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Guimarães recebe Start Europe a meio caminho

No ciclo europeu de conferências “Start Europe”, Portugal foi a exceção à regra: em vez de uma, a Comissão Europeia aprovou três ações. Guimarães acolheu uma delas, onde vários representantes de indústrias e associações ligadas ao têxtil destacaram a necessidade de conhecer os mercados extracomunitários para os poder «casar».

Graça Guedes, Rita Noro, Agostinho Afonso, Ana Silva e Manuel Torres

Na última quinta-feira de setembro, o campus de Azurém da Universidade do Minho recebeu o workshop “Comércio têxtil na União Europeia: quão diferente é do comércio com o resto do mundo?”, que refletiu sobre as exigências no sector têxtil e do vestuário. Organizado por Graça Guedes, professora da Escola de Engenharia da universidade e pelo projeto editorial Empreendedor Media, a conferência faz parte da iniciativa “Start Europe”, cujo objetivo é estreitar relações entre as diversas entidades europeias, sejam elas universidades, organizações, empresas ou cidadãos, no sentido de incentivar novos projetos e maximizar os seus potenciais resultados.

A Start Europe estreou-se este ano e escolheu como tema o comércio. Miguel Cordeiro, diretor do Empreendedor Media, explicou que a UE aprovou uma ação por país, à exceção de Portugal que conseguiu angariar três – em Braga, Guimarães e Coimbra –, apesar de apenas as duas primeiras serem financiadas.

Chave para «transpor o labirinto»

Manuel Torres

Conhecida pela roupa interior de alta qualidade, a Impetus assumiu-se como uma das convidadas da conferência. Em entrevista ao Portugal Têxtil, Manuel Torres, diretor comercial, reforçou a vasta experiência da empresa no mercado extracomunitário, que se encontra em forte crescimento, nomeadamente a China, Rússia e México, devido à procura de produtos inovadores e sustentáveis. Neste sentido, a empresa apresentou a linha Organic, com a certificação GOTS, que acompanha o produto desde a sua origem até ao embalamento com cartão reciclado, e a nova coleção-cápsula desenvolvida a partir de fios de poliéster reciclado, obtidos através da recolha de redes de pesca de oceanos. Por outro lado, em parceria com a Universidade do Minho, a Impetus investiu na área da saúde, criando a Protech Dry, uma marca pensada para a incontinência ligeira que resulta num produto «ultra absorvente, [que] elimina os odores, tem costuras seladas que evitam o vazamento da urina e transforma a urina em sal», o que lhe permite ser lavada e reutilizada.

No entanto, Manuel Torres afirma que para competir no mercado externo à UE não basta obedecer às tendências da procura – é preciso também utilizar uma estratégia de resposta rápida e atempada. «Cada vez mais é muito importante colocar o produto certo, no momento certo, no local certo», apontou. O diretor comercial enunciou, a título de exemplo, o mercado chinês, dentro do qual «o estilo de vida europeu é imitável, desejável, e uma marca que tem uma presença forte dentro da UE, que é conhecida pelos consumidores europeus, tem este valor para os nossos parceiros chineses».

Ana Silva

Por seu turno, a Tintex assumiu que a chave para o sucesso internacional passa pelo contacto direto com os clientes. Exportando cerca de 99,5% dos seus produtos, desde 2017 que começou a descartar a intermediação do confecionador e começou a trabalhar diretamente com as marcas, apresentando-lhe o produto, que depois seria vendido conforme as suas orientações. Neste contexto, a abertura da empresa aos EUA trouxe-lhe novos mercados, como a China e o Vietname, que apesar da sua rentabilidade, implicam também novos desafios. Ana Silva, diretora de sustentabilidade da Tintex, apontou para lead times mais elevados e normas e testes restritos, para além das burocracias e taxas aduaneiras inerentes a estes mercados, que obviamente acarretam custos acrescidos, afetando a competitividade da empresa. A palestrante assumiu que «temos excelente feedback dos mercados exteriores, mas também temos um esforço muito maior do que na Europa».

