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FIT sob domínio dos Paulos

Paulo Portas, Paulo Melo e Paulo Vaz, em distintas perspetivas, marcaram o XVIII Fórum da Industria Têxtil que decorreu ontem no Citeve, subordinado à temática “Novos Modelos de Negócio para a Fileira Têxtil e Moda”, no qual Patrícia Paulos disse de sua justiça sobre o futuro do comércio eletrónico.

Mas é o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, que faz hoje as parangonas da imprensa quando tomou a defesa em causa própria e disse que era importante olhar para o novo orçamento como «um orçamento de equilíbrio, um orçamento de redução e de contenção, mas que não esqueceu as empresas. E não esqueceu as empresas em várias medidas. Não esqueceu as empresas que investem, alargando o crédito fiscal ao investimento, não esqueceu as empresas que inovam, com programas de incentivos fiscais focados em quem investe nas empresas mais inovadoras, não esqueceu as empresas que se capitalizam e dá um incentivo importante com o considerar a remuneração convencional, alargando esse regime, tornando-o efetivo para que as empresas possam deduzir o que é a remuneração da entrada dos seus capitais próprios, em vez de apenas poderem deduzir, nos casos em que se endividam, os juros que pagam. Isto obviamente não favorece todas as empresas, favorece as empresas que se capitalizam».

fit-1Ainda sem ter ouvido o Ministro da Economia, o novo presidente da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, Paulo Melo, tinha já dado nota negativa às recentes medidas do Executivo que conduziram à reposição de quatro feriados e ao aumento do salário mínimo. «Na verdade, quando a ATP desenhou um plano estratégico para o sector, com vigência até 2020, considerou um conjunto de eixos de intervenção, precisamente nas áreas que mais sensíveis são à competitividade das empresas, as quais, em vez de progredirem no bom sentido, inverteram a tendência e se constituíram como problemas particularmente difíceis para ultrapassar. Falo das reformas estruturais oportunamente lançadas e que infelizmente vemos congeladas, quando não mesmo revertidas, em concreto no domínio jurídico-laboral, em que, por exemplo, a simples reposição de quatro feriados pode determinar a perda de 200 milhões de euros de exportação deste sector, para as empresas e para o país, ou o aumento do salário mínimo muito para além do que as condições da economia permitem, pois implica aumentar mais de 5% não apenas as categorias mais baixas, mas todas as restantes em cadeia», referiu Paulo Melo.

Resistente e, mais do que isso, resiliente, a indústria têxtil e vestuário tem sido uma bem-comportada discípula na cadeira da economia nacional, como apontou Paulo Vaz, diretor-geral da ATP: «se tudo correr como o esperado, e se estes último trimestre for em linha com aquilo que são as nossas projeções, o volume de negócios atingirá os 7.200 milhões de euros; a produção os 6.000 milhões de euros, o emprego volta a crescer, para 132.000, portanto, acima do que já registámos no ano passado e que também foi um valor em crescimento, e as exportações vão finalmente ultrapassar a barreira dos 5.000 milhões de euros, aquilo que era uma meta que tínhamos projetado para 2020 e que vamos de alguma maneira também antecipar quatro anos, e a balança comercial deste ano vai ultrapassar de uma maneira clara a barreira dos 1.000 milhões de euros».

fit-2Mentor do Fórum da Indústria Têxtil, que contabiliza 20 anos e 18 edições, Paulo Vaz fez ainda uma retrospetiva desta assembleia magna num fogo cruzado com os momentos históricos do sector nestas últimas duas décadas. «A primeira [edição] tinha como lema “A indústria têxtil, um lugar de futuro”, era isso que procurávamos, não queríamos baixar os braços, queríamos continuar a apostar neste sector, e acho que hoje, aquilo que são os indicadores do têxtil demonstram bem que o tecido empresarial, os empresários e os seus colaboradores, não baixaram os braços e conseguiram suportar todo um conjunto de dificuldades e é no fundo essa história de sucesso que felicitamos hoje», destacou.

Também Paulo Portas, na qualidade de vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria deixou palavras de elogio às empresas quando afirmou que tinha a firme convicção de que «as empresas salvaram um Estado resgatado, porque as empresas tiveram de viver ao mesmo tempo uma crise no mercado interno e uma crise nos mercados tradicionais europeus. No mercado interno, uma recessão, e em muito dos mercados tradicionais com uma desaceleração do crescimento ou mesmo uma estagnação. E, portanto, as empresas tiveram de reinventar-se duas vezes: ir para fora e ir para fora para onde não estavam habituadas a ir».

fit-3Esta última declaração de Portas serve que nem uma luva às insígnias de moda MO e Zippy da Sonae, que começaram a palmilhar os caminhos digitais há menos de dois anos. «A tecnologia mudou a nossa vida e consequentemente mudou a forma como interagimos com as marcas. E desta forma, uma empresa, independentemente da dimensão, se quer estar próxima do cliente e se quer vender a sua marca tem obviamente que dar esse passo da digitalização», defendeu a diretora do programa de fidelização da Mo e da Zippy na Sonae, Patrícia Paulos, acertando assim no alvo dos novos modelos de negócio para a fileira têxtil e moda, como desafiava o tema deste XVIII Fórum da Indústria Têxtil, mas que não convenceu o seu incontornável comentador, Daniel Bessa. No habitual tom irreverente, o reputado economista fez saber que «o cenário dourado que o sector tinha traçado achava eu que tinha demasiado B2C. Acho que isso é outro negócio e apela a outras competências e a outras coisas que não temos. Uma coisa dessas tem competências próprias, é caríssimo em termos de necessidade de investimento e tem evidentemente riscos. Portanto, eu recomendaria a maior prudência a alguém que queira meter-se por esse caminho». Daniel Bessa não resistiu a sublinhar que «o private label é a minha Liga Europa aqui no têxtil».