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Galliano é aposta ganha

Renzo Rosso, fundador da marca Diesel, fez uma jogada arriscada quando contratou o enfant terrible da moda, John Galliano, colocando-o à frente dos desígnios criativos da Maison Margiela. Mas a recompensa está à vista!

Rosso, que resgatou o designer britânico do limbo da moda, transportando-o para a direção criativa da Maison Margiela em 2014, mostra-se contente por a ousadia estar a dar frutos. As receitas da casa francesa, que pertence ao grupo OTB presidido por Renzo Rosso, cresceram 30%, face ao intervalo de 10% a 15% habitualmente registado nos últimos anos, quando a Margiela era dirigida por uma equipa anónima.

«É uma empresa diferente agora. É possível sentir a energia, é inacreditável», afirmou Rosso ao portal WWD, numa entrevista exclusiva, conduzida no showroom da Margiela. «Era efetivamente necessário contratar alguém para o próximo passo, porque o Martin [Margiela] tinha mudado as regras da indústria da moda».

Além do mais, a experiência de alta-costura de Galliano na Dior está a transformar a Maison Margiela, na qual a sua coleção de alta-costura é agora um elemento que define a imagem da casa, com as suas inovações e ideias presentes em cada peça de pronto-a-vestir e acessórios. «Isso, para mim, é totalmente novo, porque antes desenvolvíamos a coleção e procurávamos melhorá-la e fazer algo interessante para o desfile. Aqui é totalmente o oposto», explicou Rosso. «Agora, com ele, o desfile de moda vem em primeiro lugar. Tudo o resto vem depois da alta-costura. Por isso, graças ao John, comecei a pensar e a trabalhar de forma diferente».

Rosso revelou que Galliano incluirá, gradualmente, o seu cunho em mais categorias de produto, incluindo no segmento de vestuário masculino, a partir de meados de 2016, acrescentando ainda que o designer começou já a trabalhar num novo perfume feminino para a Margiela, a ser lançado em 2017 pela parceira da empresa na área da beleza, a L’Oréal.

Mostrando-se descontraído e sorridente, Rosso recordou as conversações que antecederam a entrada de John Galliano na Maison Margiela, em outubro de 2014. O “namoro” entre Rosso e Galliano incluiu uma visita noturna à sede parisiense da casa de moda, anteriormente um convento do século XVIII, e ao seu arquivo de moda.

«Tivemos de arrastá-lo para fora porque não queria sair», afirmou o industrial italiano. «Era uma hora da manhã e ele ficou muito apaixonado pela casa a partir daquele dia. E disse-me: “Renzo, não me imagino a desenhar roupa para outra casa que não a Margiela”. Ele ficou tão inspirado e apaixonado pelo espírito, a filosofia e pelo que esse homem [Martin Margiela] tinha alcançado anteriormente».

À medida que as negociações contratuais se aproximavam da sua conclusão, surgiu a reunião entre os dois criadores de moda, durante a qual Margiela, o iconoclasta belga, deu a sua bênção pela escolha de Galliano, confessando a Rosso que «estou muito feliz por ter escolhido um “costureiro” para dirigir a casa».

Margiela também deu um conselho libertador a Galliano: «faça-a sua», contou Rosso.

Na realidade, Galliano também não recebeu qualquer diretiva criativa da parte de Rosso para além de interpretar o legado e etos da marca da forma que melhor lhe parecesse. «Para mim, a criatividade deve ser livre. Esta é a chave para o sucesso», acredita Rosso. «Porque se dissermos: “Deve fazer isso, isso e isso”, nunca teremos sucesso. Com criatividade, podemos construir uma empresa. Sem criatividade, não é possível construir uma empresa».

Rosso revelou ainda que deu a Galliano liberdade para se expor ao público, tanto quanto pretendesse, ou continuar o legado de invisibilidade que o próprio Margiela forjou. Muitas vezes chamado de Greta Garbo da moda, Martin Margiela nunca deu entrevistas, nunca apareceu na passerelle ou permitiu ser fotografado.

Este legado é uma bênção para Galliano, que apontou as tensões e pressões de ser um famoso designer de moda como responsáveis pelo seu abuso de substâncias e pelo desastroso comportamento em público em 2011, que conduziu ao seu afastamento da casa Dior.

