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Grandes armazéns em perigo

Os grandes armazéns americanos podem vir a encerrar centenas de espaços comerciais – cerca de um quarto das suas lojas – caso pretendam voltar ao pico de produtividade, alerta uma empresa líder na análise ao ramo imobiliário.

Cadeias como a Sears, JC Penney e Macy’s foram atingidas por um duplo golpe: a perda de quota de mercado para retalhistas como a Amazon, que se juntou à queda crónica no tráfego de clientes (ver O futuro dos grandes armazéns).

Coletivamente, estes grandes armazéns seriam obrigados a fechar cerca de 800 espaços nos EUA para voltar aos níveis de 2006, de acordo com uma nota da Green Street Advisors, citada pela Fortune. Esta redução traduz-se em 25% dos grandes armazéns em todo o país, cuja lista inclui nomes como Dillard, Bon-Ton e Nordstrom.

Na JC Penney, por exemplo, apesar de uma recuperação depois de uma tentativa de reinvenção desastrosa em 2012, as vendas anuais por metro quadrado no ano passado foram de 165 dólares (aproximadamente 146 euros), em comparação com um pico de 231 dólares em 2006. No total, as vendas por metro quadrado dos grandes armazéns âncora nos shoppings americanos caíram 24% desde 2006, embora o tamanho dos espaços de retalho tenha caído apenas 7%, de acordo com o relatório.

Como resposta, muitos dos principais retalhistas têm vindo a encerrar lojas. A Macy’s fechou este ano 36 locais de uma carteira de 800 (ver A dança dos consumidores), enquanto a Sears anunciou recentemente o encerramento de cerca de 10 lojas já este verão, ficando assim com um total de cerca 700 espaços, em comparação aos 900 de há uma década. A Green Street Advisors estima que a Sears precise de fechar 300 lojas no total, caso pretenda regressar aos níveis de produtividade de 2006.

Em 2006, os grandes armazéns americanos conheceram um boom, realidade que hoje é designada, no jargão da indústria, com o “overstored” (ver A multiplicação das lojas). Contudo, a recessão chegou, e muitos consumidores começaram a voltar as suas atenções para cadeias de desconto e retalhistas online.

A JC Penney, por exemplo, fechou 100 lojas nos últimos três anos, a mesma quantidade que tinha aberto entre 2006 e 2012. Já a Sears afirma que tem vindo a tentar corrigir os seus negócios, mas as vendas continuam em queda. A sua empresa-mãe, que também é proprietária da Kmart, relatou 11 anos consecutivos de quedas nas vendas comparáveis. Já a Macy’s tem sofrido com a entrada em jogo de lojas de desconto como a TJ Maxx (ver A guerra dos descontos).

Neste cenário, nem a Nordstrom foi poupada: as vendas nas suas lojas de serviço completo caíram em relação ao trimestre do Natal. A Nordstrom praticamente deixou de expandir a rede de lojas, com a exceção da próxima megastore em Manhattan – espaço que está incluído na construção da cadeia de descontos Rack e no plano de fomento do comércio eletrónico da retalhista, cada vez mais dependente das lojas físicas.

Nos casos da JC Penney e da Sears, ambas as cadeias têm uma grande parte das suas lojas nos chamados centros de categoria C e D, jargão imobiliário para shoppings com vendas em queda. Já a Macy’s, a Dillard e a Nordstrom estão localizadas em melhores centros comerciais.

Ainda assim, pode não ser desejável fechar tantas lojas. Como o CEO da JC Penney, Marvin Ellison, explicou à revista Fortune, as lojas desempenham agora um papel crucial no comércio eletrónico dos grandes armazéns, permitindo-lhes não só competir com a Amazon, mas também servir como centros de distribuição adicionais e pontos de levantamento de encomendas online.

A JC Penney encerrou apenas sete espaços este ano e não faz planos de cortes em grande escala, uma vez que a grande maioria dos seus locais são rentáveis, segundo Ellison, que aposta que a recuperação da cadeia pode continuar a ser o suficiente para justificar a manutenção das lojas.

Já nos centros comerciais, os encerramentos dos grandes armazéns estão a motivar a abertura de espaços de entretenimento, restauração e lojas de fast fashion. De facto, algumas das lojas Sears são agora espaços Whole Foods, Dick Sporting Goods e Primark.