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Futuro em África – Parte 1

Os países da África Oriental – em particular a Etiópia e o Quénia – têm o potencial de tornar-se importantes players na indústria de vestuário e começam a atrair as atenções dos compradores. Mas o caminho tem ainda muitos obstáculos para contornar.

Nos últimos dois anos, várias empresas europeias – entre as quais H&M, Primark e Tesco – começaram a aprovisionar parte do vestuário na Etiópia. O resto da indústria de vestuário percebeu e, desde 2013, tem havido um crescente interesse não só pela Etiópia mas também por outros países da África Oriental como potenciais destinos de sourcing de vestuário. A renovação do African Growth and Opportunity Act (AGOA), o acordo que dá a alguns países da África subsaariana acesso ao mercado dos EUA sem taxas alfandegárias, também contribuiu para essa atenção.

A consultora McKinsey & Company foi, por isso, avaliar o verdadeiro potencial da África Oriental se transformar num grande centro de produção de vestuário, fazendo visitas a fábricas na região, entrevistando atores do secto, incluindo produtores e compradores, e fazendo uma análise dos dados do mercado. A consultora fez ainda um inquérito aos responsáveis de compra, com foco em questões sobre a África Oriental. Neste terceiro inquérito, responderam 40 responsáveis de compras, que em conjunto representaram 70 mil milhões de dólares (63,6 mil milhões de euros) de volume de compras em 2014.

A McKinsey & Company concluiu que a África Oriental pode efetivamente tornar-se um centro mais importante para o sourcing de vestuário, mas apenas se os atores – compradores, governos e produtores – trabalharem em conjunto para melhorar as condições de negócio na região.

Quase três quartos dos inquiridos afirmaram, tal como aconteceu em 2011 e 2013, que nos próximos cinco anos esperam reduzir as compras na China. A produção de vestuário no Império do Meio caiu, efetivamente, desde 2010 – mas a China continua a ser a “rainha” indiscutível da produção de vestuário, com aproximadamente 177 mil milhões de dólares em exportações de vestuário em 2013.

Entre os responsáveis de compras, o Bangladesh continua a ocupar a primeira posição na lista de futuros destinos de sourcing, com 48% dos inquiridos a incluírem o país no seu top 3. E 62% afirmaram que pretendem aumentar o valor das compras no Bangladesh nos próximos cinco anos. Os dois países que ocupam as posições seguintes são o Vietname e a Índia, onde 59% e 54%, respetivamente, dos responsáveis de compras inquiridos planeiam aumentar a sua quota de sourcing nos próximos cinco anos. No entanto, as exportações de vestuário conjuntas do Bangladesh (24 mil milhões de dólares), Vietname (17 mil milhões de dólares) e Índia (17 mil milhões de dólares) ainda representam menos de um terço das da China.

«Pela primeira vez, os países africanos aprecem na lista de países que deverão ter um papel mais importante na produção de vestuário. A Etiópia, em especial, aparece na sétima posição», destaca a McKinsey & Company no relatório final.

A oportunidade da África Oriental

Segundo as projeções das Nações Unidas, a África Subsaariana terá o maior crescimento na população em idade ativa nos próximos 20 anos. Em 2035, a população em idade ativa na região deverá ser tão grande como a da China atualmente – mais de 900 milhões de pessoas. Esta quantidade massiva de mão de obra está a captar a atenção de várias indústrias, incluindo a do vestuário.

Na África Subsaariana, os países da África Oriental – especialmente a Etiópia e Quénia, e, numa menor expressão, o Uganda e a Tanzânia – têm ganho interesse para os compradores de vestuário. O governo tanto da Etiópia como do Quénia estão a dar passos para desenvolver a sua indústria têxtil e vestuário.

Cada um dos dois países tem forças e fraquezas. A pesquisa da McKinsey & Company revelou, por exemplo, que a Etiópia tem vantagens de custos enquanto o Quénia tem uma maior eficiência de produção. Os desafios comuns a ambos os países incluem fracas infraestruturas, processos alfandegários difíceis, falta de talento técnico e de gestão e baixos níveis de cumprimento de padrões sociais e ambientais.

Etiópia

Atualmente os compradores de vestuário estão a comprar grandes quantidades de produtos básicos à Etiópia: as t-shirts representaram 46% das exportações do país para a UE a 15 e as calças 31%. Quase 60% das exportações são enviadas para a Alemanha e 10% para os EUA. Mas a Etiópia representa apenas 0,01% do total das exportações de vestuário, de acordo com a Organização Mundial de Comércio.

Segundo o inquérito da McKinsey, o interesse dos compradores de vestuário pela Etiópia tem sobretudo um motivo: os custos. O salário da Etiópia para os trabalhadores da indústria de vestuário é dos mais baixos em todo o mundo, inferior aos 60 dólares por mês, e o custo dos vistos para trabalhadores estrangeiros é cerca de um décimo do vizinho Quénia. Além disso, os preços da eletricidade são baixos, graças à capacidade de produção de energia hidroelétrica e embora a rede elétrica não seja a mais fiável, o governo do país está a construir uma rede independente para novas zonas industriais atualmente em desenvolvimento.

A McKinsey destaca ainda que «a Etiópia pode, um dia, tornar-se uma fonte de matérias-primas: tem mais de 3,2 hectares de terra com um clima adequado para o cultivo de algodão». No entanto, acrescenta, atualmente menos de 7% dessa área está a ser usada.

As questões sociais são igualmente uma questão a considerar. O cultivo de algodão orgânico sofreu, recentemente, um duro golpe depois de produtores de vestuário que fornecem empresas europeias terem sido apanhados em acusações de ocupação indevida de terras em Omo Valley. Outro problema é a eficiência na produção, que atualmente se situa entre 40% e 50%, e longos prazos de entrega de encomendas. Cerca de 80% dos inquiridos apontaram a ineficiência na produção como um desafio para o aumento do sourcing de vestuário na Etiópia.

O Quénia é outro dos países africanos na mira das empresas europeias para o sourcing de vestuário, cujas vantagens e desvantagens serão analisadas na segunda parte deste artigo.