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«Gostava de ver este grupo a faturar 200 milhões de euros»

Apologista da verticalização e das parcerias entre os empresários têxteis nacionais, Luís Guimarães, presidente do grupo Polopique, aponta os custos energéticos e os baixos salários como entraves ao crescimento do sector.

Obstáculos, contudo, que tem ultrapassado consistentemente e que não têm impedido o desenvolvimento do grupo, que atualmente emprega 1.050 pessoas e tem como meta chegar, em breve, aos 200 milhões de euros de volume de negócios.

No último exercício, o grupo Polopique aumentou o volume de negócios em mais de 20%, decorrente de um aumento da resposta, conseguido com recurso à confeção marroquina, e do crescimento resultante da ligação que tem à Inditex mas também com grandes marcas e grupos internacionais com quem tem vindo a estreitar relações.

Como correu 2018 para o grupo Polopique?

Crescemos cerca de 30% nos resultados não consolidados e mais de 20% nos consolidados. As contas ainda não estão fechadas, mas o resultado consolidado em vendas andará à volta dos 110 milhões. As vendas por empresas são superiores, mais de 130 milhões de euros, mas há vendas intra-grupo.

Quais foram as razões subjacentes a esse crescimento?

2017 não foi um ano bom, porque não conseguimos atender a todas as encomendas por falta de capacidade produtiva em termos de confeção. Por isso, começámos a fazer novamente uma experiência em Marrocos – tínhamos já começado em 2005, abandonámos em 2007 e no final de 2017 começámos com uma equipa nova. As coisas funcionaram muito bem e isso permitiu-nos alavancar as vendas em 2018. E é o que nos está a permitir continuar a ter um crescimento considerável neste primeiro trimestre de 2019.

O grupo tem produção própria em Marrocos?

Não, são empresas subcontratadas, como as de cá. Temos apenas uma equipa nossa, de seis pessoas, lá.

Quanto representa já a confeção marroquina?

Já representa bastante. Em 2018 representou cerca de 40% e deverá manter-se dentro disso, 40% a 50%. Eu gosto muito de produzir em Portugal e gostaria de continuar a crescer. No entanto, cada vez mais verifico que vai ser impossível, porque as empresas são pequenas e estão muito carentes de liquidez, o que torna difícil a produção, porque vão fechando. Cada vez mais Portugal é procurado, por todos os mercados, para uma resposta rápida e com empresas pequenas, não havendo escala, torna-se difícil. Em Marrocos encontramos essa escala. As confeções são muito grandes, empregam entre 800 e 1.000 pessoas. Temos quatro empresas a trabalhar connosco.

Nesse contexto, qual é a estratégia desenhada para Portugal?

Tento sempre crescer através dos nossos parceiros, desde que estejam abertos a isso. E tem sido o caso. O ano passado houve duas empresas que aumentaram a sua capacidade de produção e nós estamos abertos a isso. Aliás, preferimos. Não havendo essa possibilidade, temos agora Marrocos. Mas Marrocos tem alguns contratempos, nomeadamente o transporte. Apesar de termos já uma máquina bem oleada e conseguirmos tempos de produção bastante rápidos, prefiro sempre produzir em Portugal. E se tiver necessidade de ter mais produção interna, aumentarei.

Marrocos permite uma capacidade de resposta diferente?

Sim, mas pode ser um investimento a curto prazo. Tal como o custo da mão de obra em Portugal foi aumentando, em Marrocos também e deixará de ser tão competitivo. Posso dizer que há vários produtos que já estão ao preço de Portugal, como as peças mais básicas – nem sequer justifica a deslocalização. O que justifica é, de facto, a capacidade produtiva.

O facto de ter um grupo vertical torna-o mais competitivo em termos de preço?

Penso que o mais importante é sermos competitivos no aspeto de podermos fornecer qualquer tipo de matéria-prima num espaço curto de tempo. E aí sim, com a inovação que fazemos continuamente, desde a parte do fio, termos artigos com maior valor acrescentado. Essa é a parte mais interessante disto tudo. E podermos responder, obviamente, com outra rapidez.

Hoje, o que mais o preocupa enquanto empresário?

A energia. Os custos energéticos em Portugal são altíssimos. Não vejo o governo a tomar medidas nem vejo as associações que temos a preocuparem-se com os custos da energia. Só se preocupam com o grupo Inditex “estar a deixar Portugal”, quando isso não é verdade. E naquilo que se devem preocupar, que é para isso que as associações existem, que é ver quais são as necessidades dos empresários e fazer os lobbies necessários junto do governo, não acontece. Dou um exemplo: só nos é permitido montar um megawatt por empresa para painéis solares. A poupança que obtivemos nos painéis, no ano passado, foi anulada pelo aumento da energia. É um perfeito disparate. Temos aqui muito espaço onde podíamos instalar muitos painéis, mas limitam-nos a capacidade.

