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Grupo LVMH com uma moral de aço

«Deve-se desconfiar das análises sectoriais sobre o luxo», aconselhou Bernard Arnault aos seus accionistas, reunidos no passado dia 15 de Maio no Carrousel du Louvre para a Assembleia Geral mista do grupo LVMH. Para se diferenciar de certos concorrentes atingidos pela conjuntura, o presidente e director-geral do líder mundial do luxo avançou com resultados relativos a 2002 bastante satisfatórios, tendo em consideração a agitação do ano. O volume de vendas aumentou 4%, para 12,7 mil milhões de euros, os resultados operacionais progrediram 29%, para pouco mais de 2 mil milhões de euros e os resultados líquidos correntes cresceram 143%, para 818 milhões de euros. Em 2001, os resultados operacionais e líquidos tinham todavia diminuído respectivamente 20,3% e 98,4%. Como ainda sublinhou Bernard Arnault, o conjunto das actividades do grupo, à excepção da relojoaria e joalharia, ainda em fase de investimento e cujo os resultados operacionais de 2002 apresentam perdas na ordem dos 13 milhões de euros (contra ganhos de 27 milhões de euros em 2001), contribuiu para a progressão dos resultados operacionais. Entre os que se portam melhor estão os vinhos e as bebidas espirituosas, que vêem os seus resultados operacionais crescerem de 10,9%, a 750 milhões de euros, os perfumes e os cosméticos (+8%, para 161 milhões de euros), assim como a distribuição selectiva, que passa de perdas operacionais de 213 milhões de euros em 2001 a ganhos de 20 milhões de euros em 2002. De forma menos aparatosa, o sector da moda e da marroquinaria vê os seus resultados operacionais progredirem 1,8%, para 1,2 mil milhões de euros. Orgulhoso dos resultados, Bernard Arnault, que sublinha que o seu grupo continuou a ganhar quotas de mercado mesmo em período de crise, sustenta «uma previsão de sensível crescimento para 2003». Contudo, os resultados de primeiro trimestre de 2003 não deram ao grupo razões para regozijo: o seu volume de negócios consolidado recuou 5,2%, para 1,06 mil milhões de euros. Os sectores mais afectados foram a relojoaria e a joalharia (-79,5%), os vinhos e bebidas espirituosas (-10,9%) e a distribuição selectiva (-4,5%). A moda e marroquinaria, assim como os perfumes e cosméticos foram os que menos sofreram (-1,6% cada um). Mas, para o presidente e director-geral, as actuais turbulências não deverão afectar a boa saúde dos seus negócios em 2003 mais do que as registadas em 2002. A guerra do Iraque? «A crise foi resolvida rapidamente e as consequências já ficaram para trás», afirma Bernard Arnault, que elimina igualmente os riscos de boicote dos seus produtos por parte do mercado americano. «Seria necessária uma situação difícil e durável para que tal se verificasse. Aquando da retoma dos ensaios nucleares franceses no Pacífico, já tinham sido feitas ameaças de boicote, sem todavia terem tido qualquer seguimento», recorda. Outro risco, eliminado por Bernard Arnault: a desvalorização do dólar em 2003, contornada graças a «uma boa cobertura do risco cambial». A pneumonia atípica poderá prejudicar o bom andamento do grupo? Também neste caso, o presidente e director-geral da LVMH aposta num controlo rápido da crise – à priori dentro de três meses – e relativiza o impacto da epidemia. Bernard Arnault explica ainda que a zona geográfica onde o vírus principalmente se manifesta – o sudeste asiático – representa apenas 6% do volume de vendas do grupo. Mas reconhece que a curto prazo, o receio da doença originou a diminuição do turismo japonês na região e afectou o tráfego aéreo mundial e, por conseguinte, as vendas das lojas dos aeroportos. Segundo o presidente e director-geral do grupo, este contratempo não deveria impedir a rede de lojas do duty free Dfs de atingir os seus objectivos de rentabilidade programados para 2003. «Estamos