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Google versus Apple

O conhecido plano da Google para permitir que os fabricantes desenvolvam o próprio hardware está, atualmente, a cortejar a indústria da moda – e pode resultar em substanciais dividendos num futuro próximo.

Se o Apple Watch foi encaminhado para as páginas da Vogue e para a conta de Instagram da cantora Beyoncé, a gama Android Wear da Google está rapidamente a conquistar os designers.

Na semana passada, na conferência da especialidade Baselworld, a Google assinou com a Michael Kors e a Nixon para diversificar ainda mais o seu alinhamento. Isso significa que nos 20 meses desde a estreia da Android Wear, a Google recrutou nove empresas de tecnologia e quatro marcas de moda para produzirem, por conta própria, 18 modelos exclusivos, isso sem contar a infinidade de opções de dimensão, cor e bracelete dos dispositivos.

Enquanto isso, a Apple mantém um relógio… fabricado pela Apple. É possível comprar a bracelete da Hermès, mas e o hardware? A estética? O relógio em si? Tudo isto vem continua a ter a mesma fonte, analisa a Fast Company.

A história repete-se

É uma história familiar. A Google sempre ofereceu o que a indústria chama de uma plataforma aberta – qualquer pessoa pode colocar o sistema operativo Android em qualquer hardware. Enquanto isso, a Apple oferece uma plataforma fechada, na qual ninguém pode construir mais de um caso ou aplicação para um produto de hardware/software Apple.

As estratégias têm beneficiado cada uma das empresas à sua maneira. Com um sistema fechado, a Apple preserva padrões elevados e cobra pela experiência. Os seus utilizadores são leais e os produtos duram muito tempo e cerca de mil milhões dos seus dispositivos iOS foram já vendidos em todo o mundo até à data.

Enquanto isso, com um sistema aberto, a Google recebe amplitude. Os dispositivos Android são produzidos por dezenas de fabricantes, cada um competindo para produzir, comercializar e vender dispositivos da gigante tecnológica.

Nesta estratégia, os preços caem, a base expande-se e a Android torna-se a maior plataforma móvel do mundo, com 1,4 mil milhões de utilizadores. Isso sem contar as outras joias da coroa, como a Search, a Maps, ou a AdSense.

«Uma das coisas que percebemos quando começámos a Android Wear foi, quando pensamos sobre as coisas que as pessoas usam, há realmente diversos estilos. Não é o caso de “um estilo para todos”, como nas roupas, acessórios ou outro tipo de vestuário», revelou David Singleton, VP da Android Wear, à Fast Company. «Muito do nosso ADN, ao trabalhar com a Android Wear, sempre foi o de criar um ecossistema de parceiros para trabalharmos juntos no desenvolvimento de algo maior do que a soma das partes e é isso que estamos a tentar fazer aqui», acrescentou.

Esta estratégia funcionou para a primeira parceria de moda da Android Wear, com a Fossil, que cita o Fossil Q Founder como o relógio mais vendido na temporada de férias de 2015 (ver Horas tecnológicas). Mas os relógios são apenas uma pequena amostra de uma parte muito maior de tecido. A plataforma aberta da Google está prestes a deixar um impacto muito maior sobre a indústria da moda do que aquele que já tem nos smartphones, porque ainda que muitos estejam felizes ao usar o mesmo smartphone da pessoa sentada ao seu lado, a moda é uma forma de expressão pessoal (ver O boom do vestuário inteligente).

O papel da moda

Agora que a Android Wear tem quase dois anos, o mercado começa a recolher os frutos da estratégia aberta do sistema operativo Android em cortejar o mundo da moda. «Os relógios e as joias são uma parte do ADN do meu design. Tenho vindo a desenhar os dois há anos e os nossos clientes conhecem e adoram os nossos acessórios. Quando decidimos envolver-nos com a tecnologia wearable, ficou definido que criaríamos a nossa versão», afirmou Michael Kors.

Esse sentimento foi ecoado pela Nixon, uma empresa conhecida pela sua linha masculina de peças intemporais, bem como pelos seus smartwatches de performance orientados para o surf. A Nixon acaba de anunciar o seu primeiro relógio Android Wear, “The Mission”. «Seria ótimo se a Apple não fosse um sistema fechado! Porque também somos fãs da Apple», confessou Tyson White, vice-presidente do produto na Nixon. «Mas estamos felizes com a Google e a plataforma Android Wear».

A equipa da Nixon passou os últimos três anos e meio a falar com especialistas em toda a indústria de eletrónicos de consumo, à procura de descobrir a melhor abordagem para construir algo que superasse o seu relógio inteligente de surf e desse vida ao seu produto de sonho “The Mission”: um relógio de desporto capaz de gerar relatórios em tempo real sobre a água e a neve e atividades de tracking, para surfistas e snowboarders.

Por isso, desenvolver apenas uma aplicação para o Apple Watch não funcionaria para a Nixon, porque, para além de não ser a estética ou o hardware da Nixon, o relógio Apple (como todos os outros smartwatch no mercado) não seria resistente o suficiente para o seu caso de uso. «A maioria é resistente à água, na melhor das hipóteses», advoga Tyson White.

A Nixon finalmente decidiu que poderia lidar com a construção do próprio hardware e atualizá-lo ao longo do tempo, mas apenas se este tivesse um sistema operativo capaz de crescer e desenvolver-se. «Não havia outra opção melhor do que a Google», afirma White. «Se apenas construíssemos um relógio que tivesse o seu próprio sistema operativo para fazer as coisas que queríamos fazer, no prazo de um ano, iria tornar-se ultrapassado e, em dois, obsoleto», explica. Por outro lado, a adoção do sistema operativo Android permitirá à Nixon trabalhar lado a lado com a Google para «continuar um caminho potencialmente infinito» no vestuário inteligente.

Designers do futuro

Hoje, os smartwatches como um todo são um negócio pequeno em comparação com, por exemplo, os smartphones. Mas caso se olhe para o que a Google tem vindo a trabalhar – a tecnologia como tecidos e acessórios sensíveis ao toque e que detetam gestos –, antevê-se que os wearables se assumam, simplesmente, como vestuário.

White sublinha que a Nixon está «absolutamente» predisposta a continuar a trabalhar com a Google durante os próximos cinco ou mais anos. Enquanto isso, a marca Michael Kors defende que a tecnologia wearable será um «grande negócio» no futuro, por isso «faz sentido» que a marca se emparelhe com a tecnologia, controlando o design.

E no que à viabilidade da estratégia da Apple diz respeito – e caso se pretenda incluir a empresa na questão particular da moda –, a sua abordagem fechada não só irá travar a adoção global do Apple Watch mas também limitar a extensão em que a Apple se pode manter à tona em relação à profundidade que os wearables ainda poderão alcançar.