Quanto investiu em painéis fotovoltaicos?

Acho que foi cerca de 1,5 milhões de euros. Eu conseguia montar 4 megawatts por empresa. Estamos à espera que saiam novas leis que nos permitam chegar a esse ponto. Não vou dizer que vamos ser totalmente autossuficientes, porque para isso também teríamos que ter a parte das baterias para a acumulação de energia já numa fase mais adiantada. Temos pessoas na empresa que se dedicam só a isso e estão atentas, porque o custo energético é um fator muito relevante na indústria têxtil.

Se fosse primeiro-ministro, que soluções preconizaria para resolver esse problema?

Dava liberdade às empresas. Não há país nenhum que viva sem indústria. Para termos serviços, temos que ter indústria. Portanto, temos que olhar para a indústria, seja ela qual for. A indústria têxtil é uma das indústrias que gasta muita energia. Por isso, deveríamos dar a possibilidade aos industriais de poderem, pelos seus meios, arranjar soluções mais económicas para a obtenção de energia para as suas empresas. E não regulamentadas como elas estão, em que continuamos a ser dos países da Europa que tem a energia mais cara. Penso que é uma questão de boa vontade política. Há outras indústrias em Portugal que também consomem muita energia. Se fosse primeiro-ministro, como questiona, a minha preocupação seria juntar-me com as associações ou com os empresários e ver quais os caminhos mais fáceis para que as empresas pudessem obter energias mais baratas, no caso das energias limpas – o sol é a melhor coisa que temos. Nós temos aqui a parte hídrica, a parte do fotovoltaico e temos também a parte da cogeração, mas aí somos obrigados a entregar a energia à rede pública. Entrego na rede pública a 9 cêntimos e estou a comprá-la a 10 cêntimos porque sou obrigado. Podia gastá-la e vendê-la mais barata e a cogeração continuava a ser uma empresa rentável.

Que outras medidas avançaria para fortalecer a indústria?

A primeira era logo subir os salários das pessoas. Claro que isso implicaria, como é óbvio, descidas nas TSU, tanto das empresas como dos próprios funcionários. Mas penso que se as contas fossem bem feitas, baixando por um lado mas subindo por outro, iria quase dar ao mesmo. E teríamos logo outra vontade de as pessoas virem trabalhar para a indústria têxtil. Porque vir trabalhar por 600 euros por mês, que é o que a maior parte das empresas dá aos seus funcionários, o salário mínimo nacional, não alicia ninguém.

Qual é o salário mínimo da Polopique?

A Polopique pretende, e já atingimos 80% e este ano vamos completar o restante, que, em 12 meses, cada funcionário saia daqui com, no mínimo, 800 euros. Já temos funcionários que recebem muito mais. Faltavam no final do ano cerca de 20% desses funcionários que levam 800 euros por mês. Pago 14 meses, mas a minha preocupação é aquilo que as pessoas levam para casa todos os meses. Os extras já os dou: seguros de saúde aos funcionários, aos seus dependentes e cônjuges – só nisso, no ano passado, gastámos cerca de 400 mil euros –, seguro de vida, seguro de acidentes à parte do obrigatório por lei e, quando os anos assim o permitem, uma percentagem dos lucros é dividida pelos funcionários.

Que capacidade de produção dispõe nas diferentes unidades industriais?

Na fiação, onde temos duas fiações com 22 mil fusos no total, produzimos, dependendo dos números dos fios que fazemos, entre 350 e 400 toneladas por mês. A tricotagem, onde temos 14 teares circulares, foi iniciada no final do ano passado. Produzimos só malhas especiais: malhas duplas, malhas com fios bastante diferentes, malhas que inclusive podem imitar tecidos. Temos aqui uma capacidade que rondará os 3.600 quilos por dia. Na tecelagem temos 110 teares novos, que produzem cerca de 800 mil metros. E temos capacidade para tingir, nos fios, cerca de 6.000 quilos por dia e, nas malhas e tecidos, pode ir até 16 toneladas por dia. No ano passado comprámos uma máquina de tingimento em contínuo e aí podemos tingir 30 a 40 mil metros por dia. No vestuário, as duas unidades diretas podem produzir entre 6.500 e 7.500 peças por dia – têm uma grande parte de automatização na parte inicial.

