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Formosas e seguras

Duas décadas depois, o Portugal Fashion continua a renovar-se e a reinventar-se. Numa edição que se assume refletora da moda nacional – espelhando o seu passado, presente e futuro –, o evento organizado pela Anje, em parceria com a ATP, é também um convite à reflexão para todos os que gravitam à sua volta. «Temos sempre de apontar novas direções, temos que ir para a frente. O passado acabou, temos de olhar para o futuro», defendeu Manuel Alves, no final do desfile da sua coleção na Carpintaria de São Lázaro, criada sempre a quatro mãos, com Manuel Gonçalves. Uma coleção que explora as dicotomias entre a forma masculina e o detalhe feminino, a fluidez versus a rigidez nos tecidos (rendas, crespes e brocados de seda, tweeds e lãs), o leve e o denso da paleta de cores (branco, vermelho, azul e preto), o maxi e o mini das peças, o atar de laços ou botões e o desatar de bainhas. Sempre acompanhada de sapatos rasos, de laços atados e desatados, que tudo tem a ver com «o conceito que está por trás, um romantismo imaginado ligado um pouco à intimidade, com a ideia da mulher serena, cool, um oposto ao glamour que já não interessa a ninguém, que neste ambiente rústico é ótimo», destaca o designer. Foi neste mesmo ambiente nu e cru que Carla Pontes, minutos antes, nos fez olhar a Terra de um novo ângulo com a coleção “Órbita”, que lhe valeu no mês passado o prémio para Portugal do Porto Fashion Show, um concurso organizado pelo CENIT com o apoio do Compete e da Porto Fashion Week. «A coleção conta toda uma história», afirma Carla Pontes. «Anda sempre à volta do conceito de órbita, do envolver o corpo, mas começa com a ideia dos vulcões, com golas muito subidas e lava a cair. Depois há uma segunda fase em que vem a ideia das órbitas, onde tem mais força o fundo do lago. E termina muito na ideia da envolvência: são as próprias órbitas [tecidos] que andam à volta do corpo, que é o núcleo», explica. Aqui, uma única matéria – a malha – espelha uma pluralidade de formas, texturas e cores, que foram também beber inspiração na Terra. «Os tons de preto têm a ver com a parte dos vulcões e a lava queimada. Os bordeaux vêm da imagem do fundo de um lago, aquele tom de argila, e os caquis vêm dos socalcos das montanhas», acrescenta a designer de moda. Também incluída na plataforma Bloom, a marca Hibu, de Marta Gonçalves e Gonçalo Páscoa, reinventou uma moda sem género, uma ideia que a própria Carla Pontes explora também na sua coleção. Um ano depois de se ter estreado na passerelle do Portugal Fashion destinada aos jovens designers, a Hibu começa a definir o seu estilo, nesta coleção simplesmente denominada “Impression #1”. «Constatámos que as nossas coleções não tinham um fio condutor. Então, pegando nessa desordem toda de todas as coleções anteriores, identificámos essa desordem com a colagem de uma amiga nossa, designer gráfica, que é o estampado que se vê nos primeiros coordenados. Começamos agora a perceber que gostamos muito de coisas bastante gráficas, assim como da desconstrução e fluidez das peças», explica a designer da Hibu, cujo site entrou ontem “online” e as vendas a partir do mesmo deverão ser possíveis já no próximo mês. «Acho que a nossa marca já consegue ter um ADN muito específico, conseguimos ver que é muito minimal, muito desconstrutiva e, acima de tudo, muito desportiva e confortável e super-unissexo, por isso qualquer pessoa pode vestir e deixamos isso bem acentuado nesta coleção», acrescenta Gonçalo Páscoa. Do outro lado da moda, e do ambiente, no início da noite, a passerelle instalada no sumptuoso Palácio Foz foi invadida por criaturas diáfanas inventadas pelos Storytailors, inspiradas nos diabos dançantes da Venezuela e nos tradicionais caretos portugueses. «Esta história é sobre descoberta e sobre proteção, é sobre a coragem, sobre a aventura e, ao mesmo tempo, é um convite à inspiração, é um convite à interpretação», explica João Branco. Personagens da infância da dupla subiram à passerelle, transfiguradas pelo tempo e pelas memórias que ambos projetaram para o futuro, manipulando magistralmente materiais bem portugueses, como as lãs, a que juntaram matérias-primas mais tecnológicas, como o neoprene. «Em termos de cores foi mesmo o fogo, as labaredas, a fogueira, aquilo que nos aquece, em contraste com o preto, aquilo que rodeia a lareira», aponta Luís Sanchez. El Diablo, A Velha Menina, La Sayona Del e a Cabaça Dela foi o nome que a dupla – que nos últimos meses esteve em Nova Iorque e em Washington e em breve deverá ser responsável pelo design das roupas de uma performance promovida pelo Art Institute em Paris – deu à coleção que vestirá o outono-inverno 2015/2016, com casacos com capuzes, calças a dois tons, saias rodadas e os inevitáveis corpetes, que são uma das imagens de marca dos Storytailors. O Portugal Fashion chega hoje ao Porto, para três dias com passerelles divididas por vários locais emblemáticos da cidade. Luís Buchinho é o primeiro a mostrar a sua nova coleção, às 19h, no ginásio da Escola B/S Rodrigues de Freitas, a que se seguirá, já no Palácio dos CTT, o desfile das coleções de Daniela Barros, Hugo Costa, Mafalda Fonseca (Bloom), Katty Xiomara, Júlio Torcato, João Melo Costa (Bloom) e o regresso de Pedro Pedro.