Início Notícias Gerais

Fogo nas redes sociais

A sigla “Fogo” é o mais recente conceito a integrar o léxico urbano anglo-saxónico e, por oposição ao já conhecido “Fomo”, traduz por iniciais o medo de sair e principalmente o prazer derivado de uma existência discreta.

Cada vez mais assoberbados pelas habituais selfies e poses, os consumidores evitam os eventos mais populares do mercado de massas, que inundam, com as suas representações pictóricas, os media sociais. Substituindo a anterior pressão Fomo, cujas iniciais traduzem a expressão “fear of missing out” (medo de perder, um evento nesta situação em particular), os consumidores adotam uma perspetiva Fogo – “fear of going out” ou, em português, o medo de sair.

O festival alternativo de música e arte de Coachella, que se realizou no segundo e terceiro fim-de-semana de abril no estado americano da Califórnia, foi o gatilho que despoletou esta reação. Este ano, o festival provocou uma reação sem precedentes nos media sociais devido ao fluxo incessante de selfies alusivas ao evento. Em resposta, diversos frequentadores das redes sociais acorreram a elas, publicando fotos com a referência #nocoachella de forma a partilharem como despenderam o seu tempo não frequentando o badalado festival.

Depois do início da segunda semana de celebração do festival, o termo Fogo foi criado por Alexis Swerdloff, editora estrategista da New York Magazine, que escreveu um artigo sobre como desenvolveu um caso de Fogo, um «ativo não-desejo» de frequentar os eventos do momento. Swerdloff afirma que «não sou a única. O ano passado, por esta altura, Lena Dunham publicou no Twitter: “Qualquer que seja o oposto de Fomo é isso que sinto relativamente ao Coachella”». A editora revela ainda que «outra pessoa que conheço publicou recentemente no Twitter: “Não ir ao [festival americano de cinema, música e tecnologia] South by Southwest é o novo abandonar o Facebook”».

Relevância futura
Esta tendência de desapego tem vindo a solidificar-se. Os consumidores estão cansados de fotografias idênticas de festas e pessoas e da repetição incessante dos mesmos assuntos. Estimulados pela partilha excessiva e saturação das redes sociais, a tendência Fogo reflete a necessidade de repensar a relação com o plano digital e cultivar uma existência mais rica online e offline.

O Fogo é uma reação positiva. É uma resposta que contraria a habitual tendência de responder afirmativamente a tudo, abandonar a sensação incómoda de ter de estar em algum lugar e fazer algo o tempo todo. Trata-se de consentir uma pausa e de não exigir constantemente o máximo de nós próprios.

A alegria de perder um evento irá sedimentar-se à medida que a nova geração se apercebe da necessidade de ativamente bloquear estas distrações. Nunca estivemos tão conscientes do que os outros fazem e, consequentemente, daquilo que nós não fazemos, afetando de forma determinante o modo como vivemos a nossa vida. À medida que o Fomo dá lugar ao Fogo, emerge uma vivência mais consciente, na qual os indivíduos procuram experiências mais autênticas e menos massivas, apreciando o momento, ao invés de o perseguir.