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Guerra comercial beneficia ITV da Guatemala

Um crescente número de marcas que tinham a China como principal destino de sourcing estão a rumar à América Central, designadamente à Guatemala, impulsionando o investimento e contribuindo para uma melhoria das perspetivas de crescimento da indústria têxtil e vestuário da região.

Este ano, a indústria têxtil e vestuário (ITV) da Guatemala deverá crescer 10% em vendas, para 1,8 mil milhões de dólares (cerca de 1,6 mil milhões de dólares), noticia o just-style.com. A estimativa surge numa altura em que a guerra comercial entre os EUA e a China tem vindo a beneficiar a América Central. Simultaneamente, países vizinhos, como Honduras e Nicarágua, também contribuíram para o crescimento do sector, ao comprarem mais têxteis na Guatemala para produzirem vestuário com destino aos EUA. «Este ano, mais marcas pediram encomendas mais reduzidas e de nicho», revela Lucia Palacios, diretora de marketing da Vestex, a associação da indústria têxtil e de vestuário da Guatemala.

O crescimento

Segundo a Vestex, a indústria poderá igualar este ano o forte crescimento de 2018, numa altura em que mais marcas estão a deixar de produzir na China e mais nações da América Central compram têxteis na Guatemala – uma tendência que tem vindo a crescer nos últimos três anos. A Guatemala exporta atualmente 60% do seu vestuário para norte da fronteira e 40% para países vizinhos, especialmente Honduras e Nicarágua, onde confrontos políticos têm vindo a abalar a produção. Em 2019, os envios de têxteis em poliéster deverão crescer 16%, enquanto as exportações de vestuário para os EUA poderão aumentar 6%.

As exportações de vestuário da Guatemala com destino aos EUA subiram 9,2% em 2018, atingindo os 1,458 mil milhões de dólares, em relação aos 1,335 mil milhões de dólares de 2017, segundo o Departamento do Comércio dos EUA.

O vestuário expedido da Guatemala para os EUA beneficia de isenção fiscal, devido ao Tratado de Livre Comércio entre EUA, América Central e República Dominicana. O vestuário que ruma à União Europeia (UE) também é isento de impostos, devido ao Acordo entre a América Central e a UE.

Durante a mais recente edição do Apparel Sourcing Show, na Guatemala, o governo anunciou que o grupo Karim, a SAE-A e a Tejidos Imperial vão investir 200 milhões de dólares, 70 milhões de dólares e 25 milhões de dólares, respetivamente, para impulsionar o crescimento dos têxteis técnicos no país, nomeadamente nos fios sintéticos necessários para produzir vestuário de valor acrescentado, incluindo sportswear.

Cadeia de aprovisionamento integral

Enquanto as empresas guatemaltecas confiam que mais marcas irão chegar até si, os empresários acreditam que são necessários cerca de 10 mil milhões de dólares de investimento para potenciar a produção de fios sintéticos e criar uma cadeia de aprovisionamento mais completa.

«A Nike quis produzir mais activewear na região, mas não pôde e teve que cancelar algumas encomendas», conta Frederico Zimeri, proprietário da empresa Indústria Textil, que produz o denominado Eco Yarn. O Eco Yarn, que é usado pela Walmart e pela The North Face, já existe há várias gerações, daí ser conhecido pelas instituições bancárias do país, que lhe facilitam a concessão de empréstimos.

Hipoteca a tua vida

Na Guatemala, muitas empresas têm dificuldades em obter financiamento, especialmente de bancos do país que pedem várias garantias para concederem empréstimos mais avultados, afirmam os empresários. «Nem o governo nem os bancos apoiam a indústria», assegura Seung Hee Kim, presidente da Startex. Recentemente, Seung Hee Kim tentou negociar um empréstimo de 30 milhões de dólares com um banco local, mas a instituição bancária recusou, frisando que apenas aprovaria um empréstimo de 10 milhões de dólares, a seis anos, e pedia garantias totais.

A Startex está em fase de crescimento para aumentar a produção de fios sintéticos, com o objetivo que as receitas cheguem aos 50 milhões de dólares, em três anos.

Contudo, Seung Hee Kim considera que a expansão futura poderá ser afetada porque alguns bancos, incluindo o Banco Industrial, continuam a afastar-se da indústria têxtil. «Estamos a financiar tudo, passo a passo, com as nossas próprias receitas. Os bancos não concedem empréstimos para a indústria têxtil e, em vez disso, preferem ajudar a centros comerciais e o mercado imobiliário», explica.

Parcerias com marcas

Os empresários garantem que a melhor forma de as empresas da Guatemala obterem capital para crescimento é encontrar marcas internacionais que estejam interessadas em crescer com as empresas. «Os EUA impuseram uma taxa entre 32% a 35% em têxteis de poliéster, por isso, as empresas asiáticas querem poupar esse valor, produzindo na Guatemala e exportando para os EUA, livres de impostos», explica Seung Hee Kim. «A China está a apostar na produção para a sua própria indústria, por isso, esta parte do mundo está a crescer», resume.