Em termos de vestuário, as vendas concentram-se sobretudo no vestuário em malha?

Sim. O total de vendas em vestuário em malha foi de 90 milhões de euros e em tecido cerca de 26 milhões de euros [em 2018]. Vendemos cerca de 23 milhões de peças.

Dessas peças, quantas foram fabricadas dentro de portas?

Dentro de portas foram fabricadas cerca de 1,5 milhões.

Quer na fiação, quer na tecelagem é tudo para consumo interno?

Na tecelagem não. Na tecelagem, para consumo interno, será 30% e 70% é para venda. Espanha, EUA, Alemanha, Áustria e Inglaterra são os cinco principais mercados. E alguma coisa para Portugal.

Quanto representa atualmente a Inditex nas vendas do grupo?

70% e tem crescido.

Quem são os outros clientes?

Os outros 30% estão distribuídos por EUA, Alemanha, Inglaterra, Áustria e França. Neste momento até estamos a aumentar os negócios com os EUA, são marcas importantes – a Patagonia trabalha há muitos anos connosco. Em Inglaterra, começámos recentemente a trabalhar diretamente com a Next. Fizemos uma parceria com a Lacoste, que vem produzir para Portugal, não só connosco, mas com outras empresas. Estamos também neste a momento a trabalhar com o grupo PVH, um dos maiores grupos do mundo. E temos outros clientes em Espanha, por exemplo a Mango.

Há muitos empresários preocupados com uma alegada quebra das vendas para a Inditex, com alguns inclusive a anunciar cenários catastróficos. Partilha essa preocupação?

Essa questão não me preocupa. O que me preocupa é a ignorância das pessoas quando vêm cá para fora dizer essas coisas. Deviam ter muito cuidado porque isso são comentários que podem trazer desestabilização e grande, até para os nossos clientes. As nossas associações não estão para nos defender, bem pelo contrário, ainda nos enterram mais. Quando ouvissem um jornalista ou o governo a dizer uma coisa dessas, deviam tomar uma posição imediata e segura e passar uma mensagem para o exterior que, de facto, não é isso que está a acontecer. Falar dessa forma e dizer a um jornal que a indústria têxtil vai acabar em Portugal, é perigoso e mau para o país.

Como explica, então, o rumor de que a Inditex está a sair de Portugal?

Eu tive a oportunidade de, quando saiu a primeira notícia, através do jornal ECO, ter dito precisamente que isso não era verdade. A Inditex não quer sair de Portugal, aliás recentemente o próprio Pablo Isla disse isso mesmo, que Portugal continua a ser um parceiro. O grupo Inditex continua a necessitar de Portugal. Portugal é um parceiro estratégico, está próximo e não é só para o grupo Inditex que está próximo. Estamos a duas horas de avião da maior parte dos países europeus. E para o grupo Inditex ainda é melhor, porque é de carro. Portanto, eles não têm interesse absolutamente nenhum em abandonar Portugal. Agora, vejo de facto uma dificuldade na resposta que eles necessitam. Cada vez mais necessitam de uma resposta rápida. Eles aumentaram as compras na Turquia mas não foi porque baixaram em Portugal – em Portugal se baixaram 1%, deve ter sido muito. Foi porque baixaram na Ásia – na Ásia é que baixaram bastante às compras e continuarão a baixar. Desde que me recordo, nos últimos 10 anos pelo menos, Portugal representou sempre 20% das compras do grupo Inditex. E continua. Temos que ver aqui uma coisa. Havia muitas empresas espanholas que vinham produzir a Portugal e essas empresas abandonaram Portugal e foram produzir para Marrocos e para a Turquia. É natural que algumas empresas portuguesas tenham sofrido alguma baixa, acredito perfeitamente que tenham sofrido, mas também pela falta de escala. Eu próprio sinto isso na pele, senão não estaria em Marrocos, muito honestamente. Eu não vejo, e digo isto com toda a sinceridade e pelo que conheço do grupo, com o qual já trabalho há 35 anos, ser essa a vontade, pelo contrário. Agora, o que vejo efetivamente é o grupo Inditex cada vez mais a virar-se para as indústrias que têm escala, para as empresas que têm escala, como é o nosso caso. Nós temos tido um aumento nas vendas, não só do grupo Inditex mas de outros mercados e 2019 vai mostrar isso mesmo. Há outros mercados a procurarem-nos cada vez mais porque chegam aqui e podem ver o fio, podem ver o tecido, podem ver o tecido a ser acabado e podem ver a ser confecionado. E para um comprador a melhor coisa hoje em dia que se pode fazer é dar-lhe essa possibilidade. É o retornar à verticalização da indústria.

