Início Notícias Retalho

Gama média enfrenta extinção

Retalhistas como o grupo Arcadia, Jack Wills e Ted Baker, assim como os grandes armazéns John Lewis são alguns dos nomes que estão em perigo, numa altura em que, segundo os especialistas, as marcas de moda de gama média serão as mais penalizadas pela crise de coronavírus no Reino Unido.

Asos

A Cath Kidston tornou-se a mais recente vítima do novo coronavírus, anunciando ter sido forçada a fechar as suas 60 lojas depois de entrar em administração, o que resultou na perda de 900 postos de trabalho. As operações online, grossistas e franquias foram adquiridas pela sua acionista Baring Private Equity Asia, num negócio pré-estabelecido. A retalhista de lifestyle explicou que, «tendo em conta o cenário do Covid-19», foi «incapaz de assegurar uma venda solvente do negócio».

A retalhista segue os passos de outras cadeias como a Laura Ashley e a Debenhams, que entraram em administração no início de abril, e a Fat Face a TM Lewin, que estão a procurar investimento na forma de ofertas de «partes interessadas».

Os que têm exposição a grandes armazéns encontram-se especialmente em risco, confirma uma executiva de retalho à Drapers – incluindo marcas com concessões, como a Oasis e o Warehouse Group, que entraram em administração também no início de abril, e o Arcadia Group, que detém a Topshop. «É uma questão de apetite para investimento», justifica. «Se possui uma marca que teve uma trajetória estável, não consigo imaginar por que motivo os acionistas/investidores não estariam otimistas em relação ao futuro. Contudo, se a trajetória tem sido negativa, então os apoiantes podem usar isto como o catalisador para pedir tempo», acrescenta.

Ted Baker

Um outro executivo do retalho concorda que as outras marcas do Arcadia Group – que não a Topshop – provavelmente irão «desaparecer da cena do retalho» e prevê «apenas problemas para a Jack Wills e a Ted Baker», afirmando que «não há dúvida que vão fechar muitas lojas, tal como vai acontecer com muitas outras marcas, mas não têm a força criativa necessária por detrás da marca para sobreviver e prosperar».

A Ted Baker indicou que está a tomar medidas rapidamente para proteger a liquidez e que o seu canal de comércio eletrónico se mostrou resiliente.

Já a Jack Wills tinha referido anteriormente que iria continuar a trabalhar com os senhorios para salvar lojas e empregos, mas mais encerramentos foram «inevitáveis» após o seu proprietário, o Frasers Group, ter fechado 17 lojas em março.

A Arcadia está alegadamente a procurar um empréstimo de 50 milhões de libras (cerca de 57,4 milhões de euros) para apoiar o negócio durante a crise do coronavírus, mas recusou comentar esta informação, segundo a Drapers.

A importância do online

O analista de retalho Richard Hyman destaca que a gama média «vai enfrentar um soco desproporcional da contração do mercado [pós-Covid]» e nomeou a New Look, a Office, a Monsoon e a Arcadia como empresas em risco.

O também analista Nick Bubb partilha a mesma opinião. «Os players de moda de gama média estão praticamente extintos, com o confinamento na pandemia a acelerar o fim de [marcas como] a Arcadia e a Debenhams», garante.

Hyman admite que muitos não estão suficientemente capitalizados. «Muito poucos negócios mantêm liquidez desta forma. No mundo empresarial, ser conservador e cuidadoso tem sido penalizado e, de forma perversa, ser imprudente e procurar o crescimento praticamente a qualquer preço tem sido recompensado. O resultado é um elevado grau de vulnerabilidade [a esta crise]», reconhece.

Uma pesquisa da Retail Economics e da empresa de serviços profissionais Alvarez & Marsal concluiu que 50% dos retalhistas da área não-alimentar ficarão sem dinheiro em seis meses.

Debenhams

Richard Lim, diretor-executivo da Retail Economics, revela à Drapers que «serão aqueles que têm logística realmente sofisticada e que investiram na eficiência da sua distribuição e logística que terão uma enorme vantagem competitiva [para gerar tanto dinheiro quanto possível]».

«É um grande alerta para aqueles retalhistas que não estão online», considera o presidente de um grupo de retalho, sublinhando a dominância da Amazon durante a crise. «Todos os que não têm um negócio online têm um problema grave. Negócios antigos como a Debenhams e House of Frasers vão acabar no cemitério do retalho», vaticina.

Analistas da corretora Peel Hunt preveem que a Asos, a JD Sports e a Dunelm serão «claramente vencedoras» do retalho assim que a pandemia terminar. O último tem «espaço substancial» após uma angariação de financiamento e extensão de crédito e irá beneficiar de marcas parceiras de terceiros que procuram escoar stock sazonal, afiança a Peel Hunt.

A «pegada verdadeiramente mundial» da JD Sports e as fortes relações com as marcas vão significar que pode continuar competitiva à medida que os retalhistas começam a emergir do confinamento.

Os analistas também acreditam que as empresas cotadas em bolsa terão «uma vantagem material» em comparação com os negócios privados com fortes balanços financeiros e que os negócios financiados por private equity irão beneficiar do financiamento a curto prazo dos acionistas.

A retalhista de lifestyle cotada em bolsa Joules confirmou ter sido capaz de assegurar um aumento de 15 milhões de libras para o seu financiamento em sistema de conta corrente com o Barclays.

Experiência é fundamental

Fontes da indústria com as quais a Drapers falou sugerem que os grandes armazéns de luxo Selfridges, Harrods e Liberty irão recuperar graças às suas posições fortes em termos financeiros e de mercado, mas que a John Lewis irá precisar de acelerar o seu plano de recuperação e «vai apenas sobreviver com muito menos lojas». A Next e a Reiss foram também apontadas como prováveis sobreviventes.

A John Lewis divulgou recentemente que as vendas caíram 17% em termos anuais de meados de março até 15 de abril, apesar do aumento de 84% das vendas online.

John Lewis

Especialistas apontam que as retalhistas que estão posicionadas para combater esta tempestade terão equipas de gestão experientes a lidar com períodos de crise. «Estas [decisões relacionadas com o coronavírus] são enormes. São gestores existenciais e tecnocratas que estão habituados a estados estáveis e não acostumados a tomar grandes decisões empresariais de elevado risco. O retalho de moda é normalmente um negócio muito repetitivo e as decisões que se tomam são decisões muito adaptativas», assevera Richard Hyman.

Uma executiva destaca que «uma equipa que trabalhou durante um período realmente difícil como a recessão de 2008 será crítica. Os que aproveitaram a oportunidade de colocar o pessoal em lay-off e têm conversas agressivas mas cautelosas com senhorios e fornecedores, porque viram coisas como esta antes, serão os que estarão numa melhor posição no futuro. Qualquer pessoa que não tomou ações imediatas irá provavelmente sentar-se hoje a desejar ter gerido numa crise, é completamente diferente de gerir num ambiente de crescimento. É preciso tomar algumas decisões desagradáveis».