto para sportswear e outro para vestuário de proteção, em parceria com o Citeve. Já com a Universidade do Minho estamos a estudar as potencialidades de uma fibra natural, mas está ainda numa fase embrionária.

Em que tipo de fios gostaria que a empresa se tornasse uma referência?

Acho que o expoente máximo é o campo medicinal, para tratamentos dermatológicos, celulite, que pusesse as pessoas a treinar sem correr, um fio que queimasse as calorias que as pessoas ingerem a mais… Só que a questão das certificações e de legalização é muito difícil, pelo que terá de ser sempre em parceria.

O que seria, então, plausível desenvolver na Inovafil em termos de I&D?

Penso que na área do desporto poderíamos ter uma solução para apresentar aos clientes, um fio não só respirável e de secagem rápida, mas com outras características, por exemplo na parte da recuperação física. Algo que, enquanto estamos a trabalhar no ginásio, promova logo uma recuperação rápida em termos musculares.

Mais importante do que os produtos, é gerar dentro da organização uma cultura de inovação. Para isso estamos certificados com a ISO 9001:2015 (gestão da qualidade) e em processo de certificação pela NP 4457 (gestão da investigação, desenvolvimento e inovação). Nós acreditamos que nada deve ser feito ad hoc e que as empresas têm de ter uma organização que depois culmine em cultura. Leva tempo, é difícil, mas gera resultados magníficos quando se consegue passar para aquilo que é o ADN da empresa.

Quais são as metas traçadas no curto e longo prazo?

No imediato, queremos consolidar o projeto e demonstrar às pessoas que fizeram um bom investimento. No médio/longo prazo, queremos que a Inovafil tenha identidade própria, seja conhecida no mercado como uma empresa líder, primeiro no mercado nacional e depois mundial, como uma referência tanto para os clientes como para os fornecedores, porque isso também é importante. Se um fornecedor desenvolve uma fibra, que nos venha apresentar essa fibra.