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Guerras cambiais afectam vestuário – Parte 2

A última cimeira do G-20 terminou com progressos modestos na resolução das disputas cambiais. Na primeira parte deste artigo (ver Guerras cambiais afectam vestuário – Parte 1), David Birnbaum, o autor do The Birnbaum Report, uma newsletter mensal destinada à indústria do vestuário, analisou a situação da China, ficando a posição dos EUA para esta segunda parte. O caso dos EUA Os EUA estão em fraca forma económica. O desemprego é elevado. Os bancos estão com receio de emprestar dinheiro, mas as maiores corporações AAA não precisam de pedir, porque já estão sentadas em enormes montes de dinheiro. Para piorar a situação, o governo norte-americano não pode injectar dinheiro na economia na forma de projectos de infra-estruturas que possam resultar em maiores oportunidades de trabalho, porque isto não é politicamente viável. Surge a Reserva Federal (o banco central dos EUA), que embarcou numa política de flexibilização quantitativa – a compra de títulos norte-americanos e outros pelo Federal Reserve Bank –, o que se traduz na impressão de dinheiro em grande escala. A lógica aqui é que a flexibilização quantitativa pode diminuir o valor do dólar norte-americano, o que reduz o preço das exportações e, ao mesmo tempo, eleva o preço das importações, enquanto reduz as taxas de juro de longo prazo, que vai disponibilizar fundos adicionais para facilitar o fluxo de empréstimos. A questão é que os EUA e a China uniram-se para criar políticas monetárias com base na desvalorização do dólar e do yuan ao comprar grandes quantidades de dívida do governo norte-americano. Como foi referido – o tédio absoluto, depressão total e completa confusão, ao mesmo tempo gerando o medo desenfreado. Depois da introdução vem a diversão Originalmente, o monte de dólares detido pela China foi o resultado de um aumento nas exportações para os EUA. No entanto, a iniciativa conjunta dos dois países trouxe uma nova dimensão que torna o problema muito mais sério do que qualquer um dos lados reconhece. A facilitação quantitativa fornece aos bancos norte-americanos fundos adicionais para empréstimo. No entanto, fornecer recursos adicionais não significa necessariamente que os bancos vão emprestar esses recursos, especialmente num momento em que os mutuários seguros – as grandes corporações – já estão inundados de dinheiro. Além disso, mesmo que os bancos estejam dispostos a emprestar esses fundos, não implica que esses empréstimos sigam para investimentos nos EUA. De recordar que os bancos norte-americanos operam ao nível global. Quando se pensa sobre isso, num momento em que a economia dos EUA está a estagnar, as taxas de juro dos EUA estão em queda, e o dólar dos EUA está a cair, os EUA podem não ser um bom risco. É melhor ir para fora dos EUA e colocar o dinheiro num país com uma economia grande e crescente, onde as taxas de juro estejam a subir e o valor da moeda esteja a aumentar. Nestas circunstâncias, que melhor local para colocar esse dinheiro novo do que a China? Tudo isto nos leva a um círculo perfeito. • Dólares dos EUA fluem para a China • China devolve os dólares excedentes aos EUA • Os bancos norte-americanos emprestam esses dólares para investimentos na China • Dólares dos EUA fluem para a China… …então o monte chinês de dólares cresce. Danos colaterais: as vítimas inocentes Se isto fosse um problema a envolver apenas os EUA e a China, todos poderíamos relaxar e assistir os dois gigantes a resolverem a situação. Infelizmente, a política conjunta sino-americana tem um impacto sério sobre todos os outros. Os outros países industrializados (nomeadamente o Japão e os países da UE, que também dependem das exportações) viram as suas moedas valorizar, tornando as exportações menos competitivas. Os países em desenvolvimento que produzem produtos de consumo leves, como vestuário, estão a ter cada vez mais dificuldade em competir com a China, porque as suas moedas são forçadas a aumentar, em comparação com o yuan chinês e o dólar norte-americano. Ao mesmo tempo, muitos destes países viram um influxo tremendo de dinheiro – pessoas e empresas que procuram ganhar dinheiro facilmente, aproveitando os países com economias fortes, altas taxas de juro e moedas em crescimento. Esta situação não pode continuar indefinidamente. Deve haver uma solução Rumo a uma solução Ao longo do mês de Novembro do ano passado, nem os chineses, nem os norte-americanos foram capazes de trabalhar efectivamente para uma solução. Os dois lados estavam profundamente envolvidos nas suas respectivas eleições. Lamentavelmente, durante campanhas políticas, retórica e posturas tornaram-se a ordem do dia. Aqui é onde tanto os governos da China e dos EUA se levantam e dizem «isto não é minha culpa O problema é com o outro fulano que tem egoisticamente colocado os seus estreitos interesses nacionais acima do bem-estar do resto do mundo». Chineses: «Se pelo menos os EUA aumentassem as suas taxas de juros». Norte-americanos: «Se pelo menos a China limitasse a dimensão das suas reservas em moeda estrangeira». Chineses e norte-americanos: «Devemos todos trabalhar juntos para forçar os egoístas a mudar» Embora as eleições nos EUA tenham terminado, temos agora de esperar que os líderes chineses elejam os seus novos dirigentes antes de existir uma séria consideração sobre a economia mundial. O fim do problema Felizmente, o problema será resolvido, simplesmente porque a situação actual é insustentável. A China está a começar a enfrentar a inflação pela procura, o que irá causar graves perturbações económicas e dificuldades para as pessoas com menores rendimentos. A facilitação quantitativa acrescentou dois novos problemas ao dilema chinês. • Enquanto no passado os chineses tinham apenas de manter a paridade com uma moeda estável, eles devem agora manter a sua taxa de câmbio desvalorizada em relação a uma moeda que por sua vez está a ser desvalorizada. • Entre agora e Junho de 2011, a Reserva Federal planeia comprar títulos totalizando 600 mil milhões de dólares. Isto elimina qualquer vantagem que os chineses possam ter para influenciar as políticas dos EUA. O governo chinês está a ficar sem opções. À medida que o monte fica mais alto, o problema torna-se cada vez mais grave. Em Outubro de 2010, o monte chinês de moeda estrangeira somava 2,6 biliões de dólares – equivalente a 53% do PIB da China. Deste montante, 1,7 biliões são denominados em dólares norte-americanos – este monte está a crescer a uma taxa de 1 milhar de milhão de dólares por dia.