Definindo Galliano como um dos talentos mais importantes da indústria da moda atual, Rosso elogiou a sua atenção ao detalhe, busca pela qualidade, apetência para a experimentação e a narrativa que confere a todas as peças que desenha. Rosso destacou também a visão do designer aquando da conceção de um vestido, que se estende à modelo que irá usa-lo, à sua atitude e pose, e até mesmo à música que pode acompanhar o desfile.

«É inacreditável, porque normalmente as outras coleções que vemos são apenas um monte de roupas. Mas aqui, cada peça tem uma história subjacente. Creio que isso é único», afirmou Rosso. «Não conheço ninguém como o John, que gasta horas e horas com o tecido, com o cair ou com cada pequeno detalhe».

Rosso considera que ele e Galliano são almas gémeas. «Complementamo-nos muito bem um ao outro», referiu. «Somos ambos muito corajosos, somos muito revolucionários. Além disso, sou muito determinado e o John também».

O grupo OTB adquiriu a sua participação maioritária na Margiela em 2002, na altura encarado como um “casamento” estranho. E enquanto o “barulho” à volta da casa Margiela esmoreceu desde que o fundador saiu em 2009, depois de celebrar o 20º aniversário da marca, a empresa continuou a crescer.

«A empresa já estava a crescer antes da entrada de John, mas com ele a bordo, a meta será maior. O potencial é muito mais significativo», afirmou o CEO da Maison Margiela, Giovanni Pungetti. O CEO revelou que apenas um retalhista cessou relações com a marca devido ao comportamento errático de Galliano. A empresa está presente em mais de 350 pontos de venda em todo o mundo.

As primeiras peças de pronto-a-vestir confecionadas por Galliano chegaram às lojas em setembro e «começam a desaparecer das lojas e esse é, efetivamente, o melhor resultado que poderíamos desejar», referiu Pungetti. O executivo identificou «grande potencial» no segmento de pronto-a-vestir feminino, assim como na categoria de acessórios, que representa menos de 30% das vendas, sendo que a maior percentagem cabe ao segmento de calçado. «Não pretendemos, certamente, tornar-nos numa marca de bolsas», assegurou. «Mas com esta categoria a representar pouco menos de 10%, estamos a perder diversas oportunidades». A atual diferença entre os segmentos feminino e masculino apresenta um rácio de 60/40, adiantou.

A empresa pretende também expandir a sua presença no retalho, onde possui apenas 35 lojas independentes. A marca está ausente ou subexposta em alguns mercados, particularmente na China e no Médio Oriente, indicou Pungetti, destacando Xangai entre as suas principais prioridades. Os EUA, Itália e Japão são os mercados mais importantes da Maison Margiela. No ano passado inaugurou um terceiro espaço em Milão, uma flagship em Roma e uma boutique em São Francisco.

Pungetti revelou ainda a intenção de inaugurar novos espaços em Londres, Paris e Nova Iorque. Simultaneamente, procura um local de maior dimensão em Hong Kong, em linha com a estratégia de abrir espaços maiores e mais visíveis, ao contrário do passado.

Em 2014, a empresa gerou resultados consolidados de cerca de 100 milhões de euros e aproxima-se, agora, de uma fase de investimento que poderá afetar a sua rentabilidade, referiu Pungetti, que destacou as despesas de capital aplicadas aos processos e pessoal, particularmente nos ateliers de costura e pronto-a-vestir, assim como no departamento de acessórios.

Galliano recusou-se a contribuir para este artigo, citando a política de recato do fundador. Rosso reforçou o conceito de liberdade de Galliano, que se estende à forma como este deseja interagir com a imprensa e com o público. Este preceito é de tal forma respeitado que, na apresentação da Margiela em Paris, Rosso não estava certo de que Galliano aparecesse para uma vénia final. «Estava à espera que ele saísse – todos gritavam “John, John, John” – e, no final, fiquei muito feliz por ele não o ter feito. Agora compreendo que esta era uma filosofia e estratégia incrível, porque isto criou mais atenção para o produto do que possam imaginar. Isto é algo muito inteligente sobre o John. O John só queria que o produto falasse», explicou Rosso. «A moda está agora repleta de pessoas que criam redes sociais, coisas loucas, só para fazerem as pessoas falar. Eu não quero ser parte desse sistema. Eu só quero a beleza e o sonho. Isto é o que eu quero que ele promova: beleza e sonhos», concluiu.