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Futuro da Têxtil europeia passa por Portugal»

A ITV nacional enfrenta desafios decisivos no contexto da globalização, o que passa por uma atitude pró-activa. O Jornal Têxtil falou com Lars Skou Gotterup, administrador da empresa Win Win , grande conhecedor da realidade nacional. JORNAL TÊXTIL – Podemos começar por uma resenha histórica da Win Win… LARS SKOU GOTTERUP – A empresa iniciou actividade como agente comercial em 1957, e foi o meu pai que começou. Começou a vender para lojas, no inicio para a Escandinávia. Começámos por trabalhar com produção asiática, contando com países como a Tailândia, Coreia e Singapura. No início dos anos 70 começámos a deslocar a produção para a Europa e foi em Portugal que o negócio correu melhor. Em 89 decidiu-se estabelecer uma firma cá. JT – Qual é o segmento que mais interessa à Win Win? LSG –Nós procuramos trabalhar com a moda jovem, é um mercado interessante e muito dinâmico, o mercado com maior potencial de crescimento, onde se nota alguma mistura de escolhas dado que os jovens misturam as tendências. É um mercado rápido e, na minha opinião, Portugal é o país que está melhor preparado para este desafio. JT – Quais são os principais clientes da empresa? LSG – Os maiores clientes são a French Connection, Nicole Farhi, Zero e o Grey Stone, de uma carteira de vários clientes. Estamos a falar de cerca de 10 milhões de contos de vendas para o estrangeiro. JT – Como caracteriza as empresas nacionais com quem trabalha? LSG – Trabalhamos com 35 fábricas em Portugal, nenhuma delas a trabalhar a 100% para nós. Temos trabalhado com empresas de média e pequena dimensão, que têm vantagem na flexibilidade de resposta. São pequenas empresas familiares que fazem corte e confecção, talvez com 40 pessoas a trabalhar. O número de peças fabricadas anualmente pode variar, mas de momento fica entre os cinco e seis milhões. JT – Como é que vê Portugal enquanto fornecedor dos mercados internacionais, vale a pena investir no nosso país? LSG – Eu acho que sim. Nós acabámos de investir em Portugal e vamos investir mais. Os meus clientes gostam de trabalhar com as empresas de cá. Mas também encontramos aqui algumas dificuldades… JT – Quais são essas dificuldades LSG – O principal problema é a dificuldade de internacionalização, a falta de cooperação, a falta de conhecimento dos mercados e ainda alguma rapidez de resposta. Alguns agentes, como nós, realizam estudos de mercado e detém informações que as fábricas não têm, assim como estas terão informações que nós não temos, mas tem sido difícil a partilha desta informação. Há também o problema dos portugueses estarem sempre a «chorar», sempre a dizer que isto está mau. Falta-lhes o espirito positivo e pró-activo. Acho que Portugal tem grandes possibilidades e é agora que temos que agir. JT – Acha que Portugal pode competir com os países do Leste, principalmente na área da confecção? LSG – Acho que sim. É evidente que nos têxteis as encomendas andam atrás de empresas com salários mais baixos. Portugal vai perder postos de trabalho, mas não irá perder o negócio se a industria se orientar pelos mercados. De qualquer forma, Portugal tem um nível de salários baixo quando comparado com os outros países europeus, o que nos torna competitivos dentro da Europa. Mas nós estamos sempre a falar de crise e eu penso que não há crise. O que há são novas condições de mercado. Todos os países relacionados com o têxtil têm problemas. O desafio futuro, para todos, é encontrar novos conceitos onde se possa combinar a parte criativa com o marketing e vendas e com a parte industrial. JT – E as empresas portuguesas estarão preparadas para fazer essa ligação? LSG – Não estão preparadas, mas é esse o nosso desafio. JT – O que é que têm que fazer para se tornarem mais competitivas? LSG – Primeiro têm que mudar a mentalidade em relação à internacionalização e à cooperação. Se compararmos Portugal com outros países, por exemplo com a Dinamarca que é o país que eu conheço melhor, há muitas empresas, sobretudo empresas familiares, mas poucas têm um Conselho de Administração. Na Dinamarca mesmo as pequenas empresas têm este órgão onde participam vários consultores com experiência internacional. Uma fábrica deve tentar ter o máximo de fontes de informação para tomar decisões. JT – Mas essa mudança de mentalidade é relativamente difícil? LSG – É, mas eu sinto uma grande flexibilidade em Portugal. JT – Também faltam em Portugal mais técnicos, principalmente na área comercial… LSG – Sim, faltam bons técnicos. Temos que os contactar noutros países, basta comprar um bom técnico por empresa para mudar significativamente o perfil competitivo de Portugal. Mas não vale a pena investir em talento para depois limitar a sua contribuição, pois existem as limitações das regras de hierarquia nas empresas portuguesas. JT – Vai participar numa conferencia no dia 26 de Setembro onde vai poder passar algum testemunho da sua experiência internacional e contributo dos mercados para os empresários portugueses. Quer adiantar um pouco do que vai ser apresentado? LSG – A ideia dessa conferencia é fazer uma análise do sector, que vai desde o mercado até às fábricas em Portugal. Vão ser apresentadas muitas informações que dificilmente chegam a Portugal, há muitos clientes que não fazem a análise de mercado que nós fazemos nesta área. Convidámos Allan Brink, que viveu em muitos países e trabalhou em várias empresas. Tem uma vasta experiência profissional que pode transmitir e vai falar também de factores económicos relevantes em vários países com produção têxtil. Vamos contar com a presença de um dos nossos maiores clientes através de Kent Bisgaard, da French Connection, que vai falar da sua experiência e fazer a comparação de Portugal no sector, relativamente a outros países. Vamos também falar de conceitos internacionais de produção, onde contamos com o testemunho de Steen Jorgensen, um empresário da ITV dinamarquesa, e aí é que se vai centrar uma das minhas intervenções. A outra abordará o desenvolvimento dos mercados e as alterações dos gostos dos consumidores. Contamos ainda com a presença de duas empresas portuguesas para dar a visão portuguesa. A conferencia acaba com um debate.