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Grécia quer estar na moda com a seda

Soufli, cidade grega adormecida e isolada, tem sido um centro de produção de seda desde o século XIX. Com o regresso da matéria-prima às passerelles mais importantes do mundo, os gregos querem aproveitar a sua história e conhecimento para chegar aos designers de alta-costura.

Dentro da fábrica Mouhtarides, ocupada por máquinas, perto da fronteira que separa a Grécia da Turquia, Ioanna Pistola coloca, habilmente, um fio de seda no tear, ignorando o barulho ensurdecedor ao seu redor. «Trabalho neste lugar há 20 anos», revela a tecelã à AFP. Soufli foi a primeira localidade da Europa a criar bichos-da-seda, depois de estes terem sido contrabandeados a partir da Índia, pelos monges do Império Bizantino, no século VI. A seda, produzida dentro de portas, foi a fonte de sustento da cidade de cerca de 4 mil habitantes durante décadas, ainda que o número de fábricas tenha diminuído.

Atualmente, garantem os últimos dois produtores ativos da cidade, a seda é destaque nas passerelles mais importantes do mundo e a procura dos designers pela matéria-prima é cada vez maior. «Soufli está a tentar entrar no mundo da moda. Não existe alta-costura sem seda», afirma Yiorgos Tsiakiris, dono da fábrica epónima. «A grande vantagem desta região é a sua longa experiência com a sericultura, ou a produção de seda e criação de bichos-da-seda. Foi aqui que a seda começou a ser produzida na Europa… Deveríamos explorar esta vantagem», considera. O seu local de produção não é longe da fábrica Mouhtarides, onde a diretora de marketing Despina Bakarou realça, igualmente, a necessidade de existir uma ação concentrada para aproveitar ao máximo as atuais tendências. «A seda está de volta. Os designers de moda querem-na. Estamos a tentar maximizar a quantidade e qualidade da nossa produção», revela.

Alimentados pela experiência

A seda desempenhou um papel na história familiar de praticamente toda a gente que nasceu em Soufli. «Todas as famílias estavam ligadas a seda», assegura Matina Lekka, reformada, cuja mãe trabalhou na Givre antes de esta fechar nos anos 60. No seu apogeu, a empresa, fundada por dois irmãos judeus, Bohor e Eliezer Givre, exportava seda para cidades francesas como Lyon ou Bordéus. No entanto, depois da Segunda Guerra Mundial, a indústria têxtil passou a optar por matérias-primas sintéticas, como a poliamida, e toda a infraestrutura que sustentava a produção mais importante da região caiu no desuso. Contudo, a quebra mais profunda aconteceu em 1990, com a abertura do mercado da seda. As duas empresas da cidade exportam atualmente vestuário de seda e artesanato para a Bulgária, a Eslováquia e o Chipre e dão resposta a pedidos de designers britânicos.

China abre portas

Ainda que as duas fábricas produzam em pequenas quantidades, a maior parte da seda que utilizam vem da China. Agora, refere Yiorgos Tsiakiris, há uma oportunidade real para a sericultura europeia voltar a ganhar terreno, já que o aumento da industrialização chinesa conduziu a um declínio da produção rural de seda. «Há uma maior procura por seda e há uma escassez de produção. Nos últimos anos, a China abdicou de milhares de hectares de amoreiras e os cidadãos estão a sair de áreas rurais», explica.

Na Grécia, Soufli está rodeada de 300 hectares de arvores de amoreiras – as folhas das quais alimentam os bichos-da-seda – providenciando uma grande abundância de material em cru à espera de um ressurgimento. Cada casulo de um bicho da seda pode render um fio de seda de cerca de 2,5 quilómetros de comprimento. «Há milhares de amoreiras. É uma base para se crescer», admite Yiorgos Tsiakiris. Com estas árvores, pode emergir uma colheita suficiente de bichos-da-seda em cerca de três anos, aponta o empresário. «Há investidores europeus à espera, prontos para gastar cerca de 20 milhões de euros aqui», adianta, sem citar nomes. «Há um grande interesse. Estas pessoas estão preocupadas com o futuro da sericultura na China», sublinha.

A necessidade de crescer

Para se desenvolver, a cidade também necessita de uma bobinadeira de seda de tamanho industrial. A Hermès Foundation, a fundação do grupo de luxo mundial, financiou recentemente a compra de uma pequena unidade, que se revelou insuficiente para dar resposta a uma produção em massa. Como resultado, os casulos têm que ser enviados para Itália. Os investidores chineses também estão a demonstrar interesse. Aliás, um grupo de chineses visitou a região, em junho, com o Ministro da Economia grego, Stergios Pitsiorlas.

Com quatro museus locais já dedicados à indústria da seda, a cidade está também preparada para se desenvolver enquanto destino turístico. A autarquia local pretende requalificar uma antiga mansão, transformando-a num hotel e num espaço de demonstração como os bichos-da-seda são criados.