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Genética desmascara escravatura

Os consumidores atraídos por uma t-shirt barata, mas ainda assim preocupados com a produção ética do item, podem em breve saber se a peça está livre de trabalho escravo – tudo graças à investigação forense.

James Hayward, CEO do laboratório de biotecnologia norte-americano Applied DNA Sciences, que está a desenvolver uma tecnologia baseada no ADN para prevenir a falsificação e garantir a autenticidade das fibras de algodão, revelou, em declarações à agência noticiosa Reuters, que a sua equipa de investigadores esteve a estudar esta indústria nos últimos nove anos.

O CEO explicou que a motivação para a investigação foram as preocupações crescentes sobre a indústria global do algodão, que garante sustento a mais de 250 milhões de pessoas, recorrendo, muitas vezes, ao trabalho infantil e escravo durante a colheita e ao longo do processo de produção de vestuário. Hayward afirmou também que o algodão apresenta uma das cadeias de aprovisionamento mais complexas da indústria, porque a matéria-prima é cultivada em mais de 100 países e passa por um processo de transformação de muitas fases antes de chegar à moda rápida, barata e descartável. «O nosso principal objetivo é “limpar” a cadeia de aprovisionamento do algodão e, com isso, quero dizer eliminar qualquer desvio, qualquer etiquetagem incorreta, qualquer falsificação que possa ocorrer na cadeia», explicou.

A tecnologia desenvolvida pela Applied DNA Sciences recorre a marcadores genéticos minúsculos que são incorporados no algodão antes deste ser embalado e enviado para as fiações. Os marcadores ligam-se às fibras da matéria-prima e agem como um código de barras microscópico que pode ser rastreado durante todo o processo de produção. Em cada paragem, as amostras são recolhidas e enviadas para o laboratório da Applied DNA Sciences, sendo submetidas a testes que procuram garantir que os marcadores ainda estão lá.

Hayward apontou que outra das questões-chave da investigação é alertar para o trabalho escravo envolvido na cadeia de aprovisionamento do algodão. A escravidão moderna tornou-se um termo abrangente para descrever o tráfico de seres humanos, o trabalho forçado, a servidão por dívidas, o tráfico sexual, o casamento forçado e outras formas de exploração. Estima-se que 46 milhões de pessoas vivam como escravos, segundo o Global Slavery Index de 2016, promovido pela fundação Walk Free, que mostrou que o Uzbequistão – o quinto maior exportador de algodão do mundo –, o Turquemenistão e o Tajiquistão forçavam as pessoas a trabalhar na colheita anual de algodão.

Mais de 264 marcas assinaram já uma promessa global criada pela Rede de Sustentabilidade Responsável (RSN), administrada pela organização de solidariedade As You Sow, sediada na Califórnia, nos EUA, comprometendo-se a não usar algodão uzbeque até que o governo deixe de recorrer ao trabalho infantil e adulto forçado. «Penso que muitos consumidores ficariam horrorizados ao ter a noção de que as roupas que usam podem ser produto do tráfico humano», admitiu Hayward.

Até agora, a equipa de investigadores conseguiu reunir informações que podem vir a proporcionar a rastreabilidade dos produtos acabados desde a cultura, embora o nível de análise não tinha ido longe o suficiente para ser verdadeiramente forense. «Esperamos que para o ano ou nos próximos dois anos seja forense e possamos distinguir as culturas globais de algodão com base na sua origem», adiantou o CEO da Applied DNA Sciences, que sublinhou ainda que desvendar a complexa cadeia de aprovisionamento do algodão pode servir como exemplo para outras indústrias.