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Garantia Chanel

Face ao contexto de instabilidade económica vivido em território grego, que tem suscitado desconfiança entre a população local face ao destino dos seus depósitos bancários, as marcas de luxo tornam-se mais valiosas que o dinheiro.

Os bancos da nação mediterrânea estão encerrados há mais de uma semana. Muitos gregos temem que pelo menos alguns dos seus depósitos possam desaparecer, mesmo sob o melhor resultado das negociações renovadas entre os líderes do país e os seus credores sobre um pacote de resgate. Mesmo aqueles que acumularam dinheiro fora dos bancos receiam uma desvalorização acentuada do euro ou o retorno à dracma. Dessa forma, Sophia Marcoulakis, de 48 anos, pondera a conversão do seu dinheiro em algo mais estável: uma bolsa de marca. É um luxo ao qual nunca se teria permitido antes do encerramento dos bancos. Atualmente, considera-o um investimento, uma possessão tangível, que não lhe poderá se retirada.

«Temos a sensação de que o dinheiro perdeu valor», afirmou, ao Washington Post, Marcoulakis, advogada corporativa. «É apenas um número». Tal é o nível de desconfiança entre os gregos face ao seu sistema bancário, uma crise de confiança que enfraquece ainda mais as instituições financeiras já em suporte de vida. Isto demonstra o desafio que o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, terá de enfrentar, procurando restaurar a credibilidade, não só entre os céticos credores europeus, mas também entre um público profundamente dividido, afetado por anos de austeridade. Os residentes começaram a levantar o seu dinheiro depositado em bancos gregos em janeiro, depois do partido político de esquerda Syriza ter vencido as eleições parlamentares, assumindo o cargo com promessas de se manter firme face aos cortes agressivos de gastos exigidos pelos credores da Grécia em troca de ajuda. O confronto entre Atenas e o resto da Europa intensificou-se no final do mês passado, e os bancos promulgaram limites rígidos nos levantamentos e transferências para o exterior.

As operações de débito eletrónico ainda são permitidas, mas algumas lojas já não as aceitam. As compras com cartão de crédito na Amazon e iTunes estão proibidas. Os gregos podem levantar apenas 60 euros por dia. Os residentes temem que seja apenas uma questão de tempo – talvez apenas de alguns dias – até que a Grécia siga o mesmo rumo do Chipre em 2013. A ilha endividada forçou os residentes e empresas a abdicar de 47,5% dos depósitos superiores a 100.000 euros depositados em bancos locais, em troca de financiamento europeu. Para evitar uma corrida ao sistema financeiro, os cipriotas foram autorizados a despender apenas 300 euros por dia e até 5.000 euros em cartão de crédito por mês. A questão que se coloca para muitos gregos, nos dias de hoje, prende-se com a alternativa de gastar o dinheiro agora ou vê-lo desaparecer mais tarde. Para Chris Dako, a resposta é simples: compre agora. Desde o encerramento dos bancos, o empregado de mesa de 25 anos tem sido pago em dinheiro diariamente. E planeia, agora, converter esse dinheiro num novo par de sapatos. «Que sapatos?», perguntou ele com um sorriso. «Os melhores». Mais especificamente, um par de sapatilhas, que lhe irá custar 185 euros. Entretanto, pretende gastar até 500 euros, contrariando a política que lhe mantém o dinheiro preso dentro da sua conta bancária. «Se querem levar algum do meu dinheiro, deixem-me gastá-lo primeiro», sustenta Dako.

Muitos gregos têm pouco dinheiro – no banco ou em qualquer outro lugar. As estimativas sugerem que a taxa de pobreza englobará 44% da população. Os media gregos informam que entre 40.000 e 50.000 trabalhadores foram demitidos ou suspensos após o encerramento bancário. Muitos mostram-se incapazes de pagar as suas contas e estão a usar o escasso dinheiro que possuem para satisfazer necessidades básicas, como a alimentação. Os gregos afluentes, paralelamente, estão a armazenar o seu dinheiro em paraísos mais tradicionais. Kostas Theodoropoulos, ex-diretor de investimento da Eurobank Asset Management, estima que 40% dos levantamentos foram simplesmente transferidos para contas bancárias estrangeiras. Outros 10% ou mais foram investidos em fundos de investimento domiciliados no Luxemburgo, aponta Theodoropoulos, e os 50% restantes forram agora os colchões de muitos gregos.

Diversos gregos revelaram estar a usar esse dinheiro para saldar dívidas ou outras contas em antecipação, de modo a evitarem uma futura crise de liquidez. E, apesar de guardar dinheiro em casa ser algo comum na Grécia, muitos referem que esta tendência se intensificou recentemente. As vendas de automóveis na Grécia, incluindo as vendas de veículos de luxo, aumentaram na primavera deste ano, mesmo quando a nação marchava rumo ao calote dos seus empréstimos. Embora os dados oficiais atribuam o aumento do volume de negócios ao aluguer de frotas de automóveis, alguns comentadores sugeriram que os gregos preferem comprar carros a guardar o dinheiro nos bancos. Tendências semelhantes foram reportadas no Chipre, nos meses anteriores à instituição das restrições bancárias, e na Rússia, quando o valor do rublo caiu drasticamente em dezembro. Antes do congelamento financeiro na Grécia, os clientes formavam fila às portas do Nikias, um espaço de compra e venda de ouro no bairro afluente de Kolonaki, em Atenas, procurando vender as suas joias e relógios Rolex.

No entanto, o proprietário da loja adiantou que durante a semana anterior teve 20 a 30 contactos de pessoas interessadas no intercâmbio oposto. O proprietário explicou que os interessados pretendiam comprar moedas e barras de ouro – os itens mais caros em exposição. Porém, já não aceita transferências bancárias eletrónicas, estando já preocupado com a perda potencial dos seus depósitos. «Assim, seríamos nós a ter o problema». Vê-se, assim, de mãos atadas: aceita apenas dinheiro, mas nenhum dos seus potenciais clientes pode aceder à quantidade necessária para comprar os seus bens. «Estão todos em suspenso», diz.