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Futuro em África – Parte 2

Apesar das dificuldades que ainda assombram a indústria de vestuário na África Oriental, países como o Quénia estão a criar condições para se tornarem num centro de produção por excelência para as marcas europeias e americanas, com perspetivas de evolução promissoras.

O estudo da consultora McKinsey & Company para avaliar o potencial da África Oriental no sourcing de vestuário concluiu que existem oportunidades de crescimento desta indústria na região, uma ilação comprovada também pelo inquérito realizado junto de 40 responsáveis de compras.

Tal como a Etiópia (ver Futuro em África – Parte 1), a indústria de vestuário do Quénia está atualmente especializada no fornecimento de básicos em massa, como calças, que representam 58% das suas exportações para os EUA. A típica encomenda mínima é de 10 mil peças – os principais players do país têm encomendas mínimas de 25 mil a 50 mil peças.

O Quénia tem beneficiado fortemente do AGOA – African Growth and Opportunity Act (o acordo de acesso ao mercado americano sem taxas) – 92% das suas exportações de vestuário em 2013 tiveram como destino os EUA, segundo o UN Comtrade. Os fornecedores entrevistados pela consultora McKinsey & Company revelaram que o Acordo de Parceria Económica com a UE não é um grande incentivo: as vantagens são inferiores às do AGOA e a concorrência com os países asiáticos low-cost é demasiado dura, já que também estes últimos beneficiam de acordos com a UE. «Alguns produtores quenianos afirmaram que não estão desejosos de expandir o seu negócio para a Europa porque entendem que os compradores europeus são mais exigentes no que diz respeito a prazos de entrega, tamanhos das encomendas e qualidade», destaca a McKinsey & Company.

A capacidade das confeções do Quénia tem crescido constantemente nos últimos anos, graças a investimentos diretos estrangeiros da Ásia e do Médio Oriente, assim como ao apoio das Zonas de Processamento de Exportações desenvolvidas pelo governo queniano. As fábricas tornaram-se maiores e mais eficientes: em média têm agora 1.500 empregados em comparação com 560 no ano 2000.

Contudo, como resultado da falta de uma indústria a montante, os produtores têm de importar os tecidos, o que significa prazos de entrega consideravelmente mais longos. Os tecidos podem demorar 40 dias a chegar e passar pela alfândega. Tanto os produtores como os compradores mencionaram que outro dos desafios de fazer negócios no Quénia é o custo relativamente elevado da mão de obra, uma vez que os salários mensais variam entre 120 e 150 dólares (109 e 136 euros). Os custos energéticos são igualmente elevados e como o fornecimento não é fiável, as empresas têm muitas vezes de usar geradores. Em África, a energia dos geradores é quatro vezes mais cara do que a da rede elétrica.

Tal como a Etiópia, o Quénia terá também de resolver questões relacionadas com o cumprimento de padrões sociais e ambientais para atrair mais compradores internacionais. De acordo com os responsáveis de compras inquiridos, a corrupção, elevadas taxas de crime e níveis reduzidos de padrões sociais estão entre os principais problemas enfrentados no Quénia.

Cenários futuros

Face aos dados recolhidos, a McKinsey & Company desenvolveu três possíveis cenários de evolução para a África Oriental – em particular para a Etiópia, Quénia, Tanzânia e Uganda – para a próxima década. Em 2013, as exportações de vestuário dos quatro países atingiram 337 milhões de dólares.

No primeiro cenário, a África Oriental irá manter-se como um mercado de nicho. «Este cenário assume que os acordos de comércio livre com os EUA e a UE se mantêm. Em parte como resultado da volatilidade nos câmbios e nos mercados bolsistas, as perspetivas para a região vão manter-se modestas», refere o estudo.

No segundo cenário, a África Oriental torna-se numa nova opção de sourcing para vários grandes players nas categorias de básicos e as exportações de vestuário da região mais do que duplicam. Neste cenário, as empresas de vestuário vão além da confeção e avançam para a integração vertical. «Mas este processo pode demorar vários anos», sublinha a McKinsey & Company.

O terceiro cenário assume que as principais empresas de vestuário do mundo começam a abrir escritórios para sourcing na África Oriental. A região atrairá assim investimento suficiente para modernizar as instalações e recrutar mão de obra qualificada e os volumes de exportação irão aproximar-se do de países como o México e o Paquistão. No entanto, «mesmo neste cenário, pode levar anos para que apareçam players internos verticalmente integrados na região – e isso pode ser atingido apenas se os países cooperarem para criarem cadeias de valor regionais», aponta a consultora.

A McKinsey & Company sublinha que a cooperação entre todos os stakeholders é essencial para que haja um crescimento sustentável da indústria de confeção da região. Uma cooperação que inclui, por exemplo, o investimento em infraestruturas por parte do governo, acordos de comércio livre diversificados e a criação de instituições de ensino direcionadas para o mercado. Da parte dos fornecedores, a consultora destaca a necessidade de formar gestores, modernizar instalações e criar parcerias a longo prazo com os compradores, enquanto estes últimos devem apoiar os esforços para criar capacidade produtiva na região. «Todas as partes têm de concentrar todos os esforços para assegurar o cumprimento de padrões sociais e ambientais», conclui a McKinsey & Company.