Agostinho Afonso

Através de uma analogia a um labirinto, Agostinho Afonso, administrador da Têxteis Penedo, admitiu a complexidade do mercado extracomunitário, devido às dificuldades burocráticas e custos adicionais. Por comparação, «a UE desburocratizou uma série de processos e simplificou toda a proximidade com os nossos clientes e com os nossos mercados», explicou. A Têxteis Penedo, exporta 99% da sua produção, maioritariamente para os EUA (50%) e para a União Europeia (30%), contando também com a participação de vários outros países, como o Japão, Austrália e Nova Zelândia. Agostinho Afonso espera que, nos próximos anos, Portugal continue a apoiar as empresas exportadoras, através de um contínuo investimento na modernização e na internacionalização do negócio, no sentido de «transpor o labirinto».

Negócio e cultura

Paulo Vaz, diretor-geral da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, enfatizou o domínio da região Norte do país na indústria têxtil, com destaque para Braga e Porto, neste sector que representa cerca de 10% das exportações portuguesas. Argumentou que «a Europa é o espaço mais proativo para promover acordos comerciais que ainda induzam maior liberdade de comércio» e acredita que os últimos acordos negociados são «particularmente interessantes».

Helga Barreiros, Gualter Morgado, José Campos e Matos e Paulo Vaz

Por sua vez, José Campos e Matos, diretor da ANJE (Associação Nacional de Jovens Empresários), indicou que, ao contrário das pequenas e médias empresas (PME), as startups tendem cada vez mais à exportação, devido aos empreendedores jovens que, por norma, estão por trás da sua criação. Aliás, indicou, as exportações portuguesas de têxteis e vestuário em 2018 alcançaram o valor mais alto de sempre devido à qualidade de produção, ao design cuidado e em concordância com as tendências da moda e ao prestígio conquistado pelos criadores portugueses nas passerelles internacionais. Campos e Matos acredita que «o sector têxtil se encontra hoje melhor apetrechado para competir no mercado internacional, após o embarque da liberalização do comércio mundial».

Gualter Morgado, gestor do projeto da Associação Portuguesa das Indústrias de Mobiliário e Afins (APIMA), aproveitou para exemplificar as várias diferenças culturais que podem condicionar o negócio empresarial, destacando a importância de conhecer o país e o respetivo mercado, antes de definir uma estratégia. Numa analogia social, afirma que, fora da comunidade europeia, são precisos pelos menos três anos para começar a fechar negócio. «Primeiro é preciso conhecer, namorar e depois vamos dizer se casamos ou não», afirmou. Neste contexto, Helga Barreiros, da Câmara do Comércio e Indústria Luso-Alemã (CCILA) trouxe o exemplo específico da Alemanha, enquanto mercado difícil de conquistar, devido à sua natureza fechada e inflexibilidade cultural.

Pôr valor à criatividade

Graça Guedes aproveitou ainda para destacar as qualidades de flexibilidade e adaptação portuguesas, que sempre atraíram o cliente estrangeiro. «Temos de começar a pôr preço à criatividade, pôr valor à criatividade», defendeu a organizadora do evento.

Rita Noro

Neste contexto, Rita Noro apresentou-se como uma “lufada de fresco”, no sentido em que faz «tudo sozinha», desde a ideia até ao produto final, passando pela costura, comunicação e contacto com o cliente, num conceito de marca que denominou por upcycling fashion brand. O processo envolve recolher todo o tipo de desperdício, a partir do qual são produzidas peças de vestuário únicas e exclusivas, a custo zero, explicou ao Portugal Têxtil. Este conceito é uma forma de contrariar a fast-fashion e todo o impacto ambiental e social que lhe está intrínseco. Rita Noro fotografa texturas e aplica-as nas suas peças, tentando «reproduzir uma sensação, porque eu não consigo trabalhar na moda sem um conceito». Sem querer ser «igual a toda a gente», recorre aos conhecimentos de figurinismo que obteve durante a sua formação em cenografia e vestuário de teatro e procura criar artigos com um estilo fantasioso e vitoriano, sem pensar nas tendências de moda. «As pessoas sentem que estão a vestir uma obra de arte», sublinhou.

A Start Europe fechou o ciclo em Coimbra, no dia 30 de setembro, onde apresentou o tema “Empreendedorismo sustentável: como os acordos comerciais podem promover os direitos humanos e o meio ambiente”.