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Grandes da moda são ainda pouco responsáveis

A conclusão é do estudo Fashion Accountability Report publicado pela associação não-governamental Remake, que avaliou 58 grandes empresas de moda com base em critérios como rastreabilidade, salários ou matérias-primas. Em 150 pontos possíveis, as mais bem classificadas conseguiram apenas 38 pontos.

Embaixadoras Remake [©Remake]

Neste segundo relatório da Remake foram analisadas 58 empresas, com um volume de negócios anual superior a 100 milhões de dólares, que «pelo seu tamanho e poder de compra, têm maior influência e responsabilidade para criar mudanças sistémicas de que a indústria da moda tanto precisa para alcançar as suas metas climáticas e de justiça social», justifica a Remake no Fashion Accountability Report 2022.

No geral, refere a organização não-governamental, «2022 trouxe duas verdades opostas na moda: um vislumbre de mudança sistémica por entre uma enxurrada de práticas prejudiciais da indústria. Testemunhámos um retrocesso incrível no status quo. Voltamos ao consumismo barato, lucros elevados, baixos salários, enorme greenwashing, justiça racial simbólica e o constante lançamento de novas coleções». Uma afirmação que a Remake consubstancia com o facto da Shein se ter tornado dominante, «embora o interesse do consumidor em sustentabilidade esteja no nível mais alto de sempre», e com o lançamento da coleção “sustentável” da Boohoo com Kourtney Kardashian Barker quando a empresa estava simultaneamente a ser investigada pelo governo dos EUA em relação a acusações de trabalho forçado e pelo governo do Reino Unido por causa de greenwashing.

[©Boohoo]
Contudo, afirma a Remake, o cenário não é completamente negro e «os velhos hábitos da moda estão a nadar contra uma poderosa corrente de mudança sistémica», nomeadamente com as novas políticas em áreas como os direitos humanos e dos trabalhadores, exigência de transparência e combate ao greenwashing, assim como mudanças implementadas dentro das empresas para combater as alterações climáticas, sindicalização dos trabalhadores e movimentos sociais, cada vez mais organizados, de consciencialização para a moda sustentável. «Estas mudanças estão a corrigir a moda nos bastidores», realça o relatório.

Burberry e Everlane lideram

A Remake avaliou as empresas com base em seis critérios – rastreabilidade (8 pontos), salários e bem-estar (23 pontos), práticas comerciais (15 pontos), matérias-primas (20 pontos), justiça ambiental (42 pontos) e governança (42 pontos) –, estando a pontuação máxima limitada a 150 pontos.

Este ano, a pontuação média foi de 14 pontos, sendo que o máximo foram 38 pontos, atribuídos à Burberry e à Everlane. Estas foram seguidas pela Levi’s (34 pontos), Reformation (33 pontos) e grupo H&M (32 pontos).

«O relatório deste ano apresentou pontuações médias baixas em todas as áreas, mas após uma análise mais detalhada, o que vemos é que a maior parte do trabalho em prol do progresso ambiental e social é realizada por um punhado de empresas», salienta o estudo da Remake.

Trinta e cinco (43%) das empresas avaliadas tiveram uma pontuação igual ou inferior a 10 pontos, num grupo onde se incluem a Victoria’s Secret (10 pontos), o Boohoo (nove pontos), a Chanel (oito pontos), a Disney (oito pontos), a Shein (oito pontos), a Amazon (sete pontos), a Desigual (seis pontos), o Walmart (seis pontos), a JC Penney (dois pontos), a Sears (dois pontos) e a Edinburgh Woollen Mill (zero pontos), o que «sublinha que o progresso social e ambiental no geral está a ser travado por empresas retardatárias que fazem poucos ou nenhuns compromissos. É necessário nivelar o campo de jogo», destaca a Remake.

[©Burberry]
Produção em níveis excessivos

O relatório sustenta ainda que «a indústria da moda está viciada na sobreprodução. As grandes empresas continuam focadas em aumentar a produção anual de artigos e em impulsionar as vendas e os lucros. Embora muitas empresas defendam a sustentabilidade no seu marketing e até mesmo, em alguns aspetos, na sua oferta, os seus relatórios trimestrais de resultados são sobre uma coisa: crescimento».

A Remake avalia o empenho das empresas de se afastarem de modelos de negócio lineares e centrados no crescimento tentando perceber se estão a reduzir intencionalmente o número de produtos fabricados anualmente, se conseguem demonstrar que o seu impacto ambiental líquido está a baixar e se têm uma estratégia, com prazos, para substituir a dependência de um modelo de crescimento linear por fontes de rendimento social e economicamente sustentáveis e resilientes ao clima. «Nenhuma grande empresa mostrou que está a perseguir qualquer um destes objetivos», garante a organização no relatório.

Apesar da ideia de reduzir a produção se ter tornado mainstream, a verdade é que se encontra longe de estar na ordem do dia e poucas empresas publicam sequer o número total de artigos que fabricam anualmente, «o que devia ser uma prática comum na indústria, assim como a publicação da quantidade de produtos não vendidos».

[©Zara]
Quatro empresas (7%) – a Adidas, a Bestseller, a Desigual e a VF Corporation, que detém a The North Face, a Timberland e a Supreme – divulgaram os valores anuais de produção de novos produtos. Já a Inditex revelou a sua produção em termos de toneladas em vez de artigos individuais. Em 2020, o grupo que detém a Zara, a Bershka e a Massimo Dutti, entre outras marcas, avançou ter produzido 1,6 mil milhões de artigos, tendo agora anunciado, relativamente a 2021, ter produzido o equivalente a 450.146 toneladas de produtos.

A Adidas indicou ter fabricado 938 milhões de unidades de vestuário, calçado, acessórios e equipamentos, enquanto a VF Corporation assumiu uma produção de 400 milhões de unidades. A Desigual, por seu lado, produziu 16 milhões de artigos em 2021, uma redução face às 19 milhões de unidades em 2018, mas esta baixa, esclarece a Remake, «deveu-se a um declínio não intencional das vendas».

Já os conglomerados do luxo «são ainda menos transparentes em relação aos seus volumes de produção, preferindo, talvez, projetar a noção de que os produtos de luxo são ainda feitos de forma artesanal e em pequenas produções», explica a Remake. Contudo, de acordo com o Fashion Transparency Index da Fashion Revolution, que é citado no relatório, a Fendi, uma das 75 casas de moda do grupo LVMH, fabrica anualmente 3 milhões de artigos. «Embora as empresas de luxo produzam menos por volume de vendas do que o mercado de massas e as empresas de fast fashion, ainda fazem uma quantidade impressionante de artigos», aponta a Remake.

«Embora poucas empresas sejam transparentes em relação aos seus volumes de produção, os dados que temos são mais do que suficientes para mostrar a realidade de que a moda ainda está construída à volta da sobreprodução de vestuário», conclui a Remake.