Mas a verticalização da indústria em Portugal acabou mal…

Eu tenho a minha própria teoria acerca disso. Acho que a verticalização em Portugal acabou mal porque as pessoas não perceberam que era preciso, dentro da verticalização, tornar as empresas mais competitivas. Nós somos uma empresa vertical mas somos quatro empresas produtivas: a fiação é uma empresa, a tecelagem é outra empresa, os acabamentos são outra empresa… O que era preciso, dentro da verticalização, era saber subdividir. Segundo, era preciso investir, coisa que não aconteceu durante mais de 20 anos neste país. As empresas estavam obsoletas e sempre estiveram muito endividadas. Nós fizemos muito investimento mas uma parte grande do nosso investimento foi com aquilo que as empresas libertavam e com os capitais próprios. Desde 2012 até à data investimos 80 milhões de euros. Quando eu montei a fiação em 2012 toda a gente me chamava maluco. Nem é questão de ser visionário, é questão de que temos de pensar que o mundo muda e que, tanto na indústria têxtil como noutra indústria qualquer, as coisas não são para sempre. E temos que estar preparados e ter a dinâmica para nos podermos ajustar a qualquer mudança. Se tivermos uma verticalização dentro deste modelo que eu criei, verticais mas com as empresas independentes, acho que estamos muito mais preparados para qualquer situação que se nos apresente, somos muito mais flexíveis. Também é importante criar parcerias. Eu sempre tive parceiros desde o início. Tenho parceiros na tricotagem da malha que trabalham comigo há 23 anos, desde que montei a Polopique. São empresas que trabalham para mim quase a 100% e eu preocupo-me que tenham trabalho.

Acha que as empresas portuguesas têm apostado pouco em parcerias?

Eu comecei na indústria em 2003 – quando percebi que a parte de tinturaria e acabamentos não dava a resposta que eu necessitava, avancei para a compra de uma unidade de acabamentos. Hoje em dia, com a exceção de uma ou outra empresa, posso-lhe dizer que a mentalidade das tinturarias continua a mesma de há 20 anos. Não se atualizaram. Não é só em termos de máquinas que é preciso atualizar-se, mas também a mentalidade das pessoas. Aqui os empresários são todos muito individualistas. Falam muito em parcerias mas depois não conseguem efetivar isso.

Que análise faz do momento atual da indústria têxtil e vestuário portuguesa?

Há uma crise mundial instalada, não só na indústria têxtil mas transversal a muitas áreas. O mundo está a mudar, e eu já venho a dizer isto há algum tempo aos meus colaboradores: entramos na era dos millennials. Hoje em dia, os jovens viajam com muita facilidade, gostam de viajar, gostam de ir a bons restaurantes, gostam de conhecer. A indústria da moda é vista quase como uma necessidade. Eu preciso de comprar uma peça e vou comprar, online ou na loja, mas preciso de comprar aquela peça e tenho que a ter lá. Se não tiver, não compro. Por isso vemos a indústria europeia a regressar à Europa, pela proximidade. Claro que temos os países asiáticos em que a população continua a crescer e que cada vez estão a mudar, como eu já esperava, para o seu consumo interno. Na Europa, contudo, pode-se sentir um bocado essa baixa, porque realmente as pessoas estão noutro patamar. Claro que vamos todos continuar a usar roupa, mas temos que estar atentos a essa evolução.

Quais são as metas futuras para o grupo Polopique?

Gostava de ver o nosso grupo de empresas inserido como uma grande empresa portuguesa e para isso estamos a falar de valores altos. O problema de Portugal é que somos sempre empresas pequenas. E eu gostava de ver este grupo de empresas a ser realmente um grupo grande. Essa é a minha meta. Gostava de ver o grupo a crescer em pessoas – acho que mais 100 pessoas é possível – e em valor também, como é óbvio. Dentro de dois ou três anos, gostava de ver este grupo a faturar 200 milhões de euros.

A Polopique foi mencionada num estudo recente da London Stock Exchange como uma das empresas mais inspiradoras da Europa. O que é, para si, inspirador nesta empresa?

Não é a empresa, é a indústria têxtil que me inspira. Eu gosto do que faço e tento sempre ser diferente e motivo os meus colaboradores a sermos diferentes dos outros. E a vivermos o nosso dia a dia de uma maneira diferente. Não virmos trabalhar e dizer que vamos para um castigo. Vamos trabalhar e à volta temos a parte do cimento mas também temos muita área verde para as pessoas descontraírem, se sentirem em casa. É isso que nós tentamos.