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Global Corte quer facturar 500 mil euros

No contexto da abordagem à fase do corte onde o Jornal Têxtil falou com algumas multinacionais especializadas na sua automatização, revelou-se pertinente falar com uma jovem empresa nacional que se especializou nesta área. O JT falou com Modesto Mendes, administrador da Global Corte. Jornal Têxtil – Gostaria que me fizesse o enquadramento histórico da empresa… Modesto Mendes – A Global Corte existe há onze meses. A ideia de constituir uma empresa de prestação de serviços têxteis surgiu da necessidade de subcontratar determinados serviços em alturas de picos de produção. A minha experiência como administrador de uma empresa de confecções permitiu constatar alguma facilidade em subcontratar confeccionadores, encontrando contudo uma falta de subcontratados em serviços como o corte ou criação de colecções. Simultaneamente, colhi ideias no estrangeiro onde observei casos de sucesso, onde verifiquei grandes vantagens competitivas para empresas que estabelecem parcerias ao nível de design e de corte. Avançámos então para a concepção do projecto, fizemos uma candidatura ao ICPME, e embora aquando da aprovação não tenhamos tido as comparticipações que esperávamos, decidimos avançar. JT – De quanto foi o investimento? MM – O investimento total ultrapassou um milhão de euros. Grande parte dele foi gasto em equipamento, e outra grande fatia em investimento não directamente produtivo. Começámos de facto a laborar em Junho de 2001, ainda com a instalação de algumas máquinas, o que nos auxiliou no procedimento do corte, sobretudo manual, porque para mim não basta que as pessoas tenham formação para a utilização do equipamento e apenas “carreguem nos botões”. Creio que é bastante útil para as pessoas envolvidas saberem lidar com as máquinas, mas também terem uma base de experiência já o mais longa possível no corte manual de materiais, saberem como se vai desenvolver antecipadamente este processo. De salientar que tivemos uma ajuda preciosa de todos os intervenientes no processo, nomeadamente dos fornecedores, confirmando o interesse e o desejo que eles têm para que este projecto seja de facto um caso de sucesso. JT – Esses fornecedores têm alguma participação em termos de gestão? MM – Não. A Global Corte é um projecto pessoal, com uma estrutura jurídica familiar como a generalidade das empresas têxteis. É um projecto que se baseia sobretudo nos nossos clientes e no desejo que nós temos de auxiliá-los em termos de conseguir custos mais baixos, prazos de entrega melhores e na tentativa de connosco eles oferecerem melhores serviços aos seus próprios clientes. Cada vez mais, o tempo que temos entre uma encomenda que chega, a sua saída para o mercado e a sua colocação nas lojas é mais curto. Temos uma grande pressão sobretudo no início das estações porque são as primeiras entregas e também no final das estações porque há encomendas que correm o risco de serem anuladas. Também aqui nós podemos dar uma comparticipação ao sector de confecção, em particular, e ao têxtil nacional em geral. JT – Quando faz recrutamento para a sua empresa encontra pessoas bem preparadas? MM – Por regra não. Dado termos iniciado a empresa do zero, orientamos o processo de recrutamento e selecção de pessoal, com base num mix de experiência, potencialidade e capacidade de arcar com responsabilidade com as suas tarefas. É preciso desenvolver aqui as suas aptidões, começar um pouco devagar, no sentido de começar por tarefas mais fáceis e de menor responsabilidade e, pouco a pouco aumentar o grau de dificuldade das tarefas. Importa realçar o importante papel do CITEX na formação das pessoas neste contexto. JT – Mas é uma característica do segmento específico da empresa ou é a mão-de-obra em si que não está muito preparada para este tipo de realidade? MM – Eu penso que será um pouco o segmento, porque por definição nas empresas de confecção onde terão menos pessoas a trabalhar e mão-de-obra menos especializada será justamente na parte do corte. Por outro lado, também sinto que ao nível das chefias o corte é algo negligenciado. Na empresa de confecção ninguém está a olhar com a devida atenção para a fase do corte, em particular se as linhas de confecção estão abastecidas. JT – O problema põe-se a que nível? MM – A vários níveis. A nível de consumos de materiais, da gestão de pessoal, a nível de eficiência e de produtividade das pessoas e dos equipamentos. A minha percepção é de que a maior parte dos problemas de confecção, nomeadamente o de pormenores, de medidas, de tons, de arranjos, etc, surgem se calhar muito antes, não só no corte, mas também na produção das matérias-primas e no acabamento destas. Mas se não forem bem tratadas no planeamento e acompanhamento do corte, os problemas certamente surgirão. Não é que estejam mal cortadas, mas não foram antecipadas as condicionantes desta actividade, não foi bem planeado. JT – Como são os resultados da empresa? MM – Como em qualquer negócio que se inicia, há sempre um período antes de começar a entrar em margens positivas. Neste caso, a nossa perspectiva é de necessitar de dois anos e meio para atingir resultados positivos. Mas é no objectivo reduzir esse tempo. O nosso primeiro objectivo é a total satisfação do cliente, o crescimento virá disso. Apresenta-se bastante favorável com a tecnologia que nós temos. Vamos aumentar sobretudo a capacidade comercial da empresa, que segundo as nossas previsões vai-nos permitir chegar a um volume de facturação de 500 mil euros anuais. Gostaria que esse valor fosse atingido já este ano, mas também tivemos o 11 de Setembro que retirou encomendas de Portugal. Mas agora perspectiva-se uma melhoria. JT – E quanto prevêem de crescimento anual? MM – Um crescimento de cerca de cinco por cento. JT – Finalmente, queria que me falasse dos serviços que a empresa disponibiliza… MM – Os serviços dividem-se em dois grupos, de design e de corte. Os serviços de corte englobam serviços de modelação, CAD, e serviços de corte propriamente dito. Os serviços de design englobam a criação de motivos e de vestuário e a estamparia digital de amostras de tecidos. Esta é uma área em que nós queremos apostar fortemente, pois acreditamos que vai passar por aí o crescimento do sector, nomeadamente em Portugal. A nossa filosofia é ser um centro de serviços na área do corte. Muito embora todos os serviços estejam interligados também são modulares. Um cliente pode hoje solicitar um molde base, amanhã outro cliente pode solicitar apenas a sua graduação, ou mesmo o apenas o estudo e ou impressão de planos de corte. Pode também só desejar o corte ou então todo o leque de serviços. Tenho prestado muita atenção ao nível de serviços do corte e do serviço que está directamente relacionado com ele, no sentido de ter sempre que me ajustar às condições reais e industriais do trabalho da fábrica para quem trabalhamos. Isso inclui a forma como são etiquetadas as peças, a forma como são feitos os lotes, a embalagem para a confecção, etc. Quero sempre que as peças ao saírem daqui, sejam consideradas tão boas ou melhores que as peças cortadas internamente. Não basta um corte perfeito, toda a organização dos serviços tem de o ser, tem a ver com todos os serviços complementares e com uma aposta, presente e futura no completo acompanhamento e satisfação do cliente.