habituados a enfrentar crises e conseguiremos ainda ultrapassar o ponto morto em que nos encontramos neste caso, renegociando por exemplo o aluguer nos aeroportos», adianta. Por fim, Bernard Arnault relata que, apesar da crise, a Louis Vuitton apresentou um crescimento das suas vendas em Hong Kong na semana prévia à Assembleia Geral, enquanto que as «marcas concorrentes retrocediam 50%». De modo geral, a Louis Vuitton, assim como o sector dos vinhos e das bebidas espirituosas, registou um aumento de dois algarismos em Abril, uma tendência em via de confirmação em Maio. Preocupado em tranquilizar os mercados e os accionários, o presidente e director-geral da LVMH garantiu que a prioridade actual é a melhoria da rentabilidade do grupo, conjugando os investimentos selectivos e o prosseguimento da cessão de activos não estratégicos. Assim, anuncia «uma grande prudência no lançamento e no apoio das marcas adquiridas mais recentemente pelo grupo, destinadas a serem a reserva de crescimento das actuais marcas célebres. Não se trata de abrir mais lojas a qualquer preço, mas de investir onde podemos resgatar uma certa rentabilidade». Entre as marcas do futuro sobre as quais a LVMH mais aposta está a marca italiana Fendi, na qual o grupo acaba de aumentar a sua quota de 67% para 84%, mediante um investimento de 190 milhões de euros. «Após algumas tentativas, encontramos finalmente o modelo de desenvolvimento conveniente para esta marca, que deverá inspirar-se dos modelos da Louis Vuitton e da Dior. Mas para isso, é necessário tempo», explica. Colocada sob a responsabilidade de uma nova gestão, a marca Fendi, que reestruturou as suas actividades em Itália e readquiriu a sua rede de distribuição no sudeste asiático, iniciou um trabalho de reforço da qualidade desta última (584 lojas no fim de 2002), com um programa de renovação muito importante para os dois próximos anos. A abertura de uma loja própria está igualmente prevista para 2003, em Tóquio-Omotesando. Interrogado por um accionista sobre o destino de Kenzo e de Lacroix, marcas “esquecidas” no plano publicitário, Bernard Arnault respondeu que «preferia primeiro pôr o motor a funcionar perfeitamente, antes de carregar no acelerador», e declarou que, quanto à Christian Lacroix, continuaria a auxiliar a sociedade como já o tem feito desde há alguns anos. No momento em que o criador acaba de ser nomeado director artístico de Pucci, uma outra aquisição do grupo, o relatório anual da LVMH revela que a maison Lacroix prosseguiu com sucesso a sua implantação no Japão, onde já possui mais de 20 lojas. Um país no qual Marc Jacobs, outro criador no seio do grupo desde 1997, também confirmou a sua dinâmica em 2002, com a abertura de uma global store em Tóquio. Além do mais, esta marca acaba de estabelecer o desenvolvimento de uma rede de distribuição na Ásia, nomeadamente em Hong Kong. «A Sephora, que tinha encerrado as suas actividades no Japão e na Alemanha no fim de 2001 e em 2002, deve tornar-se rentável em 2003 nos EUA», anuncia Bernard Arnault. Tendo voltado a ser lucrativa no seu conjunto, o pólo de distribuição selectiva não deveria fazer parte de um processo de cessão a curto prazo, apesar dessa separação ter sido evocada no caso de reestruturação do pólo. «A sua recuperação está bem encaminhada, mas temos ainda que atingir um nível de valorização optimal. Não colocaremos a hipótese de uma cessão antes de dois ou três anos», admite. Para ajudá-lo a construir amanhãs ainda felizes, Bernard Arnault propôs aos accionários a entrada no conselho da LVMH de novos administradores: Jacques Friedmann, ex-dirigente de múltiplos grandes grupos franceses (Air France e UAP) e ex-presidente do conselho de administração da AXA e Arnaud Lagardère, presidente e director-geral do grupo Lagardère, fundado pelo seu pai, e presente na aeronáutica, nos médias e na edição.