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Força de trabalho híbrida

A indústria da robótica colaborativa deverá alcançar os mil milhões de dólares (aproximadamente 890 milhões de euros) em 2020, quando a sociedade entrar numa nova era de equipas híbridas, firmadas entre robots e humanos.

Nos últimos anos muito tem sido dito sobre a ameaça percebida da automação, que teria força para dizimar mercados de trabalho. De acordo com um relatório de março de 2017 do National Bureau of Economic Research, a penetração de robots deverá ter «efeitos negativos significativos sobre o emprego e os salários» nos EUA.

No entanto, num relatório de maio de 2017, a Information Technology & Innovation Foundation contrapõe esse prognóstico, aconselhando mesmo os decisores políticos a «respirarem fundo e a acalmarem-se» antes de exagerarem sobre o impacto da automação no emprego.

Este último relatório pretende mostrar que a realidade pode estar nalgum lugar entre os dois pontos de vista opostos. A produção, em particular, tem vindo a sugerir uma força de trabalho híbrida de humanos e robots.

Trabalho de equipa

A ameaça da automação sob o mercado de trabalho não deve ser subestimada. O SAM, por exemplo, um robot pedreiro desenvolvido pela Construction Robotics, pode colocar cerca de 3.000 tijolos por dia – aproximadamente o trabalho de seis pessoas – com menos custos.

No entanto, a introdução da robótica colaborativa pode ajudar a criar um tipo de força de trabalho fundamentalmente diferente daqueles que são hoje conhecidos.

O relatório do Fórum Económico Mundial de 2016, “The Future of Jobs”, sugere que a automação integrada, em vez de substituir completamente um trabalhador, seria usada para executar tarefas físicas repetitivas ou simples com maior eficiência, o que, por sua vez, permitiria que um trabalhador explorasse outros aspetos mais criativos do seu papel. Isso permitiria ainda que os trabalhadores desenvolvessem novos produtos ou adquirissem novas competências à medida que o mercado evolui, criando uma força de trabalho flexível e capaz de se adaptar sempre que necessário.

Já o relatório “Artificial Intelligence, Automation, and the Economy”, de dezembro de 2016, ressalvou a importância de manter uma força de trabalho híbrida de humanos e robots, com o elemento humano a tomar as decisões morais e éticas que a Inteligência Artificial (IA) existente é atualmente incapaz de fazer.

Complementar papéis existentes com a robótica colaborativa será fundamental quando se trata de recrutamento e retenção de talentos futuros, especialmente para as gerações nativas digitais, isto é, millennials e geração Z.

Os millennials, que representarão 75% da mão-de-obra global até 2025, têm uma necessidade particular de se envolverem de forma significativa no seu local de trabalho. Um estudo recente da Deloitte reafirma que os membros desta geração continuam a ser conduzidos por um sentido de responsabilidade dentro do seu ambiente de trabalho. O seu desejo de desenvolvimento pessoal exige compromisso, em tempo e custo. Libertá-los de aspetos repetitivos permitiria que estes se concentrassem na resolução de problemas em benefício do negócio.

Inteligência artificial

Não obstante, ainda que se esteja já a assistir a uma significativa integração automatizada dentro de campos especializados, a relação entre trabalhadores e máquinas ainda está num nível muito básico.

O sistema cognitivo IBM Watson está a ser usado em 45 países, em 20 indústrias, providenciando soluções de processamento de dados, diagnóstico e análise.

Numa área como os cuidados de saúde, a capacidade do IBM Watson de processar grandes volumes de dados com precisão e a grande velocidade é inestimável para oncologistas, que precisam de personalizar rapidamente os tratamentos para casos complexos. Mas a “conversa” entre humanos e máquinas é limitada.

Uma equipa da Carnegie Mellon University tem vindo a trabalhar na resolução deste problema específico. O projeto “CoBots” da professora Manuela Veloso pretende criar uma relação simbiótica em tempo real entre máquinas e trabalhador. Estes robots aprendem a colaborar com as pessoas à sua volta – se não conseguem resolver um problema apresentado, simplesmente pedem ajuda ao ser humano mais próximo.

Estudo de caso: Amazon

Em abril de 2017, a Amazon anunciou uma expansão no Reino Unido, com um novo centro de distribuição a ser inaugurado em Warrington até ao final do ano. O armazém – que criará 1.200 postos de trabalho – faz parte de um programa mais amplo que verá o número de armazéns da retalhista online aumentar para 15 no Reino Unido até ao final de 2017.

As equipas humanas trabalharão ao lado de robots desenvolvidos pela Amazon Robotics, uma divisão criada depois da Amazon ter adquirido a Kiva Systems, nos EUA, em 2012.

Até agora, os CoBots estão limitados a tarefas simples de procura e transporte, e as mãos e cérebros humanos ainda são necessários para a recolha e seleção. As “mãos” robotizadas atuais não têm a sensibilidade necessária para aplicar a pressão correta ao pegar em objetos de diferentes densidades, por exemplo.

Esta tecnologia precisa, por isso, de ser aperfeiçoada, pelo que as encomendas da Amazon ainda vão continuar a ser garantidas por uma equipa colaborativa de humanos e robots durante algum tempo.

Realidade mista

Os óculos HoloLens da Microsoft já se estabeleceram como uma ferramenta colaborativa em áreas como o design industrial e a engenharia. A tecnologia permite renderizar modelos gerados por computador em ambientes reais, acelerando exponencialmente o processo de prototipagem. Possibilita ainda que vários utilizadores colaborem em projetos individuais.

A italiana Comau, parte do grupo Fiat, está a usar os HoloLens tanto na produção de peças quanto na monotorização dos seus robots.

Já o Guardian S, um robot de inspeção e vigilância desenvolvido pela Sarcos, pode ser guiado para espaços contaminados ou não seguros pelos HoloLens. A sua câmara e microfones proporcionam feedbacks em tempo real para a avaliação de um especialista humano a uma distância de segurança.

Os analistas parecem concordar que a automação afetará a maioria das indústrias até 2020, pelo que é importante considerar as áreas da empresa onde a implementação da robótica colaborativa pode ajudar a atenuar o impacto futuro.