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Fuga à realidade

Como estudo independente, a Semana de Alta-Costura de Paris – que decorreu de 25 a 29 de janeiro – é difícil de bater. O mundo exterior pode estar a sofrer com a austeridade económica, com medo dos ataques terroristas ou simplesmente com um frio capaz de gelar os ossos. Mas dentro da “bolha” oferecida aos fãs e compradores de alta-costura, a primavera despontou, com fantasias criadas ao mais pequeno detalhe que afastaram, para bem longe, qualquer preocupação com o mundo real. Mulheres com narizes perfeitos e carteiras semelhantes, embora exclusivas, circularam nos palácios e museus de Paris para verem os coordenados cosidos à mão que desfilaram na passerelle, cada um com um custo que muitas vezes ultrapassa o de um automóvel. Aqueles que chegaram com casacos de pelo de inverno tiveram de os pousar antes de entrarem nos espaços aquecidos, decorados como se fossem jardins tropicais, naves espaciais ou salas de desenho de elegância real. Mas tudo isso os manteve com uma aura de privilégio, por vezes reforçada por um ou dois guarda-costas. Sendo o evento de moda mais cobiçado do mundo, as celebridades que gostam de usar alta-costura nas suas aparições na passadeira vermelha não faltaram. Natalie Portman sentou-se na primeira fila do desfile da Dior com o marido, o bailarino Benjamin Millepied, Naomi Campbell esteve no desfile da Jean Paul Gaultier, Kristen Stewart compareceu no da Chanel, onde teve a companhia de Dylan Penn, filha de Sean Penn e Robin Wright. Goldie Hawn e a filha Kate Hudson mostraram o seu glamour na Versace e a estrela do burlesco Dita Von Teese marcou presença em vários eventos. A Ásia esteve também bem representada com a modelo e atriz chinesa Angelbaby e o rapper sul-coreano G-Dragon. Nas tendências, embora os designers ostentem com orgulho a sua originalidade e criatividade, alguns temas foram recorrentes. O principal foi natural, com flores a desabrocharem no cenário de muitos desfiles – no caso da Chanel literalmente, com flores mecânicas no meio da passerelle circular – e nos coordenados, estampados. Naomi Campbell desfilou mesmo como se fosse um bouquet para Jean Paul Gaultier, num desfile em estilo matrimonial. Outros visuais marcantes foram os cortes na cintura, a mostrar a barriga, como na Chanel, os fatos completos coloridos ao estilo de “Barbarella” dos anos 60 e as botas fluorescentes, na Dior, e os cortes bipolares de Gaultier, que misturaram dois estilos num só coordenado. Este é, contudo, um reino onde a imaginação é que manda. Elie Saab mostrou um paraíso negro e tropical, onde a nostalgia pela Beirute da sua infância – e pela sua mãe – esteve bem presente. Gustavo Lins, por seu lado, trouxe o Brasil a Paris e a Valentino prestou homenagem ao folclore da Rússia e das repúblicas do centro da Ásia. As estreias também não faltaram, a começar por Alexandre Vauthier, um designer de 43 anos que tem Rihanna e Beyonce entre as suas fãs e que fez o seu primeiro desfile de alta-costura desde que recebeu o direito a usar a designação, guardada religiosamente pelo governo francês e que atualmente pode ser utilizada apenas por 14 casas de moda. Para Jean Paul Gaultier, por seu lado, foi o primeiro desfile de alta-costura desde que anunciou o fim da sua linha de pronto-a-vestir depois de 38 anos para se concentrar apenas no mercado de luxo. Com o fim da Semana de Alta-Costura – pelo menos até aos desfiles da próxima estação, agendados para 5 a 10 de julho –, o entusiasmo pela moda desceu ligeiramente em Paris, com o mundo real a tomar a dianteira. Os consumidores normais, contudo, deverão ver algum do otimismo das criações de alta-costura a entrar nas prateleiras das suas lojas favoritas nos próximos meses – um fenómeno habitual que sustenta toda a indústria da moda.