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Good Bottle troca plástico por material compostável

Um projeto de investigação da Fundação Mirpuri com a plataforma Fibrenamics deu origem a um material polimérico biodegradável que, numa primeira fase, vai permitir substituir as tradicionais garrafas de plástico de água por uma alternativa mais sustentável.

Marianela Mirpuri [©Fibrenamics]

Good Bottle, como foi batizado, é um material polimérico biodegradável, «polimerizado a partir de uma fonte natural renovável, como o amido, que é combinada na sua composição com partículas de algas», explicou João Bessa, technology manager da Fibrenamics, durante o webinar Nova Geração de Materiais Biodegradáveis, promovido pela plataforma da Universidade do Minho no passado dia 27 de maio.

O projeto surgiu integrado no programa Save the Ocean da Fundação Mirpuri, depois da participação com um barco na Volvo Ocean Race, que deu a volta ao mundo e foi fazendo análises à água do mar em diferentes pontos do globo. «Durante um ano, com o nosso barco, pudemos testemunhar que o impacto do plástico era muito maior do sequer nós imaginávamos», contou Marianela Mirpuri, adviser da Fundação Mirpuri e project manager do projeto Good Bottle. «Não poderíamos ficar indiferentes, como é óbvio, e achamos que devíamos fazer qualquer coisa», acrescentou.

Nas ilhas de plástico que flutuam nos oceanos, «a garrafa de plástico era aquela que ressaltava à vista, e tivemos a ideia tentar desafiar a criação de um protótipo que fosse uma opção à atual garrafa de plástico», explicou Marianela Mirpuri.

Os dois anos de investigação permitiram desenvolver um material e criar uma garrafa que vai ser oficialmente apresentada no próximo dia 5 de junho na Marina de Cascais. «O próprio design da garrafa foi inspirado em elementos naturais como os corais do oceano, tendo como imaginário de fundo a tal problemática da deposição de plástico, as tais ilhas depositadas no fundo dos oceanos», referiu João bessa, acrescentando que o material obtido é «biodegradável e compostável, com um curto tempo de prateleira e, portanto, não reciclável de todo».

Foi ainda estudada a toxidade do mesmo em ambiente marinho, usando peixes-zebra, verificando-se «uma taxa de mortalidade muito, muito inferior quando comparada com outro tipo de plásticos convencionais. E este valor de 8% está abaixo do valor limite mínimo», salientou o technology manager da Fibrenamics.

The Good Bottle [©Água Monchique]
O material será usado para já como garrafa de água, numa parceria com a Água Monchique, mas o objetivo é que possa ser utilizado noutras aplicações. «A ideia é que no futuro este material, que se denomina Good Bottle, seja replicado em várias outras formas e propostas, quer seja de bebidas, sólidos ou líquidos, portanto é um universo a ser explorado ainda. Estamos nesta fase a tratar da escala industrial», revelou Marianela Mirpuri. «Acreditamos que com a escala industrial, o preço da Good Bottle possa ser perfeitamente equiparado ao preço da existente garrafa de plástico. Neste momento provavelmente serão alguns cêntimos acima, nada de extraordinário, mas a ideia é que se faça a escala industrial para que o preço possa ser verdadeiramente competitivo e possa ser realmente uma opção no mercado que possa servir todos. É isso que nós pretendemos», resumiu a adviser da Fundação Mirpuri.

Bioplásticos em crescimento

Este material pode ser mais um trunfo para combater o excesso de utilização de plásticos que têm afetado o meio ambiente. «Desde 1950 tem-se verificado um aumento, com tendência a tornar-se exponencial, daquilo que é a produção global de materiais poliméricos, tendo em 2018 atingido cerca de 60 milhões de toneladas. Contudo, em 2018, percebemos que deste grande volume de materiais de plástico produzidos, apenas 1% é equivalente à produção de polímeros de base biológica», referiu João Bessa.

Estes polímeros mais “amigos do ambiente”, que não derivam do petróleo, deverão chegar a 2,6 milhões de toneladas em 2023, com a produção a fazer-se sobretudo na Ásia (em 2018 era responsável por 55% da capacidade produtiva de bioplásticos). «Também se perspetiva que a Europa possa crescer a este nível, desde os 19% registados em 2018 até aos 27%», apontou.

João Bessa [©Fibrenamics]
Em termos de valor, «prevê-se que este mercado de bioplásticos e biopolímeros possa aumentar desde os 6,37 biliões de euros em 2018 até aos cerca de 15 biliões de euros em 2023, o que se traduzirá numa taxa de crescimento anual média de, aproximadamente, 17%», indicou João Bessa.

Há, no entanto, desafios a ultrapassar, «desde os custos de produção até à definição de métodos de avaliação de impacto ambiental mais credíveis, mais consolidados, num segmento que permita realmente medir o impacto no ambiente da utilização e consumo destes materiais, mas não há dúvidas que a produção e a utilização de biopolímeros é um passo na direção certa para que em 2050 possamos atingir a tão falada neutralidade carbónica», acredita o technology manager da Fibrenamics.