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Green Circle promove Portugal sustentável

A iniciativa que junta as matérias-primas ecológicas das empresas portuguesas com o design de criadores nacionais começou em 2018 e já percorreu a Europa a mostrar Portugal como um produtor ambientalmente responsável. As paragens mais recentes foram na ISPO, em Munique, e na Première Vison, em Paris.

Um conjunto de calções com tecidos da Lemar e design de Nuno Velez, um coordenado de Ricardo Preto com malhas da Lurdes Sampaio, um vestido concebido pela Maison Alexandrine com malha da A. Sampaio & Filhos tricotada a partir de fibras recicladas pós-consumo de lã, algodão, poliamida e acrílico, ou ainda um coordenado da Confetil, composto por umas calças e camisola com capuz fabricadas a partir de 100% matérias-primas recicladas que se destacam por, no fim de vida, poderem ser facilmente separadas por fibras pelo próprio consumidor para reciclar, foram algumas das soluções apresentadas nesta edição do Green Circle que esteve na Première Vision Paris.

A iniciativa da Associação Selectiva Moda (ASM), com a colaboração do CITEVE e a curadoria de Paulo Gomes, quer afirmar «Portugal como um país onde a moda sustentável tem, não digo a sua origem, mas um porto seguro. Onde é possível os compradores de todo o mundo encontrarem produtos sustentáveis numa indústria que já tem uma tradição de qualidade», explica Manuel Serrão, CEO da ASM, ao Portugal Têxtil.

Manuel Serrão

Nesta segunda edição – a primeira começou em setembro de 2018, no Modtissimo –, o Green Circle ganhou mais valências e adaptou-se também ao universo dos têxteis-lar e do desporto. «Decidimos alargar o conceito e fazer, no fundo, três coleções: uma coleção orientada para a moda, uma coleção orientada para o desporto e uma coleção orientada para os têxteis-lar. O princípio é o mesmo: recolher materiais das empresas portuguesas que tenham diferenciais positivos de sustentabilidade e com essas peças convidar designers ou, no caso do desporto e dos têxteis-lar, as próprias empresas, a desenvolver produtos que possam ser apresentados», revela António Braz Costa, diretor-geral do CITEVE.

O Green Circle, adaptado a cada um dos certames, já se mostrou na Heimtextil, na Neonyt, na ISPO Munich e, mais recentemente, na Première Vision Paris. «Em todas as feiras tivemos muito bom feedback, talvez a área do desporto, até porque era o primeiro ano, tenha sido aquela em que os resultados, pelo menos para já, não foram tão maravilhosos como foram na área dos têxteis-lar e da moda, mas foram francamente positivos e encorajadores para o futuro», sublinha António Braz Costa.

Comunicar dentro e fora

António Braz Costa

O feedback, garantem os organizadores do Green Circle, tem sido positivo, incluindo dentro de portas. «Da primeira vez, o Green Circle não era conhecido e foi quase a convite, identificámos um conjunto de empresas e convidámo-las a participar. Agora já são elas que concorrem», adianta Cristina Castro, relações públicas do CITEVE. Além disso, «a oferta que as empresas têm no espaço de um ano é uma coisa extraordinária. Desde que começamos este processo, as amostras “verdes” que eles têm agora, comparativamente com há um ano e meio, é uma coisa que me deixa bastante orgulhoso», confessa Paulo Gomes.

No exterior, a iniciativa tem sido cobiçada por turcos e italianos, entre outros. «A palavra que mais ouvimos ao longo destas presenças foi “amazing”. Acho que as pessoas apreciaram a forma como Portugal tem vindo a mostrar a sustentabilidade do sector», afirma Cristina Castro, confidenciando que na Neonyt, por exemplo, «havia um conjunto de empresas italianas a expor que, no final da feira, pediram uma reunião com o Thimo [Schwenzfeier, diretor da feira] e disseram que para o ano queriam ter um stand igual a Portugal».

O desafio de liderar

O repto, de resto, aponta o diretor-geral do CITEVE, é manter a iniciativa viva e na vanguarda. «Quando um país está à procura de atingir o patamar de outros países, se não conseguir amanhã e só conseguir daqui a um ano, desde que esteja a aproximar-se, está no bom caminho. Quando é um país como Portugal, que neste aspeto está numa certa vanguarda, a responsabilidade é muito grande, porque sermos apanhados por outros é perder essa posição de destaque», assume. «O que significa que esta iniciativa perderá todo o seu interesse se não houver uma aposta forte na manutenção do princípio e também de termos capacidade para convencer as feiras a dar-nos um espaço interessante. Esta exposição, se for num sítio menos nobre, passa completamente despercebida», acrescenta.

O futuro do Green Circle passará também por alargar a forma como comunica a sustentabilidade da produção portuguesa ao início da cadeia de valor. «Faz sentido, para além das peças, fazer um showroom de tecidos mesmo, com uma forma nova e apelativa de explicar o que esses tecidos têm de sustentáveis», considera António Braz Costa.

«Outra evolução que acho que o CITEVE tem pensado, e muito bem, é alargar também para as outras áreas onde estamos: automóvel, segurança, medicina,… para as outras áreas dos têxteis técnicos onde estamos, porque também aí começa a haver oferta de produtos sustentáveis. A ideia é que o Green Circle cresça em qualidade, em conteúdo, mas também em áreas de atuação», acredita Manuel Serrão.

Paulo Gomes e Cristina Castro

Integrar mais empresas, nomeadamente no final do processo produtivo, faz igualmente parte dos planos. «Pensamos que a área da confeção, que também é importante, precisa de estar um pouco mais alinhada com esta estratégia e ela própria apresentar soluções. Já temos algumas [empresas de confeção], mas queremos mais», refere Cristina Castro.

«Este sistema é um sistema orgânico, é um sistema vivo, e vai-se adaptando. Não somos só nós, todas as peças se mexem ao mesmo tempo. E essa articulação faz-nos também apontar alguns caminhos. Estas experiências que estamos a ter, com erros, com orgulhos, com feedbacks positivos e outros que estamos a ajustar, são peças que se encaixam e temos que ver como é que a gente se encaixa da melhor maneira para chegar de forma assertiva aos clientes e ao consumidor final», resume Paulo Gomes.

Quanto à divulgação, a ideia é manter a presença nas mesmas feiras internacionais – «na Neonyt de certeza, já está decidido, na Heimtextil de certeza, na ISPO de certeza, na Première Vision vamos ver, depende da localização que nos derem, mas em princípio sim», enumera Braz Costa – e atingir o grande objetivo de posicionar Portugal como a referência na sustentabilidade. «Gostava que, da mesma maneira que Itália ganhou o epíteto do grande país da moda, Portugal, a médio prazo, ganhasse o epíteto do grande país da produção sustentável e responsável. Tenho essa ambição. Se lá vamos conseguir chegar ou não, não sei. Agora sei que, em tudo o que depender de nós, o CITEVE vai fazer tudo para conseguir posicionar Portugal como uma referência na área da sustentabilidade têxtil», conclui António Braz Costa.