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Guerra aberta ao plástico

Apesar das medidas governamentais no combate às embalagens e aos plásticos descartáveis, a indústria petroquímica está em crescimento. O Japão, que acolhe a cimeira do G20 no final deste mês, quer ser um dos pioneiros na luta contra os plásticos.

O Japão quer fazer da redução dos resíduos de plástico presentes nos oceanos uma prioridade na cimeira do G20, que decorre no final de junho no país, numa altura em que os governos de todo o mundo lutam contra a poluição, noticia a Reuters. Imagens de resíduos de plásticos em praias e estômagos de animais com plástico desencadearam uma onda de indignação, com muitos países, incluindo mais de duas dúzias em África, a proibirem totalmente a utilização de sacos de plástico.

A União Europeia (UE) interditou a venda de 10 artigos de plástico de uso único, incluindo palhinhas, garfos e facas, até 2021. A UE definiu ainda 2030 como data limite para acabar com as embalagens de plástico descartáveis.

As medidas estão a gerar indignação na indústria petroquímica, que está a investir milhões de euros em novas unidades para produzir mais plástico e outros produtos petroquímicos, particularmente na Ásia. Empresas como a Reliance Industries, da Índia, ou a Sinopec, da China, estão à procura de novas fontes de rendimento, numa altura em que os carros elétricos são cada vez mais populares e a procura por gasolina e gasóleo diminui. «Se o mundo caminhar em direção aos objetivos da UE, alguns mercados que estão em grande crescimento podem passar a crescer lentamente ou a não crescer de todo. Pode afetar o lucro», admite Jeff Brown, presidente da consultora energética FGE em Singapura. Já Shinzo Abe, primeiro-ministro do Japão, pretende que o seu país lidere o caminho rumo à redução de plástico presente nos oceanos, incluindo no desenvolvimento de produtos biodegradáveis e de outras inovações.

À Reuters, dois membros oficiais da organização da cimeira, referem que o evento, que decorre entre 28 e 29 de junho em Osaka e que juntará os líderes das grandes potências económicas, como a China, Brasil, França e EUA, não irá gerar um acordo com objetivos ou passos concretos. O resultado mais provável é que os ministros ambientais dos países proponham formas de agir, mas de uma forma vaga, tendo como base um «plano de ação» para reduzir o plástico nos oceanos, já introduzido na cimeira que decorreu em 2017, na Alemanha.

O valor do plástico

O Japão, ainda que não seja dos maiores poluidores, é o segundo maior consumidor do mundo de embalagens de plástico por pessoa, atrás apenas dos EUA. Os vegetais e a fruta vendidos nos supermercados japoneses são normalmente embalados em plástico, muitas vezes individualmente. A importância cultural atribuída à higiene, aos cuidados no embalamento e à compra de produtos em pequenas porções contribui para a problemática. O governo japonês está a trabalhar em legislação que exija aos retalhistas que cobrem monetariamente os sacos de plástico aos clientes – algo que muitos supermercados já fazem.

Nos Jogos Olímpicos de 2020, que também terão lugar no Japão, o país pretende que alguns dos produtos sejam feitos de plástico reciclado, numa tentativa de chamar à atenção dos consumidores para a problemática. Os ativistas afirmam que, apesar de a reciclagem e a proibição dos artigos de uso único serem medidas necessárias, reduzir o plástico em si é crucial. «Há uma ideia errada que podemos resolver tudo com a reciclagem», explica Neil Tangri, consultor da Global Alliance for Incinerator Alternatives. «O meu receio é que [os líderes do G20] digam que a poluição de plástico não é o problema, mas sim a gestão do lixo. Na verdade, o plástico é um problema que temos de resolver diretamente na fonte», assegura.

Em 2015, o mundo produziu cerca de 380 milhões de toneladas de plástico, segundo uma investigação publicada na Science Advances. O Banco Mundial refere que os seres humanos geraram 242 milhões de toneladas de lixo de plástico em 2016. Cerca de 55% do lixo de plástico foi descartado em 2015, 25% incinerado e 20% reciclado. Porém, o material foi introduzido aos consumidores em 1950, e, por isso, apenas 9% do total de plástico foi reciclado, aponta o mesmo estudo publicado na Science Advances

Para onde vai o plástico?

Combater a poluição de plástico tornou-se uma prioridade global depois de a China, que recebia grande parte do lixo mundial, banir as importações no início de 2018. Barcos carregados de resíduos de plásticos foram encaminhados para a Malásia e para outras nações do sudeste asiático, sobrecarregando-as. No mês passado, a Malásia enviou 3 mil toneladas de lixo de volta para os países de onde este veio. A Ásia é também um dos maiores contribuidores para as cerca de 8 milhões de toneladas de lixo de plástico que acaba nos oceanos anualmente, de acordo com um estudo publicado na Science.

Os cinco principais contribuidores para o plástico presente nos oceanos estão na Asia – a China e a Indonésia (ambos membros do G20), seguidos pelas Filipinas, Vietname e Sri Lanka, indica o estudo.

O plástico usado mais comummente não é biodegradável. Com o tempo no oceano e a exposição à luz solar, desfaz-se em pequenos elementos designados microplásticos, que são ingeridos pelas criaturas marítimas. Já foi encontrado plástico inclusive na fossa das Marianas, no Pacífico, o ponto mais fundo dos oceanos.

Futuro com mais plástico

A produção de plástico deverá crescer, particularmente na Ásia. As principais empresas petrolíferas, incluindo a Sinopec, a Reliance, a Petronas, da Malásia, e a Hengli Petrochemical, da China, estão a investir milhões de dólares em novas instalações. Procuram oportunidades de produção de químicos e materiais para dispositivos eletrónicos, canalização, embalagens e têxteis.

Sinopec

As embalagens, uma categoria que inclui tudo desde sacos de plástico até ao plástico bolha, representam 44% da produção de plástico, segundo estimativas da indústria. As políticas governamentais poderão diminuir essa procura – algo que as empresas dizem estar a monitorizar de perto. «Se o mundo continuar a proibir sacos de plástico ou palhinhas, as nossas vendas poderão diminuir», reconhece um responsável de uma empresa da Coreia do Sul, que recusou ser identificado, à Reuters. «No entanto, os plásticos ainda são muito usados no sector industrial… e a procura dos países em desenvolvimento está a crescer. A longo prazo, procuramos desenvolver materiais amigos do ambiente e plásticos», revela.

A indústria petroquímica do Japão quer cooperar no combate aos problemas ambientais, garantiu Takashi Tsukioka, diretor da Associação Petrolífera do Japão, numa conferência de imprensa, em maio último. No entanto, o responsável alertou que substituir palhinhas de plástico por palhinhas de madeira poderá conduzir à deflorestação. «Em primeiro lugar, deveríamos focar-nos na separação e na reciclagem, que o Japão tem vindo a fazer, e em procurar opções mais abrangentes, em vez de optarmos rapidamente por uma. No fundo, deveríamos promover a inovação», defendeu.