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Grexit afeta luxo

A possível saída da Grécia da Zona Euro e o regresso do dracma pode afetar seriamente a indústria de moda de luxo, não de uma forma direta mas causada pelo impacto e a instabilidade que potencialmente trará aos grandes mercados mundiais como a Europa, os EUA e até a China.

A relação entre a Grécia e os credores nos últimos meses parece algo saído de uma tragédia de Sófocles. No drama da potencial saída da Grécia da Zona Euro, as fronteiras foram marcadas, foram tomados lados e o Primeiro-Ministro grego, Alexis Tsipras, chamou às táticas do Eurogrupo «chantagem» e «ultimatos», o que lhe valeu uma resposta ríspida do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker: «não se deve cometer suicídio porque se tem medo de morrer».

Em apenas alguns dias, as negociações para salvar a Grécia da insolvência caíram em desgraça. A “tragédia” começou a desenrolar-se há mais de uma semana, quando Tsipras rejeitou a nova posição dos credores para alargar o pacote de resgate do país, antes de pedir que a proposta fosse a referendo no país no fim de semana passado. Mas os líderes do Eurogrupo tornaram claro que se a Grécia continuar a recusar as medidas de austeridade que vêm com a proposta de resgate, será impossível para o país manter-se na Zona Euro. Como referiu Angela Merkel, chanceler da Alemanha, o referendo resume-se a uma decisão entre «o euro e o dracma».

Entretanto, os bancos continuam fechados, enquanto o euro, que está já no valor mais baixo dos últimos sete anos em comparação com a libra, continua a cair. Com as discussões sobre a crise da dívida a não irem a lado nenhum, a saída da Grécia parece ser o cenário mais provável. O Business of Fashion analisou, ainda antes dos resultados do referendo – que trouxe a vitória do “não” – o impacto que o chamado “Grexit” pode ter para a indústria da moda de luxo. Se a Grécia decidir regressar ao dracma, a moda do luxo não irá ser muito afetada pela agitação no país, tendo em conta a sua reduzida importância para a indústria.

A Grécia não tem nem muito envolvimento na produção de artigos de luxo, nem uma parte significativa no consumo. O rendimento disponível do país tem caído sustentadamente desde que a economia entrou numa espiral descendente em 2009 e foi ainda mais reduzido com as severas medidas de austeridade que estão em vigor desde 2012. «Uma saída da Grécia não é particularmente relevante em si própria», afirma Luca Solca, diretor-geral de bens de luxo no BNP Exane Paribas, que confirma que a Grécia não é um mercado significativo para a indústria de moda de luxo. «O que vai ser relevante para os bens de luxo é o potencial de implicações alargadas que pode ter em termos de correção do mercado de paridades», explica.

Com efeito, uma saída da Grécia da Zona Euro terá um impacto inevitável no mercado bolsista do continente e na moeda dominante. O potencial golpe da recusa da Grécia de aceitar um resgate foi já sentido na segunda-feira da semana passada, quando os mercados bolsistas caíram em resposta aos eventos do fim de semana anterior. O destino da Grécia não se irá desenrolar em isolamento. Outros mercados serão suscetíveis de contágio, algo a que a indústria de moda de luxo não poderá escapar. As opiniões financeiras concordam no geral que o efeito da Grécia na economia mundial tem sido suavizado até agora. «Os mercados ainda estão agarrados à ideia de que a Grécia pode decidir não sair e, como consequência, há ainda um pouco de tempestade num copo de água», refere Solca.

Contudo, este analista acreditava, ainda antes do referendo, que com o “não” o impacto no valor da moeda e nos mercados em todo o mundo seria mais extremo e poderia ser sentido pela indústria de moda de luxo. A força com que a indústria da moda pode ser afetada vai depender de quão bem os líderes europeus forem capazes de controlar a saída da Grécia, segundo Solca. «O que acontece à indústria de bens de luxo tem muito a ver com quão severa for a perturbação no mercado», aponta. Contudo, muitos meses de discussão e inúmeros avanços e recuos entre o país e os seus credores pode significar que a Europa está, pelo menos, preparada para um “Grexit”. David Cameron, o Primeiro-Ministro britânico, já confirmou no passado que está a preparar planos de contingência para uma situação como essa, enquanto Solca espera que o Banco Central Europeu e os seus parceiros possam tentar criar uma espécie de “firewall” que possa evitar que outros países sejam contagiados se a Grécia sair.

Mas mesmo com medidas para controlar os danos no resto da Europa, a indústria de moda de luxo ainda deve contar com uma quebra nas vendas. Tempos de instabilidade económica sempre estiveram correlacionados com a quebra no consumo discricionário. «O negócio do luxo é um negócio que está ligado ao crescimento económico», reconhece Mario Ortelli, analista sénior de bens de luxo na Sanford C. Bernstein, que explica a importância do “negócio da felicidade” para a indústria de moda de luxo, que prospera quando as pessoas se sentem numa posição de comprar produtos que na verdade não precisam. «Se os mercados financeiros entrarem numa crise e as coisas se tornarem instáveis, os bens de luxo não estão no topo da lista de coisas a comprar», indica.

A indústria de moda de luxo não verá apenas uma quebra das vendas junto dos clientes europeus. Uma saída da Grécia iria criar ondas que se estenderiam a todo o mundo, sustenta Solca, com os efeitos transmitidos predominantemente através dos mercados bolsistas. Nos EUA, por exemplo, seria previsível ver uma correção em baixa significativa, já que o mercado bolsista está ligado ao Europeu. Isso assinalaria uma quebra no consumo discricionário americano e uma quebra nas vendas de moda de luxo também nessa região. A indústria também registaria uma quebra das vendas na China, acredita Solca, embora esta demorasse mais tempo a acontecer. Inicialmente, como o mercado chinês está menos interligado com os mercados bolsistas da Europa e dos EUA, o país e o seu consumo discricionário estaria protegido.

Mas com o enfraquecimento do crescimento dos dois principais clientes do país, a China iria sentir um impacto subsequente. Mario Ortelli considera que o impacto da desvalorização do euro teria uma segunda grande consequência para a indústria de moda de luxo na forma de política de preços. As marcas de moda de luxo estão essencialmente sediadas na Zona Euro e conduzem os seus negócios em euros, mas a maioria dos clientes vêm de outras partes do mudo. «Qualquer grande oscilação no valor do euro em comparação com outros países vai ativar uma mudança no diferencial de preço entre as diferentes moedas», refere Ortelli. As empresas teriam de enfrentar potenciais desequilíbrios nos preços dos seus artigos em diferentes países. Teriam de rapidamente tomar uma decisão entre subir os preços na Europa ou reduzi-los noutros locais, explica Ortelli. Sobretudo para clientes na Ásia, os produtos com preços em euros – se as marcas não fizerem nada para ajustar as discrepâncias entre moedas – iriam tornar-se extremamente atrativos.

Com uma reação mais limitada nos seus mercados a uma saída da Grécia, as empresas de moda de luxo poderiam ver um aumento nas vendas dentro da Europa a clientes fora da Zona Euro. «Não se compra uma lata de coca-cola na Alemanha porque custa menos aí do que custa em libras, mas se estiver preparado para comprar uma carteira Chanel de 3.000 euros, pode pensar em passar um fim de semana às compras em Paris», resume Ortelli.