Início Notícias Moda

Gigantes de luxo apostam no “couro de cogumelo”

Chama-se Mylo e é uma descoberta da Bolt Threads para substituir o couro de origem animal. Com a promessa de ter a mesma aparência e toque, mas bem mais ético e ecológico, são já várias as macas de moda que querem apostar neste desenvolvimento para o mercado em 2021.

[©Hypebeast]

O biomaterial concebido a partir do micélio, parte da estrutura dos fungos, neste caso específico, do cogumelo, está a ser desenvolvido pela empresa norte-americana Bolt Threads e pode tornar-se tão presente no mercado como o couro animal ou sintético. Pelo menos e de acordo com as informações do Sourcing Journal, este é precisamente o objetivo da Bolt Threads através de uma parceria «única e criativa» com as casas de luxo do grupo Kering e marcas como a Adidas, a Lululemon e também Stella McCartney, que pretendem implementar a inovação no mercado durante o próximo ano.

«Estamos entusiasmados por trabalhar com parceiros que reconhecem que estamos numa corrida para criar soluções sustentáveis ​​para tecnologias convencionais», afirma Dan Widmaier, CEO da Bolt Threads. «Eles estão a unir forças e a investir numa solução que pode expandir: o Mylo. O consórcio reúne quatro empresas icónicas e com visão do futuro – Adidas, Kering, Lululemon e Stella McCartney – que, coletivamente, representam centenas de milhões de metros quadrados de potencial procura pelo Mylo. Mais importante ainda, este é um compromisso contínuo para desenvolver materiais e artigos para um futuro mais sustentável», explica.

Stella McCartney, que habitualmente evita o uso de couro, pelos e peles nas suas coleções, foi uma das primeiras designers a adotar o Mylo ao revistar a Falabella, bolsa icónica da marca, com couro sintético, para uma exposição em 2018 no Victoria & Albert Museum em Londres. «Muitas pessoas associam couro com luxo, mas desde o início que sempre quis abordar as coisas de uma maneira distinta, porque matar animais por uma questão de moda simplesmente não é aceitável», justifica Stella McCartney. «Trabalhar de forma tão próxima com a Bolt Threads desde 2017 tem sido uma experiência de mudança de carreira e mal posso esperar por lançar os produtos Mylo no mercado em 2021», acrescenta.

Reduzir efeitos nocivos

De igual modo, a descoberta de origem vegetal também é apelativa para o grupo Kering, que detém gigantes de luxo como Alexander McQueen, Balenciaga e Saint Laurent. Encontrar materiais e tecidos alternativos, que possam «reduzir drasticamente o impacto ambiental da indústria a longo prazo», é uma das principais prioridades segundo François-Henri Pinault, presidente e CEO do Kering e também responsável do G7 Fashion Pact, que visa mitigar a pegada ambiental do mundo da moda. «Sempre estive convencido de que a inovação é a chave para enfrentar os desafios de sustentabilidade que o luxo enfrenta», admite.

[©Dezeen]
Para a Bolt Threads, o que mais chamou a atenção das empresas incluídas no consorcio foi o facto de o Mylo ter uma semelhança «notória» com o couro animal, que é «macio e flexível» e que, contudo, está muito relacionado com práticas poluentes, especialmente na fase de curtição do couro, que pode colocar a saúde e também a segurança dos trabalhadores e das comunidades locais em risco.

Apesar do couro ser um tema controverso, dado que os defensores do couro bovino afirmam que este material é um subproduto da indústria e que, de outra forma, acabaria inutilizado, a verdade é que também está relacionado com problemáticas como as emissões de metano, o aquecimento global e a desflorestação da Amazónia.

Pelo contrário, o Mylo precisa de menos de duas semanas para crescer em comparação com todos os anos que o gado necessita e, além disso, emite muito menos gases de estufa e necessita de menos água e de recursos do que o couro animal, revela a Bolt Threads.

Controlo rígido e moldável

A empresa norte-americana cultiva o biomaterial através de um processo de crescimento «altamente eficiente». É esta técnica que faz que o micélio se estenda de forma ascendente, formando uma estrutura organizada de células que, posteriormente, são processadas pela Bolt Threads com corantes químicos e agentes de curtimento sem crómio. No final, a empresa reveste o material para conferir uma textura próxima à do couro.

A espessura e outras propriedades do Mylo são passíveis de alterações de acordo com o que a empresa pretender, visto que existe um controlo rígido de condições, como a temperatura e a humidade, onde são criados os micélios.

[©Sourcing Journal]
«Por muito tempo, o padrão da indústria categorizou os materiais como naturais ou altamente funcionais, mas não ambos», aponta James Carnes, vice-presidente da estratégia global de marca da Adidas. «A forma de remediar isso é inovar responsavelmente com soluções que desafiem o status quo e produtos que usam o melhor do que a natureza passou milhões de anos a aperfeiçoar, como o Mylo, que são essenciais para isso», assume.
Implementar o biomaterial nos produtos em 2021, e cada vez mais na indústria, pode ser a solução para um sector que se quer mais verde. «O consórcio Mylo demonstra como as principais marcas globais podem colaborar entre as indústrias para fazer parte de uma solução duradoura para restaurar um ambiente saudável. Acreditamos impreterivelmente que a inovação e a sustentabilidade são fundamentais para o futuro do retalho», conclui Sun Choe, diretora de produtos da Lululemon.