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Guerra na Ucrânia afeta aprovisionamento

Seja na moda, na indústria automóvel ou na alimentação, o conflito na Ucrânia está a provocar interrupções nas cadeias de aprovisionamento mundiais, com implicações em diferentes áreas da economia que deverão ainda desencadear uma mudança no comportamento dos consumidores.

[©Unsplash/Galen Crout]

A indústria e o mercado foram imediatamente afetados pela invasão da Ucrânia pela Rússia, com as empresas a reverem as suas projeções para 2022 devido ao aumento dos preços dos combustíveis, do gás e das commodities, levando a que esta crise regional tenha repercussões globais, aponta o WGSN.

Inicialmente, as previsões para este ano eram otimistas, graças ao alívio das restrições relacionadas com a pandemia, que estava a impulsionar a confiança dos consumidores, mas a invasão da Ucrânia tornou o mercado volátil, com os mercados mais vulneráveis a sofrerem mais.

A análise do gabinete de tendências WGSN em conjunto com especialistas no retalho e na indústria mostra que, «com a continuidade do conflito, as empresas devem preparar-se para interrupções na cadeia de aprovisionamento (principalmente nos sectores automóvel e de tecnologia), o que poderá alterar os hábitos do consumidor. Nesse cenário, será fundamental utilizar modelos de previsão adaptáveis para lidar com as incertezas do mercado».

Impacto económico

Depois dos últimos anos de incertezas económicas agravadas por problemas no sourcing, custos operacionais voláteis e queda de confiança do mercado, o conflito entre Rússia e Ucrânia deve impactar ainda mais o PIB mundial.

[©Unsplash/Olga Subach]
«As implicações económicas ainda não são claras, mas os países já estão a preparar-se para lidar com elas», revela o WGSN.

O foco do consumidor está sobretudo nas revisões dos índices globais de inflação. O aumento do custo de vida já era percetível antes da guerra, mas a subida dos preços dos combustíveis, gás e commodities deve elevar ainda mais os índices. Há muitas razões de preocupação, assume o gabinete de tendências, que recorda que a Rússia é o terceiro maior produtor de petróleo do mundo, enquanto as quintas da Ucrânia alimentam milhares de pessoas em todo o planeta.

«A confiança do consumidor vai ser ainda mais abalada, afetando o crescimento económico da Europa, dos EUA e da maioria das economias emergentes», acredita Ian Shepherdson, economista-chefe da consultora Pantheon Macroeconomics, citado pelo WGSN.

Consumo afetado de imediato

As implicações no retalho forçaram marcas do mundo todo a rever as suas previsões para este ano. «A curto prazo, as empresas têm de se preparar para os novos hábitos do consumidor, preocupado com os efeitos económicos do conflito», sublinha o WGSN.

Com o aumento dos preços dos combustíveis, o uso de transportes públicos deve aumentar. Em áreas onde não houver disponibilidade de transportes públicos, as pessoas vão investir na manutenção dos automóveis e conduzir mais devagar para reduzir o consumo de combustível. Os transportes públicos e as bicicletas terão mais procura, o que exigirá uma nova abordagem em relação ao design de produto. Os consumidores também vão colocar em maior consideração a necessidade de fazer deslocações, reduzindo as viagens desnecessárias e aumentando o foco nos hubs locais.

A transição para veículos elétricos também será acelerada a longo prazo, numa tentativa dos consumidores se protegerem do aumento dos preços da gasolina.

[©AutoEuropa/Luis Viegas]
O consumidor vai ainda optar pela compra de grandes quantidades de artigos do dia a dia, com o objetivo de reduzir as idas ao supermercado e economizar, indica o WGSN.

Para procurar reduzir o consumo de combustíveis fósseis para aquecimento das casas, as pessoas vão preferir investir em cobertores e vestuário de inverno.

O aumento do preço da energia elétrica deve ainda encarecer o processamento e o transporte de alimentos. As pessoas vão preferir comprar produtos para fazer stocks e legumes produzidos localmente, abrindo mão de peixes e carnes mais caras.

Dificuldades logísticas

Além de estagnar a recuperação da cadeia de aprovisionamento no pós-pandemia, o conflito aumentou os custos operacionais e os atrasos logísticos em todo o mundo. A disrupção no segmento aéreo (incluindo restrições de deslocamento e a implementação de rotas alternativas), deve tornar o cenário ainda mais caótico.

Em termos logísticos, a invasão da Ucrânia fechou os portos de Kyiv e restringiu o acesso de embarcações comerciais ao Mar de Azov, que se liga ao Mar Negro e é uma das mais importantes rotas comerciais do mundo. Empresas como a FedEx e a UPS paralisaram os seus serviços de entrega na Ucrânia e na Rússia, enquanto a alemã Deutsche Post DHL suspendeu temporariamente os serviços de entrega e envio na Ucrânia. Além disso, o espaço aéreo ucraniano está a ser evitado.

A empresa dinamarquesa Maersk deixou de operar nos portos russos, com exceção do transporte de alimentos, medicamentos e artigos humanitários. Outras empresas do segmento, como a suíça MSC e a francesa CMA CGM, estão a adotar medidas similares.

[©Wikimedia]
Já a Amazon, como parte do seu plano de apoio para a região, está a usar a sua capacidade logística para entregar artigos de primeira necessidade na Ucrânia, oferecendo também os seus conhecimentos em cibersegurança para ajudar o governo e as empresas do país.

Há ainda um forte impacto na cadeia de aprovisionamento da indústria automóvel, com grupos como a BMW e a Volkswagen a darem conta de atrasos, assim como na de bens eletrónicos, devido à falta de semicondutores, já que a Ucrânia produz cerca de 50% do gás néon do mundo, que é uma matéria-prima essencial para a produção de chips.

Ao nível da alimentação, o impacto é igualmente grande, tendo em conta que a Ucrânia é responsável por 12% das exportações mundiais de trigo e de 16% de milho, de acordo com a informação do Departamento de Agricultura dos EUA. Além disso, refere o WGSN, cerca de 90% das exportações de grãos da Ucrânia são transportadas pelo mar, o que mostra como a guerra deve afetar a disponibilidade de alimentos. Considerando que os preços dos alimentos já aumentaram por causa da crise de abastecimento, o problema deve ter consequências sociais sérias para as economias emergentes, antecipa o WGSN.

Retalho expectante

O conflito na Ucrânia está a contribuir para criar um cenário ainda mais caótico para os retalhistas, que já estavam a ter de lidar com a inflação e com problemas na cadeia logística.

Vários retalhistas encerraram as suas lojas na Rússia. O Ingka Group, dono da Ikea, interrompeu as operações, mas optou por manter abertos os centros comerciais Mega para que os russos tenham acesso a bens de primeira necessidade, como alimentos e medicamentos. O grupo também decidiu suspender todas as exportações e importações da Rússia e da Bielorrússia. Segundo a Sky News, a Rússia é o 10.º mercado da Ikea, que tem no país mais de 17 lojas.

A Hermès foi a primeira marca de luxo a anunciar o fim das suas atividades na Rússia. O grupo suíço Richemont, que detém as marcas Cartier, Net-a-Porter e Van Cleef & Arpels, seguiu a mesma linha.

[©H&M/Alexander Murashkin]
Nomes da fast fashion como Boohoo, ASOS e H&M também interromperam as operações na Rússia e fecharam temporariamente as suas lojas na Ucrânia. A H&M já anunciou que «a situação está a ser monitorizada e avaliada continuamente». A Nike, por sua vez, cita «desafios operacionais» e a «rápida escalada do conflito» para justificar a suspensão das atividades da marca na Rússia.

Para os retalhistas, incluindo aqueles que não operam na Rússia, a maior preocupação é a duração do conflito, garante o WGSN. Além de lidar com a inflação e com os problemas logísticos, muitos deles não têm saúde financeira para suportar mais uma crise. A American Eagle Outfitters está a considerar os efeitos da guerra no seu planeamento financeiro para 2022, enquanto a CEO da Kohl’s, Michelle Gass, afirmou numa teleconferência com analistas que «a empresa está preparada para um cenário de muitas incertezas». Já a Victoria’s Secret, que tem sete lojas na Rússia, fez um alerta durante a divulgação dos seus resultados do quarto trimestre de 2021, admitindo que a «volatilidade global» deve criar um ambiente difícil nos próximos meses.